Agropolítica
CNA pede que STF suspenda novas demarcações de terras indígenas até julgamento do marco temporal
Para a confederação, demarcações representam insegurança jurídica a produtores; governo do MT também aciona STF
Redação Agro Estadão
24/11/2025 - 16:59

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF), nesta segunda-feira, 24, a suspensão de portarias e decretos do governo federal que homologam novas demarcações de terras indígenas. A entidade quer que essas medidas fiquem paralisadas até o tribunal concluir o julgamento sobre a validade da Lei 14.701/2023, que trata do marco temporal.
Segundo a petição, o pedido é uma reação às “portarias declaratórias editadas pelo ministro da Justiça, bem como dos Decretos Homologatórios editados pelo presidente da República, demarcando supostas terras tradicionalmente ocupadas por indígenas”. Para a CNA, a iniciativa ocorre “em completa deslealdade com esta Corte e com o Parlamento brasileiro”.
Na última semana, o ministro da Justiça e Segurança Pública (MJSP), Ricardo Lewandowski, anunciou a assinatura de dez novas portarias declaratórias de demarcação de terras indígenas, que serão publicadas nos próximos dias pelo Ministério da Justiça, em ação conjunta com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI).
A confederação afirma que, ao analisar a constitucionalidade da lei, o Supremo decidiu criar uma mesa de conciliação para buscar acordo diante do cenário de instabilidade política e social que permeia a temática. No entanto, para a CNA, ao avançar com novas demarcações, o governo demonstra que nunca “buscou atuar com lealdade processual ou com respeito à busca pela solução consensual, ou seja, na busca pela solução efetiva do problema”.
De acordo com nota oficial, “a atuação do Poder Executivo demonstra apenas que, no seu entendimento, o respeito aos direitos fundamentais só se aplica quando para seus próprios interesses”. A entidade afirma que “o direito de propriedade de agricultores, especialmente pequenos e médios, pode ser desprezado e, por decorrência lógica, incentivado o conflito no campo”.
A petição reúne um histórico de demarcações recentes em diferentes Estados e argumenta que as medidas promovem “instabilidade social”, com risco de confrontos e insegurança jurídica para produtores que têm propriedades nas áreas definidas pelo governo.
Para a CNA, “a desconsideração da plena vigência” da lei do marco temporal “demonstra o completo desprezo do governo federal com os produtores rurais e com a segurança jurídica”.
Governo de MT já acionou o STF
Na última sexta-feira, 21, o governo do Mato Grosso entrou com ação no STF — por meio da Procuradoria‑Geral do Estado — para suspender os efeitos do decreto que amplia a Terra Indígena Manoki, em Brasnorte, de 46 mil para 252 mil hectares. Segundo nota do governo, ação foi anexada à Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) nº 87, sob relatoria do ministro Gilmar Mendes.
A Procuradoria alega que o decreto viola a lei do marco temporal. “A tentativa de ampliação revela grave afronta ao princípio da legalidade, pois desconsidera o artigo 13 da nova lei, que veda de forma expressa a ampliação de terras já homologadas”, diz trecho da ação.
Além disso, defende que não há comprovação de ocupação indígena na área até 5 de outubro de 1988, marco exigido para reconhecimento de terras tradicionais. Atualmente, o Estado possui 73 terras indígenas demarcadas, somando mais de 15 milhões de hectares — o equivalente a 16% do território de Mato Grosso, segundo o governo.
O governador Mauro Mendes afirmou que a ação não questiona os direitos dos povos indígenas, mas “exige que tudo seja feito dentro da lei”. “Não aceitaremos que um decreto presidencial, editado de forma açodada e sem respaldo legal, prejudique quem produz e vive há décadas nessas regiões”, disse, por meio da nota.
CRA cobra explicações do governo federal
Na última semana, a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) do Senado aprovou, no dia 19, requerimento que obriga o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, a dar explicações sobre a legalidade das novas portarias e decretos de demarcação.
O requerimento, apresentado pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), aponta que a Lei 14.701/2023 “está em pleno vigor” e que os atos recentes “levantam sérias dúvidas” quanto ao respeito à legislação.
Em uma rede social, a parlamentar afirmou que a medida fragiliza a propriedade rural produtiva e cria insegurança jurídica no campo. “Precisamos de políticas de inclusão produtiva e de entrega de títulos oficiais, não de medidas que incentivem invasões de terras produtivas”.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
Proposta no Congresso pode flexibilizar porte de arma em propriedades rurais; entenda
2
Ministério da Pesca cria grupo para discutir Registro Geral da Atividade Pesqueira
3
O chapéu vai ser proibido no campo? Entenda essa polêmica
4
Governo inicia processo de desapropriação de 7 imóveis rurais para reforma agrária; veja onde
5
Novo projeto no Congresso busca evitar colapso da cadeia do leite; entenda
6
Anvisa aprova cultivo de cannabis, mas especialistas veem impacto limitado
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
Alckmin diz que enviará proposta sobre salvaguardas brasileiras no acordo Mercosul-UE
Câmara dos Deputados aprova acordo provisório entre Mercosul e União Europeia e texto segue para análise do Senado
Agropolítica
China “nunca” disse que não habilitaria novos frigoríficos, diz encarregado de Comércio Internacional do Mapa
Setor acredita que novas habilitações podem ocorrer ainda neste ano; distribuição de cotas pode ser discutida nesta semana
Agropolítica
Decreto atualiza regras para fiscalização de fertilizantes e bioinsumos
Medida atualiza normativas e procedimentos
Agropolítica
Câmara pode votar acordo Mercosul-UE ainda nesta semana, diz relator
Parlamentares e Executivo também se mobilizam para que decreto com salvaguardas brasileiras saia nos próximos dias
Agropolítica
Ministério da Agricultura suspende importação de cacau da Costa do Marfim
Medida foi tomada por conta de risco sanitário; CNA afirma que decisão é fundamental para proteger a produção nacional
Agropolítica
Governo revoga decreto de Hidrovia do Tapajós após ocupação indígena
Decisão foi negociada entre os ministérios dos Povos Indígenas e de Portos e Aeroportos; prazo para desocupação é de 48 horas.
Agropolítica
Fim da jornada 6x1 pode criar vácuo operacional no agro com impacto bilionário, aponta FAEP
Só no Paraná serão necessários 107 mil novos trabalhadores para manter o ritmo de produção; avicultura, suinocultura e laticínios estão entre os mais impactados
Agropolítica
MDA orienta produtores de cebola sobre renegociação de dívidas
Queda no preço da cebola gera crise no setor; produtores devem procurar bancos e comprovar dificuldade temporária para renegociar dívidas