Sustentabilidade
Agro em 2026: crédito verde e regras ambientais mais rígidas
Leis ambientais, exigências internacionais e mercado de carbono devem influenciar o agro em 2026
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com
02/01/2026 - 05:00

O Brasil foi centro da discussão global sobre clima e sustentabilidade em 2025 ao sediar a 30º Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30). Internamente, o país também avançou em algumas legislações e regras, como a lei que cria o mercado de carbono e normativas que endureceram os requisitos ambientais na hora de acessar crédito rural subsidiado e o seguro rural.
Para especialistas ouvidos pelo Agro Estadão, no próximo ano deve haver uma continuação dessas medidas, seja por meio da repercussão dos compromissos assumidos na COP 30, seja pela regulamentação e aperfeiçoamento das regras e critérios ambientais. Além disso, o cenário internacional também deve seguir impactando o agro brasileiro em 2026, uma vez que há um entendimento de que o uso de regras ambientais como barreiras comerciais vem crescendo.
1) Crédito mais barato para quem tem práticas sustentáveis
Uma das frentes que deve ganhar mais força em 2026 é o direcionamento de crédito com taxas mais atrativas para produtores que já adotam — ou que passem a implementar — práticas sustentáveis. No Plano Safra, algumas linhas já preveem redução de juros para projetos ligados à adoção de tecnologias de baixo carbono. Fora dele, programas como o Caminho Verde Brasil e o EcoInvest vêm ganhando tração ao ofertar recursos voltados à recuperação de áreas degradadas e a investimentos ambientais estruturantes.
Para o sócio-diretor da Agroicone, Rodrigo Lima, o produtor precisa olhar com mais atenção para esse tipo de financiamento, especialmente diante do cenário econômico. “Eu acho que tem algumas coisas acontecendo na agenda de agricultura sustentável que merecem atenção, voltado especialmente para financiamento. Acredito que o produtor deveria começar a ficar atento a isso, porque quanto menor for a taxa de juros pegar dinheiro para adotar tecnologias, é melhor para ele”, afirmou.
2) Na busca pela comprovação de que não há desmatamento
Um dos aspectos que deve permear o ano de 2026 é a questão do desmatamento. Neste ano, o assunto esteve em diferentes contextos: na COP 30, com os compromissos assumidos pelo Brasil; no Plano Clima, com o impasse na formulação do plano setorial de mitigação; nas regras de crédito subsidiado, que passaram a exigir que não haja desmatamento nas áreas beneficiadas.
Para Rodrigo Lima, a agenda vai além das exigências externas. “Provar que não tem desmatamento ilegal é do interesse do produtor. Porque muito além das questões internacionais, ele vai ter problema com o banco aqui dentro”, afirmou. Segundo ele, a incapacidade de demonstrar regularidade pode resultar em restrições de crédito, fiscalização e até embargos de área.
Nesse contexto, a implementação do Código Florestal ganha ainda mais relevância, especialmente no que diz respeito à análise e validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Como aponta o coordenador de Sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Nelson Ananias, “não basta só cumprir, como já é feito, mas é preciso comprovar que está sendo cumprido”. Para ele, a regularização ambiental e fundiária será decisiva para quantificar, qualificar e até viabilizar a remuneração de serviços ambientais no futuro.
2.1) EUDR e outros movimentos internacionais
Mesmo com o adiamento, a lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR, sigla em inglês) deve continuar no radar do setor. Para Nelson Ananias, o desafio não é apenas atender à norma europeia, mas responder a um movimento mais amplo de exigências de mercado. “Com certeza, esse tema estará na nossa agenda no próximo ano”, destacou.
O discurso do desmatamento no Brasil também poderá servir como argumento para outros países ou blocos aprovarem regramentos de barreiras comerciais. Nos Estados Unidos, mesmo com a queda das tarifas para uma parcela dos produtos agropecuários, ainda segue uma investigação contra o Brasil e um dos itens é o desmatamento ilegal. Segundo Lima, conseguir separar o desmatamento legal do ilegal será importante nesse contexto.
“O fato do Brasil não conseguir separar desmatamento legal de ilegal, não provar bonitinho pelos dados oficiais o quanto de desmatamento acontece em áreas privadas… facilita o uso desse discurso como barreira ao comércio”, avaliou.
3) Mercado de carbono “não será mais uma safra”

A legislação que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) deve trazer oportunidades para o setor agropecuário brasileiro, como aponta o sócio-diretor da Agroicone. Neste ano, o governo já criou a Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, lida ao Ministério da Fazenda, e que será responsável por coordenar ações ligadas a fase inicial de implementação do mercado de carbono.
No entanto, Lima alerta que é importante estar atento à regulamentação da lei e adverte que o produtor não deve pensar nisso com uma receita constante. “O carbono nunca vai ser a próxima safra, no sentido de que agora, além do que ele faz, ele vai ter mais uma receita cativa, garantida, ano a ano. É preciso pensar um conjunto de setores que poderá gerar crédito de carbono, que não é só floresta, que não é só conservação de floresta, porque se for isso, mata o mercado de carbono brasileiro”.
3.1) Regulações para 2026
Para 2026, a expectativa é de avanço em regulamentações ainda em aberto, que afetam a agenda ambiental no agro. O coordenador de Sustentabilidade da CNA aponta que temas como licenciamento ambiental, por exemplo, ainda dependem de normas complementares para serem operacionalizados.
Ele também chamou atenção para regras infralegais, como resoluções de conselhos e comitês, que acabam orientando a aplicação dessas políticas. “Apesar de não serem leis, elas muitas vezes são aplicadas tendo força de lei”, disse, ao citar uma resolução recente do Conama sobre a autorizações de supressão de vegetação e normas relacionadas a espécies exóticas invasoras como pontos que devem seguir no radar do setor.
4) Os compromissos da COP 30 e o que virá da COP 31
A agenda climática internacional deve continuar influenciando o setor agropecuário em 2026, a partir dos compromissos assumidos pelo Brasil na COP 30. Entre eles está o chamado Compromisso Belém 4x, que trata da ampliação da produção e uso dos biocombustíveis. O especialista da CNA enxerga que isso é outra oportunidade para o setor. Na opinião de Ananias, esses compromissos podem abrir espaço para políticas que conciliem exigências ambientais e estímulos econômicos. “Que isso venha com incentivos também, não só ações de comando e controle”, afirmou.
Já o sócio-diretor da Agroicone, Rodrigo Lima, chama atenção para a proposta brasileira de construção de um roadmap para enfrentar o desmatamento, ressaltando que o tema envolve diferentes vetores. “O que é um roadmap para acabar com o desmatamento no Brasil?”, questionou, ao lembrar que a agropecuária não é o único fator associado à derrubada de vegetação. Ele também lembrou que a próxima COP, na Turquia, deve marcar a conclusão dos trabalhos do grupo de Sharm el-Sheikh sobre agricultura, segurança alimentar e clima. “Vai ser interessante observar como isso vai evoluir ano que vem para chegar a uma decisão na COP31”, disse.
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