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Welber Barral

Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

O Mundo a 4°C e a Economia dos Extremos

Um agro brasileiro com mais eventos extremos perde não só produtividade, mas perde regularidade.

20/02/2026 - 17:39

Agência Ambiental Europeia partem de uma hipótese para 2100 de aquecimento de 4°C. Foto: Adobe Stock
Agência Ambiental Europeia partem de uma hipótese para 2100 de aquecimento de 4°C. Foto: Adobe Stock

A Agência Ambiental Europeia (EEA) é pouco conhecida, mas produz estudos interessantes que deveriam chamar a atenção de dirigentes públicos. Em relatório recente, seus assessores científicos partem de uma hipótese para 2100: aquecimento de 4°C, com efeitos catastróficos, mas previsíveis.

O relatório confirma que a União Europeia já aquece cerca de duas vezes mais rápido do que a média global. A consequência prática é a necessidade de mitigação. Mitigação segue necessária, mas já não é suficiente. Mitigação é promessa, adaptação é duplicata vencida. Daí adaptação passar a ser obrigação jurídica, com métricas de risco e investimentos em infraestrutura. Ou o custo futuro será incomparavelmente maior.

CONTEÚDO PATROCINADO

Na Europa, o gap de investimento é estimado em € 70 bilhões por ano, para reduzir vulnerabilidades em cidades, agricultura, recursos hídricos e ecossistemas.

O alerta europeu interessa ao Brasil por várias razões. Primeiro, porque a crise climática não respeita fronteiras: o choque de oferta em alimentos, energia e logística será global. Segundo, porque o Brasil opera como fornecedor estrutural de alimentos, proteínas e energia para o mundo — e a estabilidade desse papel depende de previsibilidade climática. Terceiro, porque os mercados compradores já transformam risco climático em requisito de acesso, financiamento e seguro, reduzindo tolerância para improviso.

Neste cenário, tratar adaptação como “agenda setorial” é um erro conceitual. Adaptação é engenharia de sobrevivência econômica, é infraestrutura (incluindo redundância logística, redes elétricas resistentes, prevenção de tragédias), mas também informação: dados climáticos, zoneamento, governança. O clima é o regulador que não aceita ser pressionado por lobby.

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O relatório europeu conceitua “mal adaptação” como soluções de curto prazo que agravam o problema ou criam paliativos com ilusão de segurança. Mal adaptação é o nome técnico para o velho hábito de embarrigar o problema. A neve artificial nas Olimpíadas de Inverno é o atual exemplo.

No Brasil, há prodigalidade na mal adaptação: reconstruir no mesmo lugar sem alterar drenagens; insistir em ocupações de risco; tratar enchentes como exceção; crer em tecnologias isoladas para colapso hidrográfico. Improviso ao invés de orçamento, cronograma e responsabilização.

Um agro brasileiro com mais eventos extremos perde não só produtividade, mas perde regularidade. E regularidade é o que sustenta contratos, cadeias industriais e reputação. A responsabilidade do Brasil como fornecedor global de alimentos é risco sistêmico e, portanto, argumento de política pública e segurança alimentar torna-se segurança internacional.

Segurança alimentar é o novo petróleo: estratégico, disputado e valioso pela escassez. Países exportadores ganham poder, mas também pressão por fornecimento, barreiras regulatórias e exigências ambientais mais duras. Por isso, adaptação será prioridade nacional, e não capítulo periférico. Investir agora custará menos do que reconstruir sempre; e reconstruir sempre, em algum momento, deixará de ser opção.

O Brasil precisa internalizar essa lógica com rapidez. A tragédia não é só o evento extremo; é tratá-lo como surpresa. A cada desastre, a conta é visível, em vidas, infraestrutura e credibilidade. E credibilidade, no comércio internacional, é ativo difícil de recuperar.

*Sócio de Barral Parente Pinheiro Advogados. Doutor em Direito Internacional (USP).

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