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Marcello Brito

Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental.

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

Fertilizantes: a vulnerabilidade estratégica do Brasil

Enquanto outras potências tratam fertilizantes como questão estratégica, o Brasil continua adiando decisões estruturais

12/03/2026 - 09:14

Brasil importa de 85% a 90% dos fertilizantes que usa na agricultura. Foto: Adobe Stock
Brasil importa de 85% a 90% dos fertilizantes que usa na agricultura. Foto: Adobe Stock

O Brasil construiu uma das agriculturas mais competitivas do mundo. Tornou-se potência na produção e exportação de alimentos, fibras e bioenergia que garante alimento barato aos brasileiros e divisas ao país com a exportação. Mas há uma fragilidade estrutural por trás desse sucesso que o país continua tratando com uma complacência difícil de entender: a dependência externa de fertilizantes.

Hoje, o Brasil importa cerca de 85% a 90% dos fertilizantes que consome. Em termos simples: uma das maiores potências agroalimentares do planeta depende, em grande medida, de insumos produzidos fora de seu território para sustentar sua produtividade.

CONTEÚDO PATROCINADO

No caso da ureia, o consumo nacional gira entre 8 e 9 milhões de toneladas por ano. Mesmo quando e se todos os reinvestimentos recentes da Petrobras com o processo de reativação de algumas de suas FAFEN, iniciativa super relevante, forem concluídos e colocados em operação, a produção doméstica ainda deverá cobrir apenas cerca de 35% dessa demanda. Mas levanta uma pergunta inevitável: esses fertilizantes serão competitivos se continuarem sendo produzidos com o custo atual do gás natural brasileiro?

Nos fertilizantes nitrogenados, o gás representa entre 80% e 90% do custo de produção. Sem enfrentar esse fator estrutural, o país pode reabrir plantas, mas continuará enfrentando dificuldades para competir com produtores internacionais que operam com energia muito mais barata.

Esse não é apenas um problema de custo. É um problema de segurança estratégica.

Parte relevante dos fertilizantes que o Brasil importa passa por regiões de grande instabilidade geopolítica. Estima-se que cerca de 17% desse volume atravesse o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais sensíveis do mundo. Qualquer crise regional pode afetar rapidamente os custos de produção da agricultura brasileira.

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Apesar desse risco evidente, o país passou mais de três décadas sem uma política pública consistente para fertilizantes. O Plano Nacional de Fertilizantes, discutido há muitos anos, foi finalmente lançado apenas em 2022, com ajustes em 2023.

O próprio plano estabelece como meta reduzir a dependência para cerca de 50% até 2050. O objetivo pode parecer ambicioso, mas também revela a lentidão da resposta. A questão central é simples: o Brasil realmente acredita que tem até 2050 para resolver esse problema?

O mundo mudou mais rápido do que o plano. E não dá para depender somente das iniciativas do Ministério da Agricultura, se não for um trabalho compartilhado entre o MAPA, MDIC, MDA, MME, MMAMC, Casa Civil e de todo o governo, muito pouco vai acontecer.

Cadeias globais de suprimento estão sendo reorganizadas. Grandes economias voltaram a discutir segurança industrial e segurança alimentar. Energia, alimentos e insumos estratégicos passaram a ser tratados cada vez mais como instrumentos de poder geopolítico.

Nesse contexto, depender estruturalmente de fertilizantes importados não é apenas uma desvantagem econômica. É uma vulnerabilidade estratégica.

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O caso de Cubatão, no litoral paulista, ajuda a tornar essa discussão mais concreta. Historicamente um dos principais polos industriais de fertilizantes do país, a região viu três de suas seis unidades produtoras de amônia serem fechadas nos últimos dois anos — duas em 2024 e uma em 2025. O motivo central foi a perda de competitividade provocada pelo alto custo do gás natural no Brasil.

E aqui aparece um paradoxo difícil de ignorar.

Enquanto metade da capacidade produtiva de amônia de Cubatão é desativada por inviabilidade econômica, o governo federal decidiu aumentar em 2025 a incidência de PIS/Cofins sobre fertilizantes. Ou seja, num momento em que a produção doméstica perde espaço, a política tributária eleva o custo do próprio setor.

