Agropolítica
Sem vetos, saiba como o licenciamento ambiental destrava o agronegócio
Simplificação do licenciamento ambiental atende demandas do agro e de infraestrutura; governo pretende judicializar o tema com ação no STF
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
28/11/2025 - 17:10

O Congresso Nacional derrubou 52 dos 63 vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao novo marco do Licenciamento Ambiental. A decisão altera procedimentos aplicados há décadas e destrava setores como agronegócio, infraestrutura e saneamento.
Com a votação dos parlamentares, retornam ao texto legal trechos como os que tratam da dispensa e simplificação do licenciamento ambiental (e de suas exigências e responsabilidades); e função dos órgãos federais, estados e municípios nesses processos. Os dispositivos rejeitados pelo Parlamento vão à promulgação.
Segundo a advogada Patrícia Arantes de Paiva Medeiros, da Sociedade Rural Brasileira (SRB), o impacto varia conforme o setor. Para os produtores rurais, o texto original (sem os vetos do governo) melhora a segurança jurídica, fortalece a autonomia de Estados e municípios, além de reduzir o Custo Brasil — ou seja, o conjunto de entraves burocráticos, tributários, logísticos e regulatórios que elevam o custo de fazer negócios no País.
Patrícia lembra que o País tinha mais de 27 mil normas sobre licenciamento e prazos que podiam superar 2 mil dias. “Processos digitais, regras claras e padronização nacional diminuem custos diretos e indiretos e evitam exigências contraditórias”, destacou.
Para ela, infraestrutura e agronegócio tendem a ganhar competitividade. A uniformização nacional reduz distorções regionais e estimula investimentos em logística, fator que influencia o escoamento da produção.
O marco cria parâmetros nacionais para análise de risco ambiental. A advogada explica que a lei “direciona as exigências conforme o risco baixo, médio ou alto”, o que, segundo ela, traz racionalidade e previsibilidade ao empreendedor.
Competências locais ficam mais amplas
Patrícia considera positiva a descentralização. Segundo ela, as decisões passam a ser tomadas mais perto da realidade de cada região. A regulamentação deixa de ser exclusivamente da União e passa a ser feita também por Estados e municípios, desde que respeitem requisitos mínimos.
Ela afirma que a mudança ajuda produtores rurais, que terão normas “mais ajustadas às condições locais”.
Dispensa para atividades agropecuárias de baixo impacto
Para o agronegócio, a principal mudança é a dispensa de licenciamento para atividades agrícolas, civis e pastoris de baixo impacto, com base apenas na apresentação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). “O CAR é autodeclaratório. Se houver inconsistência, o Estado chama o produtor para corrigir”, explicou.
Ela reconhece que muitos Estados ainda verificam poucos cadastros, mas afirma que o novo modelo cria previsibilidade. A dispensa não se aplica à pecuária intensiva. “Confinamentos continuam obrigados a licenciamento por terem impacto médio ou alto. A aprovação depende de avaliação técnica prévia”, disse.
Manifestação de órgãos federais será opinativa
O projeto também modifica a atuação de entidades como Funai, Fundação Palmares e gestores de unidades de conservação. “A manifestação passa a ser opinativa. Não haverá suspensão automática do processo de licenciamento”, disse. Para a SRB, a mudança reduz entraves especialmente em obras de infraestrutura, como rodovias usadas pelo setor agropecuário.
No saneamento, explica, instalações enquadradas no marco legal do setor poderão ser dispensadas de licenciamento, o que afeta propriedades que dependem desses serviços.
LAE deve avançar na próxima semana
Outros vetos, relacionados à Licença Ambiental Especial (LAE), permanecem sem definição porque dependem Medida Provisória 1308/25, ainda sob análise no Congresso. “A MP está na comissão presidida pela senadora Tereza Cristina, com relatoria do deputado Zé Vitor. A discussão deve avançar na próxima semana”, disse. “[…] ela é vinculada a obras estratégicas e inclui também infraestrutura”, explicou.
