Celso Moretti
Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Recuperação de pastagens degradadas e o aumento da produção agrícola
O Brasil preserva ou protege dois terços do seu território na forma de matas e florestas nativas. Boa parte dessa preservação está dentro das propriedades rurais
12/08/2024 - 08:00

Estima-se que somente os produtores rurais, nos seis diferentes biomas, sejam responsáveis por quase 30% da preservação, graças à aplicação do Código Florestal. O país usa aproximadamente outros 30% para a produção agrícola, pecuária e florestal. São ao redor de 8% para agricultura, 1% para florestas plantadas e 21% para pastagens plantadas e nativas. Esses 21% correspondem a aproximadamente 170 milhões de hectares.
Dados da Embrapa estimam que algo em torno de 110 milhões de hectares das pastagens existentes no país possuam algum grau de degradação. Pastagem degradada pode ser definida como uma área onde, em função do baixo vigor das plantas forrageiras e da infestação de plantas invasoras, a pastagem perde sua capacidade de regeneração natural.
A recuperação dessas pastagens e sua incorporação à matriz produtiva podem fazer com que o país dê um salto significativo na produção de alimentos, fibras e bioenergia. Dados da pesquisa agropecuária indicam que uma parcela de aproximadamente 25% das pastagens degradadas estaria apta para ser transformada em culturas agrícolas. Considerando-se que o país cultivou ao redor de 80 milhões de hectares (dados safra 2022/2023) em primeira e segunda safra, a incorporação dessa área contribuiria para aumentar a produção agrícola em 35%. Adicionalmente, a recuperação das pastagens degradadas também contribui para restaurar a capacidade produtiva dos solos, além de auxiliar na redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE), conservação da biodiversidade e na proteção de recursos hídricos.
É importante ressaltar que nem todas as pastagens degradadas estão em áreas com aptidão agrícola. Estudos conduzidos por diferentes instituições demonstram que baixa disponibilidade de água, salinidade e solos com fertilidade pobre, dentre outros fatores, limitam a recuperação das pastagens. O emprego do zoneamento agrícola de risco climático (Zarc), em conjunção com outras ferramentas, auxilia na identificação das áreas mais propensas à recuperação bem como quais seriam as culturas mais indicadas. O Zarc, desenvolvido pela Embrapa e parceiros, se tornou política pública e, por meio de modelos matemáticos e climáticos, indica o que, quando, como e onde plantar as diferentes culturas agrícolas. O zoneamento contempla mais de 40 cadeias produtivas que são periodicamente revisitadas para ajustar os modelos.
Com base no Zarc, cientistas da Embrapa indicaram quais as culturas podem ser empregadas nas áreas com sinais de degradação. Aveia, cana-de-açúcar, milho, feijão e trigo estão dentre as culturas que podem ser plantadas nas áreas com pastagens degradadas visando à sua recuperação.
Além da recuperação com culturas agrícolas específicas, diferentes tecnologias podem ser adotadas para a recuperação das áreas degradadas. Uma tecnologia adotada em mais de 20 milhões de hectares e que se transformou em política pública em 2006 é uma das aliadas para a mudança indicada acima: a integração lavoura, pecuária e floresta, mais conhecida como iLPF. Adotada em vários biomas brasileiros, a maioria dos sistemas integrados (ao redor de 85%) tem o componente lavoura e pecuária como destaque, ficando o componente florestal para um percentual menor.
Investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação contribuem de forma significativa para garantir a sustentabilidade da agropecuária brasileira. A adoção de tecnologias, como a iLPF, pode contribuir para a redução da emissão de gases de efeito estufa e a incorporação de pastagens degradadas ao sistema produtivo. É o agro brasileiro demonstrando para o mundo que é possível produzir e preservar. E ajudar a alimentar o mundo.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Opinião
1
O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras
2
O Mundo a 4°C e a Economia dos Extremos
3
Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro
4
UE-Mercosul: o custo da postergação
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Opinião
O Mundo a 4°C e a Economia dos Extremos
Um agro brasileiro com mais eventos extremos perde não só produtividade, mas perde regularidade.
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro
Colheita da soja, janela do milho, mix da cana e cenário geopolítico estão entre as variáveis que podem mexer com o agro neste mês
loading="lazy"
Marcos Fava Neves
Opinião
UE-Mercosul: o custo da postergação
Estudo do instituto ECIPE calculou que, para cada mês de atraso na vigência do acordo, a Europa perde € 4,4 bilhões em crescimento do PIB
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras
Mudanças regulatórias, câmbios climáticos e reconfiguração do comércio internacional tornam 2026 um ano desafiador para o agro
loading="lazy"
Celso Moretti
Opinião
Em 2026, o silêncio também comunica
Quando aqueles que entendem de um assunto se calam, o espaço público é ocupado por quem fala mais alto, não por quem fala melhor
loading="lazy"
Marcello Brito
Opinião
A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia
Entenda quais são os próximos passos, tanto na Corte Europeia quanto nos países do Mercosul, para que o tratado passe a valer
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
Setor do biodiesel e agronegócio aguardam confirmação de B16 para março
A decisão reforça o previsto no Combustível do Futuro e é fundamental para garantir estabilidade ao setor, segurança jurídica para os investimentos e previsibilidade
loading="lazy"
Francisco Turra
Opinião
25 anos de inovação que mudaram o agro brasileiro
A inovação agropecuária deixou de ser incremental e tornou-se sistêmica: produzir mais não basta; o desafio é produzir melhor, com eficiência e valor agregado
loading="lazy"
Celso Moretti