Celso Moretti
Engenheiro Agrônomo, ex-presidente da Embrapa
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
25 anos de inovação que mudaram o agro brasileiro
A inovação agropecuária deixou de ser incremental e tornou-se sistêmica: produzir mais não basta; o desafio é produzir melhor, com eficiência e valor agregado
09/01/2026 - 05:00

Em pouco mais de duas décadas, a agropecuária brasileira deixou definitivamente para trás a imagem de setor extensivo e de baixa sofisticação tecnológica. O campo passou a operar com dados, ciência avançada e gestão de risco, consolidando-se como um dos motores mais inovadores da economia nacional. As transformações ocorridas nos últimos 25 anos não foram pontuais: redesenharam a forma de produzir, de competir e de se posicionar diante dos desafios ambientais e de mercado.
A produtividade das principais commodities agrícolas cresceu substancialmente neste período: 60% para soja; 83% para milho; 103% para café; 200% para arroz; e 80% para feijão. Para leite, a produção cresceu de 23 bilhões de litros em 2000 para quase 36 bilhões em 2024. E para carne bovina, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), um crescimento de 3,9 milhões de toneladas em 2000 para 12,35 milhões de toneladas, transformando o Brasil no maior produtor e exportador de carne bovina do mundo, deixando para traz os EUA, com 11,81 milhões de toneladas produzidas em 2025.
Um dos marcos desse processo foi a disseminação da agricultura de precisão a partir dos anos 2000. O uso de GPS, mapas de produtividade, sensores e aplicação localizada de insumos permitiu ao produtor tratar a lavoura como um conjunto de ambientes distintos, abandonando o manejo uniforme. Propriedades são manejadas não mais por talhões ou hectares: a tecnologia permitiu que fossem monitoradas por plantas ou metros quadrados. O resultado foi claro: redução de custos, maior eficiência no uso de fertilizantes e defensivos e ganhos consistentes de produtividade. Com o avanço das imagens de satélite, do uso de sensores, drones, internet das coisas (IoT) e das plataformas digitais, o dado passou a ser insumo estratégico da produção agrícola.
No mesmo período, a biotecnologia ganhou escala no Brasil. O melhoramento genético acelerado, as cultivares transgênicas e, mais recentemente, as novas técnicas de edição gênica ampliaram a estabilidade das safras e reduziram riscos climáticos e fitossanitários. Variedades de cana de açúcar editadas foram obtidas pela Embrapa com edição gênica. Na pecuária, a genômica encurtou ciclos de seleção, elevou a eficiência alimentar e abriu espaço para avanços em rastreabilidade e bem-estar animal, temas cada vez mais valorizados pelos mercados consumidores.
Outra inovação decisiva foi a consolidação de sistemas produtivos integrados. A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) deixou de ser conceito experimental para se tornar estratégia concreta de intensificação sustentável. Estima-se que o Brasil possua algo em torno de 20 milhões de hectares em sistemas iLPF, com aproximadamente 85% da área em integração lavoura e pecuária. Ao recuperar áreas degradadas, diversificar renda e reduzir emissões por unidade produzida, esses sistemas se mostraram uma resposta prática aos desafios simultâneos de competitividade e sustentabilidade. O mesmo vale para os sistemas agroflorestais, que passaram a ocupar nichos comerciais relevantes, sobretudo em cadeias de maior valor agregado.
O manejo conservacionista do solo também se firmou como um dos pilares dessa transformação. O plantio direto, aliado ao uso de plantas de cobertura e à rotação de culturas, contribuiu para reduzir a erosão, aumentar a retenção de água e elevar o estoque de carbono no solo. Essas práticas colocaram o Brasil em posição de destaque no debate sobre agricultura de baixo carbono, hoje central nas discussões globais sobre mudanças climáticas.
Nos últimos anos, os bioinsumos ganharam protagonismo. Inoculantes, agentes de controle biológico e biofertilizantes avançaram rapidamente, impulsionados tanto por ganhos técnicos quanto por pressões regulatórias e de mercado. O crescimento desse segmento revela uma mudança estrutural: sustentabilidade deixou de ser apenas discurso e passou a integrar a lógica econômica da produção. O Brasil tornou-se a maior potência global no desenvolvimento e comercialização de bioinsumos, um setor que cresce dois dígitos ao ano.
A mecanização agrícola, por sua vez, entrou em uma nova fase. Máquinas mais inteligentes e conectadas, pulverização seletiva e sistemas semi-autônomos passaram a responder a um dos principais gargalos do setor: a escassez de mão de obra qualificada. Ao mesmo tempo, elevaram o nível de precisão das operações e reduziram desperdícios, reforçando a competitividade do produtor.
Mais recentemente, a incorporação da inteligência artificial e da análise de grandes massas de dados (big data) consolidou o agro como setor intensivo em conhecimento. Modelos preditivos de safra, diagnóstico automático de pragas e plataformas integradas de gestão passaram a orientar decisões técnicas e financeiras, reduzindo incertezas em um ambiente cada vez mais volátil do ponto de vista climático e econômico.
O saldo desses 25 anos é inequívoco. A inovação agropecuária no Brasil deixou de ser incremental para se tornar sistêmica. Produzir mais continua sendo essencial, mas já não é suficiente. O desafio agora é produzir melhor: com eficiência, rastreabilidade, menor impacto ambiental e maior valor agregado.
O próximo ciclo dependerá menos de novas tecnologias — que já existem — e mais da capacidade de acelerar sua adoção, integrar políticas públicas, ciência e mercado, e garantir que a inovação chegue também aos médios e pequenos produtores. É nesse ponto que o futuro do agro brasileiro será decidido.
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