Francisco Turra
Presidente dos Conselhos de Administração da APROBIO e Consultivo da ABPA, ex-ministro da Agricultura
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Com biodiesel, Brasil consolida bioeconomia de baixo carbono
Com recordes de produção e de consumo – e metas ampliadas de mistura –, o biodiesel é pilar de uma matriz energética mais sustentável e estratégica para o País
10/12/2025 - 05:00

Desde a criação do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), com a promulgação da Lei 11.097/2005, o Brasil trilha um caminho de construção de soberania energética, inclusão social e desenvolvimento sustentável. Hoje, mais de 20 anos depois, podemos afirmar com segurança que o biodiesel é uma realidade consolidada, com expressiva contribuição para a economia, em especial a agricultura familiar, e o emprego, com papel fundamental para a mitigação das emissões de carbono nos vários modais de transporte.
Os dados mais recentes comprovam a robustez do setor. No primeiro semestre de 2025, o consumo de biodiesel alcançou 4,5 bilhões de litros — um crescimento de 6,2% em relação ao mesmo período de 2024. Em agosto, a produção nacional bateu novo recorde mensal: 924,5 milhões de litros, um aumento de 5,5% sobre julho. Projeta-se que, com a atual trajetória de demanda impulsionada pelo mandato da mistura de 15% (B15) e a ampliação para B16, a produção em 2026 alcance 10,5 bilhões de litros — um crescimento de cerca de 6,3% frente a 2025.
Tal expansão não decorre do acaso: reflete a combinação de forte capacidade instalada, modernização das usinas, diversificação de matérias-primas e, claro, da política de mistura obrigatória com a definição das Políticas Públicas, que estimulam os investimentos do setor privado.
A principal matéria-prima continua sendo o óleo de soja, responsável por mais de 70% de todo o biodiesel produzido no País. A preferência se justifica: soja oferece safra anual relativamente rápida, retorno econômico competitivo e coprodutos valorizados, como o farelo e a glicerina. Mas já registramos importantes exemplos de avanço no campo de diversificação de matérias-primas.
Muito além do aspecto energético, o biodiesel vem gerando impactos concretos na economia do País. Em 2024, a cadeia integrada da soja e do biodiesel representou 23,8% do PIB do agronegócio e cerca de 5,5% do PIB nacional. Esse peso se traduz em renda, geração de emprego, investimentos em modernização e ampliação da capacidade produtiva.
Do ponto de vista técnico, o biodiesel produzido no Brasil tem uma das especificações mais exigentes do mundo. Além disso, a incorporação de fontes diversas de matéria-prima e o uso de óleo de cozinha usado e de gorduras animais valorizam o conceito de economia circular, gerando benefícios ambientais e socioeconômicos.
O Brasil tem um ativo estratégico de valor incalculável: clima favorável, capacidade agrícola, conhecimento técnico e um setor produtivo organizado. O biodiesel demonstra, com resultados concretos, que é capaz de entregar energia renovável, segurança energética e alimentar, valor econômico e contribuições ambientais.
Nesse sentido, cabe à sociedade, ao setor privado e ao governo manterem o compromisso com a bioeconomia como caminho irreversível e como um legado para as próximas gerações.
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