Sustentabilidade
“Coringa” da agricultura amazônica: cafés robustas se destacam com produtividade e qualidade
Genética e manejo pós-colheita trazem protagonismo aos cafés robustas amazônicos e um caminho para pequenos produtores e indígenas da região Norte
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com
11/02/2025 - 09:17

A região Amazônica é conhecida por frutos como o açaí e o cupuaçu, porém o café tem se destacado como uma alternativa para agricultores familiares. Chamado de “coringa” pelo pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Enrique Alves, os cafés robustas amazônicos têm diferenciais que impulsionam a atividade.
“É uma cultura que se adapta tão bem à agricultura familiar e é capaz de gerar renda e qualidade de vida em pequenas áreas, diminuindo a pressão sobre a floresta. Além disso, o café robusta tem uma plasticidade agronômica muito grande, ele se adapta a diferentes sistemas de cultivos, inclusive agroflorestais, e tem uma alta fixação de carbono”, destaca o pesquisador da Embrapa Rondônia ao Agro Estadão.
O sucesso dos robustas amazônicos se deve principalmente a dois fatores: produtividade e qualidade. De nove a dez sacas por hectare, a produção média do café na região saltou para 54,3 sacas por hectare, segundo a última projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Além disso, vieram também o reconhecimento com o sabor e a textura.
“O brasileiro gosta muito de café encorpado e os cafés robustas finos têm um corpo mais aveludado. É característica dele uma presença mais marcante. Então, o que a gente tem hoje são mais opções para o consumidor”, afirma o Alves.

O que os cafés robustas têm?
O também pesquisador da Embrapa Rondônia, Marcelo Curitiba, elenca dois atributos dos cafés robustas responsáveis pela boa produtividade e qualidade. O primeiro é a genética. Por serem da espécie canephora, os robustas não se autopolinizam, ou seja, um robusta precisa de outro pé de robusta para conseguir gerar fruto. Isso gera uma variedade grande de robustas, daí a denominação no plural dos cafés.
Além disso, são cafés adaptados à realidade do bioma Amazônico. Um processo de seleção das variedades que é recente, iniciada na década passada, e resulta em alta produção. “Esses cafés, no passado, tinham produtividade de nove, dez sacas. Com esses cafés de agora, a gente consegue produtividade acima de 150 sacas por hectare, dependendo do manejo e da bienalidade positiva”, afirma Curitiba.
O outro aspecto é com relação à colheita e pós-colheita. Os produtores priorizam colher o maior percentual de frutos maduros. Além disso, o processo de secagem é mais lento, decantando a qualidade do café.
“No manejo voltado para qualidade, você tem que pensar no manejo na lavoura e no pós-colheita. O manejo das lavouras não é tão diferente do que é praticado em outros lugares. O grande diferencial está na pós-colheita: colher a maior porcentagem de frutos maduros; depois promover a lavagem desses cafés para tirar os frutos secos e mal formados; colocar para secar em terreiro suspenso ou um processo de secagem mais lenta. Demora aí de seis a sete dias, enquanto no processo tradicional é uma secagem rápida, de horas, em temperaturas mais elevadas”, reforça o pesquisador.
São esses elementos que fizeram com que o café robusta, mesmo sendo canephora, ganhasse o paladar e também pudesse ser classificado como canephora fino. Como explica Enrique Alves, até então, os canephoras eram tidos como uma espécie de café de segunda classe, sendo utilizados para a opção solúvel ou na mistura em blends. No entanto, isso mudou.
“O mundo descobriu que gosta de canephora. O mundo descobriu que canephora fino não tem nada a ver com aquelas descrições antigas, que falavam que era insosso, bebida neutra, extremamente amargo. Quando somo a essa diversidade genética, uma diversidade de novos processos de secagem e torra, eu aumento o leque de opções desse café. Com isso, aumentamos a valorização desse café de forma geral”, comenta Alves.

Um café para pequenos produtores
Outra característica do cultivo dos cafés robustas amazônicos é a produção por produtores de pequena escala. Em Rondônia, terceiro maior produtor de café canephora do Brasil, a produção é feita por aproximadamente 17 mil famílias. A média das propriedades é de 3,5 hectares.
Para agregar valor, muitos produtores fazem a própria torra e comercializam seus cafés. Além disso, investem no turismo rural. É o caso do sítio Rio Limão, do produtor Ronaldo Bento. A propriedade familiar fica em Cacoal (RO), cerca de 480 quilômetros da capital Porto Velho (RO).
“Atendemos cerca de dois mil turistas por mês, que buscam conhecer as lavouras e o processo produtivo e degustam um típico café colonial. Vendemos uma média de 200 quilos de café por semana, somente na propriedade. Cada embalagem com 500 gramas de café comum ou 250 gramas de café gourmet custa R$ 25. Além disso, nosso café abastece mercados locais e de outros estados. Produzir café está no nosso sangue. Não imagino minha família em outra atividade”, explica o produtor.
Além disso, há incentivos para a cultura ser uma alternativa de renda também para indígenas. “Não é incentivar os indígenas a derrubar mata para plantar café. Eles têm esses plantios todos em sistemas agroflorestais, tentando melhorar as condições de vida dessas comunidades”, explica Marcelo Curitiba. Um desses estímulos é o projeto Tribos, da empresa Três Corações, que compra a produção indígena de café e ainda paga uma adicional nos robustas classificados como finos.
Outro diferencial que os pesquisadores apontam é a sustentabilidade ambiental, já que a atividade tem alta produtividade e bom retorno financeiro, a pressão para expandir as áreas agricultáveis na Amazônia diminui. “Não estamos derrubando a floresta para produzir café, pelo contrário, estamos conseguindo reduzir a área de café com uma produtividade alta”, conclui Curitiba.
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