Talvez o dado mais revelador da situação brasileira seja outro: apesar do lançamento do Plano Nacional de Fertilizantes, não há hoje um único grande projeto greenfield — uma nova fábrica construída do zero — em implantação no país. Esse vazio diz muito.

Investimentos industriais dessa magnitude exigem previsibilidade. E o Brasil continua oferecendo incerteza. O alto custo do capital, combinado a um sistema de licenciamento ambiental lento e imprevisível, ajuda a explicar por que investidores permanecem cautelosos.

O exemplo da mina de potássio em Autazes, no Amazonas, ilustra bem esse problema. O projeto aguarda licenciamento há mais de 15 anos e já consumiu mais de US$ 200 milhões em investimentos sem autorização final. Independentemente da posição de cada um sobre o projeto, a pergunta permanece: quem vai investir bilhões de dólares em fertilizantes num país onde um empreendimento pode esperar década e meia por uma decisão?

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Enquanto isso, outras grandes economias tratam fertilizantes como tema estratégico. Estados Unidos, União Europeia e China adotam políticas públicas voltadas a garantir o fornecimento de insumos agrícolas críticos. Usam instrumentos como política energética, financiamento industrial, regulação comercial e apoio tecnológico para reduzir vulnerabilidades.

Esses países não fazem isso por acaso. Fazem porque compreenderam que produção agrícola depende de acesso estável a fertilizantes. No Brasil, essa compreensão ainda parece incompleta.

Biometano

Uma das alternativas que começa a ganhar espaço é o biometano, um gás renovável produzido a partir da decomposição de resíduos orgânicos, sejam do agro ou de resíduos industriais e urbanos. No caso brasileiro, especialmente resíduos da cadeia da cana-de-açúcar. Esse gás pode substituir o gás natural em diversas aplicações industriais, inclusive na produção de fertilizantes.

O estado de São Paulo reúne condições particularmente favoráveis para esse desenvolvimento. O setor sucroenergético conta com centenas de usinas, muitas próximas à rede de gasodutos. Muitas estão a menos de 20 quilômetros dessas infraestruturas, facilitando a integração energética. Além disso, São Paulo já responde pelo maior volume de produção de biogás do país — cerca de 710 milhões de Nm³ por ano.

Mas há também outra linha de transformação em curso na agricultura global: o avanço da agricultura regenerativa. Esse modelo busca recuperar a saúde dos solos, aumentar a biodiversidade e reduzir a dependência de insumos externos. Entre suas práticas estão o uso intensivo de cobertura vegetal, rotação diversificada de culturas, integração lavoura-pecuária-floresta, maior uso de bioinsumos e estímulo à atividade biológica do solo.

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Em muitos sistemas regenerativos, o uso de fertilizantes químicos pode ser significativamente reduzido e, em alguns casos específicos, até substituído ao longo do tempo. O objetivo não é simplesmente eliminar fertilizantes, mas reconstruir a fertilidade natural dos solos, reduzindo a dependência de insumos industriais.

Esse movimento ainda está em fase inicial em escala global, especialmente em grandes culturas. Seus resultados variam muito de acordo com clima, tipo de solo, cultura agrícola e manejo. No curto prazo, dificilmente substituirá completamente o papel dos fertilizantes na agricultura intensiva que sustenta a produção global de alimentos.

Mas, no médio e longo prazo, a agricultura regenerativa pode contribuir para reduzir gradualmente a pressão sobre a demanda por fertilizantes químicos, ao mesmo tempo em que melhora a resiliência dos sistemas produtivos.

Ou seja, ela não resolve o problema da dependência brasileira no curto prazo — mas pode ajudar a redesenhar a agricultura no futuro.

No fundo, a questão central continua sendo estratégica. Fertilizantes são frequentemente tratados no Brasil como uma simples commodity importada. Mas, na prática, eles são algo muito mais importante: o alicerce invisível da produção de alimentos.

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E toda potência agrícola precisa decidir como pretende proteger esse alicerce. Porque no fim das contas, a equação é simples:

sem fertilidade do solo, não há produtividade;
sem produtividade, não há agricultura competitiva;
e sem agricultura competitiva, o Brasil deixa de ser a potência alimentar que acredita ser.

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