Sustentabilidade
Código Florestal avança no CAR, mas emperra no PRA, aponta estudo
Enquanto validação do CAR avança, adesões ao Programa de Regularização Ambiental crescem pouco e revelam baixo engajamento
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
18/12/2025 - 05:00

Apesar do avanço significativo na validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) como mostrou reportagem do Agro Estadão, a implementação do Programa de Regularização Ambiental (PRA) continua sendo o principal desafio da agenda do Código Florestal brasileiro. A legislação institui as regras gerais sobre como a vegetação nativa pode ser explorada e as normas do uso sustentável das terras rurais no Brasil.
Dados compilados pelo Climate Policy Initiative, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CPI/PUC-Rio), mostram que o salto na análise dos cadastros não tem sido acompanhado pela mesma evolução na adesão dos produtores ao PRA. Tampouco pela formalização dos compromissos necessários à recomposição de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais.
A dificuldade começa pela própria adesão dos produtores rurais. Mesmo com análises concluídas e passivos confirmados, a entrada no programa avança de forma lenta e desigual. “O PRA é a etapa mais difícil. Para chegar ao programa, o cadastro precisa estar analisado e o órgão ambiental precisa confirmar onde está o passivo e qual é seu tamanho. […] Mas o produtor que tem passivo sabe e deveria estar recuperando sua vegetação independentemente da convocação do Estado”, disse Cristina Leme Lopes, gerente sênior de pesquisa do CPI/PUC-Rio.
Conforme explica a especialista, o acordo estabelecido pelo Código Florestal de 2012 criou regras diferenciadas para passivos anteriores a 2008, o que aumentou a importância do PRA como instrumento de regularização. Na prática, isso significa um acordo com os produtores com passivo anterior a esse período, em que eles podem optar por compensar a reserva legal ou recuperar apenas parte da APP.
Porém, para ter acesso a essas alternativas, precisam aderir ao Programa de Regularização Ambiental e reconhecer formalmente que possuem um passivo ambiental. “[…] Os produtores jurados falam ‘bom, vou aguardar a convocação para o programa de regulação ambiental e eu começo a recuperar o meu passivo’”, observa a pesquisadora, destacando que esse comportamento impede avanços importantes no termo de compromisso.
Lopes ressalta ainda que a implementação do PRA também varia entre os Estados que adotaram diferentes estratégias para operacionalizar o programa. Nos Estados com maior estrutura institucional e que investiram em fluxos digitais integrados ao CAR, há facilitação das análises e redução de retrabalhos. Já naqueles que ainda dependem de processos manuais, os processos avançam lentamente.
Avanços de 2025
Apesar dos desafios, os dados analisados pelo CPI/PUC-Rio registraram avanços concretos na implementação do PRA. O marco do período foi o aumento no número de Termos de Compromisso (TCs) — instrumento que formaliza a adesão do produtor e dá início à regularização ambiental do imóvel.
Nesse aspecto, São Paulo foi o destaque. Em um ano, o Estado triplicou o número de termos assinados no período. Já Mato Grosso, que lidera historicamente essa agenda, também apresentou incremento, enquanto o Maranhão surpreendeu ao quadruplicar o número de TCs firmados.
Ainda assim, o panorama nacional permanece distante do esperado. Mato Grosso segue como líder absoluto, com 3.229 termos de compromisso assinados, seguido por:
- Mato Grosso do Sul (1.552);
- Pará (1.199);
- Acre (977).
Estados com desempenho considerado “intermediário” incluem:
- São Paulo (800);
- Goiás (690);
- Maranhão (418);
- Rondônia (386);
- Minas Gerais (204).
Por sua vez, Alagoas, Espírito Santo, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Amazonas apresentam resultado considerado inicial.
A gerente sênior de pesquisa do CPI/PUC-Rio destaca que, embora os números absolutos ainda sejam pequenos diante da dimensão do desafio, é possível observar que os mesmos Estados que avançaram de forma significativa na análise do CAR também registraram progressos relevantes na formalização dos termos de compromisso do PRA. “Isso quer dizer o quê? Que Estados onde a agenda do Código Florestal é uma prioridade política, que estão bem estruturados, estão bem equiparados, a gente observa uma avanço no CAR e, nas mesmas condições, vemos um avanço no PRA”, salienta.

Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Sustentabilidade
1
CMN adia exigência ambiental, mas endurece outra regra do crédito rural
2
Agro em 2026: crédito verde e regras ambientais mais rígidas
3
Moratória da Soja: AGU pede mais prazo ao STF para manter suspensão de lei de MT
4
Moratória da Soja: produtores comemoram a saída de grandes empresas do acordo
5
BNDES lança edital para destravar certificação de carbono no Brasil
6
Exportações brasileiras de etanol têm o menor desempenho desde 2017
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Sustentabilidade
Biodiesel: Brasil tem maior produção da história em 2025 e projeta novo salto
Levantamento da StoneX aponta que avanço das misturas obrigatórias e expansão industrial sustentaram o recorde
Sustentabilidade
Elas chegam quando o calor aperta — e não é por acaso
Protegidas pela Lei nº 9.605/98, as andorinhas migram para o Brasil fugindo do frio e atuam no controle natural de mosquitos e pragas
Sustentabilidade
Microsoft fecha megacontrato de carbono com Indigo: veja impacto no Brasil
Acordo firmado nos EUA reforça mercado de créditos de carbono e impulsiona um programa já aplicado na produção agrícola brasileira
Sustentabilidade
Mercosul fornecerá dados de desmatamento no acordo com a União Europeia
Produtos da bioeconomia também terão vantagens adicionais no mercado europeu, afirma Ministério do Meio Ambiente
Sustentabilidade
Exportações brasileiras de etanol têm o menor desempenho desde 2017
Por outro lado, as importações do combustível foram as maiores registradas desde 2021
Sustentabilidade
ANP autoriza início de operação da primeira usina de etanol de trigo do Brasil
CB Bioenergia terá capacidade de processar 100 toneladas do cereal por dia e gerar até 12 milhões de litros de etanol hidratado por ano
Sustentabilidade
Corteva e BP criam empresa para produção de óleo para biocombustíveis
Expectativa é de que a operação comece em 2027, com uso em coprocessamento em refinarias e plantas dedicadas à produção de biocombustíveis
Sustentabilidade
Bunge e Mantiqueira firmam acordo por soja de baixo carbono
Parceria envolve fornecimento de 12 mil toneladas de farelo rastreável e incentiva práticas de agricultura regenerativa