Governo planeja levar vetos ao STF
Após a derrubada dos vetos presidenciais, o governo federal estuda judicializar a questão. Em entrevista ao programa “Bom Dia, Ministro”, da EBC, nesta sexta-feira, 28, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, classificou o momento como “luto”, afirmando que uma legislação construída ao longo de décadas foi “demolida” em uma única sessão do Congresso, deixando a população “desamparada do ponto de vista legal”.
Ela afirmou que o discurso de modernização “disfarça retrocessos” e que Ibama, ICMBio e demais órgãos ambientais ficarão “de mãos atadas” se a nova lei prevalecer. Também afirmou que o governo estuda judicializar o tema por considerá-lo inconstitucional, apontando violação ao artigo 225 da Constituição — que trata do direito de todos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado e das obrigações do poder público e da sociedade para protegê-lo.
A ministra criticou a licença por autodeclaração, que, segundo ela, permite que o próprio empreendedor declare estar em conformidade mesmo em atividades de alto risco. Disse ainda que a possibilidade de cada estado e município criar regras próprias levará ao “descontrole”, porque problemas ambientais — como rios contaminados — ultrapassam fronteiras.
Racionalidade regulatória
Para a advogada Patrícia Medeiros, da SRB, a reação do governo já era esperada pelo setor produtivo e que o impacto dependerá da leitura do STF. “O que pode impactar é realmente se o STF vai ter essa mesma percepção de dificuldades em relação ao nosso ambiente de negócios, ou se realmente ao cumprimento do que foi votado e aprovado e derrubado de todos os vetos pelos representantes do Legislativo”.
Ela afirmou confiar na análise técnica da Corte. “Nós confiamos que eles vão ter essa sensibilidade em relação a toda a votação que foi feita e a todas as explicações em relação à racionalidade regulatória do licenciamento ambiental.”
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
Governo retoma investigação que pode impor barreira sobre importação de leite
2
Já imaginou tomar um choque por causa de um peixe?
3
Crédito para renegociação trava no RS e Banco do Brasil busca explicação
4
RS: Farsul aponta entraves na renegociação de dívidas rurais
5
Brasil abandona acordo por transporte pesado elétrico um dia após assinatura
6
CNA pede que STF suspenda novas demarcações de terras indígenas até julgamento do marco temporal
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
Setor do biodiesel comemora projeto que combate a prática do 'devedor contumaz'
Segundo a FPBio, casos recorrentes de sonegação evidenciam a urgência de um marco legal robusto para coibir o crime
Agropolítica
Governo estuda nova MP para destravar o crédito de dívidas rurais
Casa Civil avalia nova MP para incluir a safra 24/25, dívidas judicializadas e reduzir juros nos programas de renegociação
Agropolítica
Senado reafirma importância do RenovaBio como política de descarbonização
Sessão solene comemorou e homenageou a trajetória do programa, que atinge 95% de toda a oferta nacional de etanol
Agropolítica
Tilápia pode entrar em lista de invasoras, mas criação seguirá liberada
Ministério do Meio Ambiente diz que medidas visam evitar expansão da espécie em habitats naturais, como a Amazônia
Agropolítica
Agricultores familiares fazem ato por medidas contra crise no campo
Mobilização em frente a prédios de ministérios, em Porto Alegre, cobra do governo federal ações para aliviar dívidas e valorizar produção
Agropolítica
Marco temporal movimenta fim do ano no Congresso Nacional e no STF
PEC avançou no Senado e agora vai para a Câmara, enquanto Supremo começa a julgar ações; debate entre poderes se arrasta há anos
Agropolítica
Banco do Brasil e Mapa vão ao Paraná destravar as renegociações de dívidas rurais
Segundo o BNDES, dos R$ 12 bilhões liberados pela MP 1.314/2025 apenas R$ 60,6 milhões foram usados em operações no Estado
Agropolítica
Câmara aprova regularização para imóveis em faixa de fronteira e texto vai à sanção
FPA diz que processo foi modernizado e traz segurança jurídica para produtores