Welber Barral
Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Terras raras e os interesses do Brasil
Detentor de reservas relevantes mas pouco exploradas, país precisa de estratégia para não repetir papel exportador de matérias-primas.
24/07/2025 - 13:42

“Terras raras” tornou-se expressão incontornável na geopolítica contemporânea. Esses 17 elementos químicos, essenciais para tecnologias que vão de smartphones a turbinas eólicas, passaram de commodities técnicas a ativos estratégicos, comparáveis ao petróleo no século XX.
Sua importância deriva menos da escassez e mais da complexidade de extração, purificação e aplicação industrial. Em especial, os óxidos de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são insumos vitais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho — componentes centrais da mobilidade elétrica, da geração eólica e da indústria de defesa. Neste cenário, o Brasil, detentor de reservas relevantes mas pouco exploradas, precisa desenvolver uma política estratégica para não repetir o papel histórico de mero exportador de matérias-primas.
A situação global: concentração e controle
Como protagonista, a China domina atualmente a cadeia global das terras raras. Responde por cerca de 60% da mineração e 90% do refino mundial. Esse domínio deriva de uma política industrial de longo prazo: cotas de produção, subsídios, restrições ao capital estrangeiro e consolidação de empresas estatais permitiram a Pequim controlar a oferta.
Fora da China, destacam-se poucos players: a Lynas, com mineração na Austrália e refino na Malásia; e a MP Materials, nos Estados Unidos, cuja reativação contou com apoio direto do Departamento de Defesa. Na Europa, a busca por autossuficiência levou à criação do Regulamento de Matérias-Primas Críticas, que visa a suprir 20% da demanda por terras raras até 2030.
Outros países asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, reduziram a dependência de insumos chineses por meio de estoques estratégicos, contratos de longo prazo e apoio estatal à inovação. Ainda assim, as cadeias de suprimento seguem vulneráveis: embargos chineses, como o ocorrido em 2010, ou controles regulatórios, como os impostos em 2023, continuam a representar riscos sistêmicos.
A relevância geopolítica das terras raras decorre de três fatores: são insumos tecnologicamente indispensáveis, concentram-se em poucos países e não possuem substitutos eficazes. Neodímio e disprósio, por exemplo, são considerados críticos pelo Pentágono, dada sua aplicação em sistemas de propulsão, mísseis e sensores de precisão. Por sua vez, veículos elétricos consomem até cinco vezes mais minerais críticos que modelos convencionais. Energia eólica, robótica e modernos equipamentos médicos dependem igualmente desses materiais.
Oportunidades e riscos para o Brasil
O Brasil possui reservas relevantes de monazita e outros minerais portadores de terras raras, concentradas em Minas Gerais, Goiás e Bahia. No entanto, a extração permanece incipiente, em parte devido à concentração histórica em ferro, alumínio e nióbio. Projetos-piloto existem, mas carecem de escala industrial, infraestrutura e segurança regulatória. Entre os riscos, está a perpetuação do modelo primário-exportador. Há também o risco da captura regulatória: o licenciamento ambiental excessivamente moroso e a ausência de diretrizes técnicas claras podem inviabilizar projetos. Além disso, as tecnologias de separação química, dominadas por poucos países, são protegidas por propriedade intelectual.
Assim, não é exagero enfatizar que o Brasil carece de uma política coordenada que integre mineração, transformação industrial e política externa, e que inclua:
- Mapear com precisão as reservas de terras raras, inclusive aproveitando rejeitos da mineração de fosfato e tântalo;
- Criar mecanismos de estabilização, como fundos de garantia de preços ou compras públicas sustentáveis;
- Estimular a formação de parques tecnológicos para o refino hidrometalúrgico, com parcerias entre universidades, centros tecnológicos e setor privado;
- Negociar acordos de cooperação com países que dominam a tecnologia, como Japão e Alemanha;
- Condicionar incentivos fiscais à instalação de plantas de processamento e fabricação de componentes industriais no país.
Mais uma oportunidade à janela
A atual disputa por terras raras revela como transição energética e tecnológica exige novos insumos, novas rotas e nova geopolítica. Quem dominar a cadeia dos minerais críticos exercerá poder econômico e influência política nas próximas décadas. Na disputa, o Brasil não tem porque ser mero expectador: possui recursos, capacidade científica e base industrial. Mas depende de visão estratégica, coordenação institucional e investimentos consistentes. Uma política para terras raras não pode ser nova oportunidade perdida, numa lista que infelizmente vem crescendo.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Opinião
1
Qual o custo do futuro?
2
Com biodiesel, Brasil consolida bioeconomia de baixo carbono
3
Marcos Fava Neves: em janeiro, quais os 5 pontos para ficar de olho?
4
Comércio Internacional em 2026: A (Des)Ordem Globalizada
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Opinião
Marcos Fava Neves: em janeiro, quais os 5 pontos para ficar de olho?
Dólar, preços internacionais, demanda asiática e produtividade das lavouras devem exigir maior gestão dos produtores rurais no próximo ano
loading="lazy"
Marcos Fava Neves
Opinião
Comércio Internacional em 2026: A (Des)Ordem Globalizada
Exportadores encaram um ambiente volátil, marcado pela imprevisibilidade e por decisões políticas que enfraquecem regras multilaterais
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
Qual o custo do futuro?
Os perigos das recentes aprovações do Congresso brasileiro no campo agroambiental para a economia e a dinâmica dos negócios
loading="lazy"
Marcello Brito
Opinião
Com biodiesel, Brasil consolida bioeconomia de baixo carbono
Com recordes de produção e de consumo – e metas ampliadas de mistura –, o biodiesel é pilar de uma matriz energética mais sustentável e estratégica para o País
loading="lazy"
Francisco Turra
Opinião
Marcos Fava Neves: 5 pontos do agro para acompanhar em dezembro
Safra, dólar, tarifas e crédito verde: conheça os assuntos que os produtores devem monitorar neste fim de ano
loading="lazy"
Marcos Fava Neves
Opinião
Tarifas e a suprema corte dos EUA
Mesmo que a Casa Branca perca e as tarifas sejam consideradas inconstitucionais, Washington ainda dispõe de meios para impor barreiras comerciais.
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
COP 30: biodiesel brasileiro ganha protagonismo no debate global
Biodiesel tornou-se símbolo de uma equação rara entre eficiência energética, impacto ambiental positivo e desenvolvimento social.
loading="lazy"
Francisco Turra
Opinião
Marcos Fava Neves: 5 pontos para ficar de olho no mercado agro em novembro
Clima, China e Estados Unidos definem o futuro de oferta e preços dos grãos
loading="lazy"
Marcos Fava Neves