Celso Moretti
Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras
Mudanças regulatórias, câmbios climáticos e reconfiguração do comércio internacional tornam 2026 um ano desafiador para o agro
26/01/2026 - 18:41

O agronegócio inicia 2026 diante de um cenário internacional marcado por exigências ambientais mais rígidas, disputas comerciais e margens de rentabilidade pressionadas. O Brasil segue como um dos principais fornecedores globais de alimentos, fibras e energia renovável, mas precisará combinar escala produtiva, eficiência ambiental e inteligência comercial para preservar sua competitividade.
As projeções para a safra de soja, milho, açúcar e café permanecem elevadas. Ainda assim, o avanço da produção não elimina os desafios de um mercado que se tornou mais exigente e menos tolerante a ineficiências. A queda gradual da taxa de juros tende a aliviar o crédito rural, mas não reduz a complexidade regulatória que se impõe sobre exportadores e produtores.
A soja, carro-chefe da pauta agroexportadora, deve registrar novo recorde de produção. Mas o setor enfrenta, já neste ano, o impacto das regras do Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que exige rastreabilidade completa por geolocalização e auditorias de conformidade ambiental. Produtores e tradings que não se adequarem correm o risco de perder acesso ao mercado europeu, um dos mais relevantes para produtos agrícolas de maior valor agregado.
O milho consolida sua transformação estrutural. A expansão do etanol de milho fortalece a demanda doméstica e reduz a dependência das exportações, ao mesmo tempo em que pressiona a competição entre usos. A produtividade da safrinha seguirá determinante para o equilíbrio entre oferta e preços, especialmente para as cadeias de aves, suínos e confinamento bovino.
A pecuária bovina enfrenta desafios adicionais. As novas restrições da China sobre importações acima de determinadas cotas tendem a reduzir volumes e pressionar preços no mercado interno. Para o setor, a urgência é clara: diversificar destinos, ampliar credenciais de sustentabilidade e reduzir a dependência de um único comprador dominante.
Na cafeicultura, o EUDR também altera as regras do jogo. A cadeia precisará comprovar, com precisão, a origem e a conformidade ambiental dos grãos exportados. Para pequenos produtores e cooperativas, a adaptação poderá exigir apoio financeiro e tecnológico. As mudanças climáticas permanecem como risco estrutural, mas cafés diferenciados e certificados tendem a capturar prêmios relevantes.
No setor sucroenergético, o Brasil reforça sua liderança mundial. O “mix” flexível entre açúcar e etanol continua sendo ferramenta importante de gestão de margens. A expansão do etanol de milho e a demanda global por combustíveis de baixo carbono consolidam o país como protagonista da transição energética baseada em biomassa.
A adoção de insumos biológicos, agricultura digital e tecnologias de precisão avança, mas ainda de forma desigual. Sem inclusão tecnológica – crédito, conectividade e assistência técnica –, parte do País corre o risco de ficar atrás justamente quando o mercado global exige rastreabilidade, indicadores ambientais robustos e maior transparência produtiva.
No comércio exterior, 2026 tende a ser marcado por maior escrutínio regulatório. Além do EUDR, pressões políticas internas na União Europeia podem intensificar barreiras não tarifárias. A instabilidade em torno do acordo Mercosul–UE reforça a necessidade de uma diplomacia econômica mais ativa e diversificada. O acordo oferece oportunidades claras de crescimento e diversificação para o agronegócio brasileiro, ampliando acesso a um mercado sofisticado e reduzindo barreiras tarifárias. Ao mesmo tempo, limitações de quotas, salvaguardas, padrões regulatórios rígidos e riscos ambientais representam desafios e potenciais custos para produtores, especialmente nos segmentos mais sensíveis. A magnitude dos efeitos dependerá da implementação final e das estratégias empresariais e de políticas públicas adotadas por Brasil e Mercosul para aproveitar o novo regime comercial.
O recado é inequívoco: 2026 será o ano da estratégia, não do improviso. O Brasil tem condições de se afirmar como potência agroambiental global, mas isso exigirá fortalecimento da governança, modernização das cadeias, adoção acelerada de tecnologia e presença internacional mais assertiva. Em um mundo que cobra sustentabilidade com rigor e redefine padrões de compra, a competitividade brasileira dependerá menos do tamanho da safra e mais da credibilidade construída para além da porteira.
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