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Marcello Brito

Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental.

Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão

Opinião

Em 2026, o silêncio também comunica

Quando aqueles que entendem de um assunto se calam, o espaço público é ocupado por quem fala mais alto, não por quem fala melhor

22/01/2026 - 10:30

2026 chega mostrando que barulho não é estratégia: vence quem se organiza. Foto: Adobe Stock
2026 chega mostrando que barulho não é estratégia: vence quem se organiza. Foto: Adobe Stock

O ano de 2026 não chega em silêncio. Ele chega carregado. Será um ano de eleições presidenciais no Brasil, em um mundo mais instável e mais polarizado. Para o agronegócio brasileiro, que depende de planejamento, previsibilidade e decisões de longo prazo, esse contexto não é abstrato. Ele afeta custo, acesso a mercado e capacidade de investir.

O agro está no centro dessa história. Não como coadjuvante, mas como protagonista. É o setor que produz alimentos, gera empregos, traz divisas ao país e sustenta grande parte das exportações brasileiras. No dia a dia, o produtor já lida com riscos conhecidos: clima, preços, logística, crédito. O que muda agora é um risco menos visível, mas igualmente concreto: a instabilidade política e informacional, que interfere diretamente nas regras do jogo.

CONTEÚDO PATROCINADO

Quando falamos em instabilidade informacional, falamos de um ambiente onde informações falsas, incompletas ou distorcidas circulam mais rápido do que explicações corretas. Isso gera decisões ruins, pressão regulatória mal informada e desgaste da imagem do setor, dentro e fora do Brasil.

Em vários países, inclusive aqui, a política passou a funcionar como rede social. Na prática, isso significa discursos pensados para gerar reação imediata — curtidas, compartilhamentos, engajamento — e não para resolver problemas complexos. Frases de impacto substituem explicações. Emoção substitui planejamento. Em ano eleitoral, esse efeito se intensifica.

Nesse ambiente, temas estratégicos para o agro — segurança jurídica da terra, política ambiental, crédito rural, infraestrutura e acesso a mercados — deixam de ser tratados como política pública e passam a ser usados como armas eleitorais. O debate deixa de buscar solução e passa a buscar vantagem.

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As redes sociais amplificam essa dinâmica. Elas favorecem conteúdos que provocam medo ou indignação. Por isso, mentiras simples circulam mais do que verdades complexas. Um vídeo fora de contexto pode causar mais danos à imagem do agro do que anos de investimento em boas práticas, certificações e dados técnicos.

O debate, assim, deixa de ser racional e passa a ser identitário. Muitas pessoas aderem a discursos extremos não por desconhecimento, mas porque encontram ali pertencimento psicossocial. Nesses casos, responder apenas com fatos não resolve. O conflito não é sobre dados. É sobre identidade.

Enquanto isso, uma parte importante do setor observa tudo com cansaço. Produtores, técnicos e empresários que percebem a distorção, mas preferem não se expor. Essa reação é compreensível. Mas tem um custo: quando quem entende do assunto se cala, o espaço público é ocupado por quem fala mais alto, não por quem fala melhor. Nossa política está povoada por esses seres erráticos.

O impacto disso é concreto. Aumenta a insegurança regulatória. Cresce a desconfiança de investidores. Fica mais difícil planejar o futuro. Em um setor que trabalha com ciclos longos, decisões tomadas no calor do momento cobram caro.

No cenário internacional, esse risco se amplia. O acordo entre Mercosul e União Europeia, que chegou a ser apresentado como sinal de reinserção do Brasil no comércio global, hoje enfrenta bloqueios e resistências explícitas no Parlamento Europeu. O episódio deixa claro que acordos não se sustentam apenas em textos assinados, mas em percepção, confiança e coerência política. Para o agro brasileiro, isso significa que o acesso a mercados continuará condicionado não só a práticas produtivas, mas à capacidade do país de reduzir ruídos internos, alinhar discurso e demonstrar previsibilidade institucional.

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A isso se soma o chamado “risco Trump”: a possibilidade de um retorno de políticas comerciais mais agressivas, protecionistas e imprevisíveis nos Estados Unidos. Nosso Agro está sob investigação pelo USTR-United States Trade Representative, seção 301, e não podemos prever o que virá a frente. Isso significa mais volatilidade nos mercados, maior pressão geopolítica e menos espaço para improviso. Em um mundo mais fragmentado, países e setores que transmitem ruído perdem força rapidamente.

Ou seja: o barulho interno não fica dentro de casa. Ele atravessa fronteiras, influencia acordos, afeta reputação e mexe diretamente com competitividade.

Apesar de tudo isso, o agro brasileiro não começa essa história de 2026 do zero. O setor já mostrou que cresce quando aposta em organização, profissionalismo e visão de longo prazo. Nesse ano, esses atributos deixam de ser apenas diferenciais. Viram proteção.

O caminho não está em entrar na guerra de narrativas nem em reagir por impulso. Está em comunicar com clareza. Clareza é explicar o que se faz, como se faz e por que se faz, com exemplos concretos e linguagem simples. É reduzir jargões, evitar confrontos desnecessários e fortalecer vozes coletivas — cooperativas, associações e cadeias produtivas organizadas.

2026 será um ano barulhento. Mas barulho não é estratégia.

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Em um mundo confuso, quem grita mais não vence. Quem explica melhor vence.
Quem reage perde tempo. Quem se organiza ganha espaço. Quem vive de narrativa fica vulnerável. Quem vive de consistência atravessa a crise.

O agronegócio brasileiro não controla eleições, algoritmos ou o cenário global. Mas controla algo decisivo: como se posiciona quando tudo ao redor perde clareza.

No fim, a escolha é simples, ou o agro ajuda a organizar a realidade — ou alguém fará isso por ele. E, em ano eleitoral, essa diferença define quem atravessa a tempestade e quem é levado por ela. Um feliz 2026!

P.S. Não poderia terminar essa primeira coluna do ano sem fazer uma justa homenagem a um grande brasileiro que partiu essa semana. Nunca o Brasil precisou tanto de milhares de Raul Jungmann. Raul como ninguém transformava dissenso em consenso, desconfiança em crença. “Sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”. Descanse em paz caro amigo.

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