PUBLICIDADE
Nome Colunistas

Marcello Brito

Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental.

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

Insegurança jurídica setorial e seus reflexos na Economia e na atração de investimentos internacionais

Setores como infraestrutura, energia limpa, bioeconomia e exportações também sentem os reflexos de um ambiente regulatório volátil

22/08/2025 - 05:00

Contestação judicial de acordos enfraquece a governança ambiental corporativa - Foto: Adobe Stock
Contestação judicial de acordos enfraquece a governança ambiental corporativa - Foto: Adobe Stock

Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado um aumento significativo de disputas judiciais setoriais que colocam em xeque políticas públicas e compromissos voluntários firmados por segmentos estratégicos da economia. A judicialização de instrumentos como os Créditos de Descarbonização (CBIOs) no setor de combustíveis, sobre partes importantes do código florestal ou a contestação da Moratória da Soja, entre outras, por segmentos do agronegócio, são exemplos recentes de processos unilaterais que ameaçam não apenas a segurança jurídica setorial, mas também impactam negativamente a imagem do país perante investidores e mercados internacionais.

O principal problema dessas ações não está apenas no debate legítimo sobre regras ou políticas, mas na forma como ocorrem: muitas vezes, sem diálogo prévio, contrariando acordos consolidados, contratos voluntários ou diretrizes regulatórias amplamente conhecidas. Esse comportamento unilateral cria um ambiente de instabilidade, em que regras podem ser revistas ou ignoradas por interesses momentâneos, fragilizando a previsibilidade necessária para decisões de médio e longo prazos.

CONTEÚDO PATROCINADO

No caso do RenovaBio, por exemplo, o programa foi construído como política de Estado para promover a transição energética no setor de transportes. A criação dos CBIOs, títulos lastreados em redução de emissões, representou um avanço importante na direção de uma economia de baixo carbono. No entanto, ações judiciais de distribuidoras de combustíveis que contestam suas obrigações de aquisição minam a credibilidade do sistema e geram dúvidas sobre a continuidade e estabilidade das políticas ambientais no país.

O mesmo ocorre com a Moratória da Soja, um compromisso voluntário de não comercialização de grãos produzidos em áreas desmatadas da Amazônia. Apesar de ser um acordo entre empresas privadas, a contestação judicial de sua legalidade por partes interessadas lança uma sombra sobre o papel da autorregulação setorial e enfraquece a governança ambiental corporativa — elemento cada vez mais valorizado por investidores institucionais e parceiros comerciais internacionais. Faremos o mesmo contra as regras da Better Cotton Initiative (algodão), RTRS (soja), Bonsucro (cana-de-açúcar), RSPO (óleo de palma), entre tantos outros acordos multisetoriais internacionais?

Essas instabilidades setoriais não afetam apenas os segmentos diretamente envolvidos. O impacto é sistêmico: setores como infraestrutura, energia limpa, bioeconomia e exportações também sentem os reflexos de um ambiente regulatório volátil. Fundos de investimento que seguem critérios ESG (ambiental, social e de governança) tornam-se mais cautelosos ao alocar recursos no país, enquanto barreiras comerciais, como o imposto de carbono na fronteira da União Europeia, ganham força diante da percepção de retrocessos ambientais.

PUBLICIDADE

Além disso, a imagem internacional do Brasil sofre com a contradição entre o discurso oficial e as práticas internas. Compromissos climáticos assumidos em foros multilaterais, como o Acordo de Paris, perdem credibilidade quando políticas públicas ou mecanismos de mercado associados à sustentabilidade são questionados internamente de forma recorrente e descoordenada.

Para reverter esse cenário, é fundamental fortalecer a previsibilidade regulatória, garantir a estabilidade de políticas públicas e promover maior integração entre os setores produtivos, o Judiciário e os órgãos reguladores. O país precisa sinalizar que é capaz de cumprir com seus compromissos e manter um ambiente jurídico seguro para o investimento sustentável de longo prazo.

Em um mundo cada vez mais orientado por critérios ambientais e de governança, a insegurança jurídica setorial representa não apenas um entrave ao desenvolvimento econômico, mas uma ameaça real à competitividade internacional do Brasil.

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE
Agro Estadão Newsletter
Agro Estadão Newsletter

Newsletter

Acorde bem informado
com as notícias do campo

Agro Clima
Agro Estadão Clima Agro Estadão Clima

Mapeamento completo das
condições do clima
para a sua região

Agro Estadão Clima
VER INDICADORES DO CLIMA

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em março

Opinião

Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em março

Clima, colheita, tarifas e cenário de guerra; são grandes preocupações do produtor rural daqui para frente

Marcos Fava Neves loading="lazy"
Opinião:

Marcos Fava Neves

O preço da instabilidade: como conflitos externos pressionam o campo

Opinião

O preço da instabilidade: como conflitos externos pressionam o campo

O conflito entre EUA, Israel e Irã expõe uma vulnerabilidade estrutural do Brasil: dependemos de uma rota marítima estreita para garantir nossa produção de alimentos

Celso Moretti loading="lazy"
Opinião:

Celso Moretti

O Mundo a 4°C e a Economia dos Extremos

Opinião

O Mundo a 4°C e a Economia dos Extremos

Um agro brasileiro com mais eventos extremos perde não só produtividade, mas perde regularidade.

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro

Opinião

Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro

Colheita da soja, janela do milho, mix da cana e cenário geopolítico estão entre as variáveis que podem mexer com o agro neste mês

Marcos Fava Neves loading="lazy"
Opinião:

Marcos Fava Neves

PUBLICIDADE

Opinião

UE-Mercosul: o custo da postergação

Estudo do instituto ECIPE calculou que, para cada mês de atraso na vigência do acordo, a Europa perde € 4,4 bilhões em crescimento do PIB

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

Opinião

O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras

Mudanças regulatórias, câmbios climáticos e reconfiguração do comércio internacional tornam 2026 um ano desafiador para o agro

Celso Moretti loading="lazy"
Opinião:

Celso Moretti

Opinião

Em 2026, o silêncio também comunica

Quando aqueles que entendem de um assunto se calam, o espaço público é ocupado por quem fala mais alto, não por quem fala melhor

Marcello Brito loading="lazy"
Opinião:

Marcello Brito

Opinião

A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia

Entenda quais são os próximos passos, tanto na Corte Europeia quanto nos países do Mercosul, para que o tratado passe a valer

Welber Barral loading="lazy"
Opinião:

Welber Barral

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.