Welber Barral
Conselheiro da Fiesp, presidente do IBCI e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Comércio Internacional em 2026: A (Des)Ordem Globalizada
Exportadores encaram um ambiente volátil, marcado pela imprevisibilidade e por decisões políticas que enfraquecem regras multilaterais
01/01/2026 - 05:45

Começa 2026, e sob um paradoxo: governos erguem barreiras, as cadeias produtivas se tornam mais interdependentes. Em vez de previsibilidade, os exportadores enfrentam um cenário volátil, em que decisões políticas substituem regras multilaterais. A combinação de guerras tarifárias, populismo econômico e disputas geopolíticas reforça a dimensão de poder no comércio internacional.
Após um ciclo de liberalização moderada entre 2000 e 2015, o comércio internacional foi reconfigurado por tensões entre Estados Unidos e China. A política industrial voltou à agenda, e o uso de tarifas, subsídios e sanções se intensificou. Em 2025, três vetores moldam o comércio global:
- Nacionalismo econômico: a recondução de Donald Trump à Casa Branca ampliou o uso de tarifas unilaterais, investigações por segurança nacional e medidas anti-China, fragmentando o sistema da OMC.
- Regulações climáticas extraterritoriais: a União Europeia avança com o CBAM, exigindo a compra de certificados de carbono a partir de janeiro. Paralelamente, o EUDR exige due diligence sobre desmatamento e legalidade da produção em cadeias de carne, soja, madeira, café e cacau. Ambos impactam diretamente o agronegócio e a indústria brasileira.
- Geopolítica dos minerais críticos: o controle sobre lítio, terras raras e insumos estratégicos se tornou prioridade em acordos e medidas de controle de exportações, com destaque para China, Índia, Indonésia, Austrália e EUA.
Para o exportador brasileiro, 2026 será marcado por quatro frentes de risco regulatório:
• Regras de origem e acordos preferenciais: a multiplicação de acordos bilaterais (incluindo Índia e Indonésia) exige atenção à classificação fiscal e às regras de origem. Há crescente risco de perda de preferências e desvio de comércio.
• Defesa comercial e barreiras técnicas: cresce o uso de medidas antidumping, exigências sanitárias e normas técnicas com viés protecionista.
• Devida diligência e rastreabilidade: as novas obrigações exigem comprovação documental robusta e sistemas de monitoramento em tempo real. Empresas que ignorarem esse movimento perderão acesso a mercados premium.
• Revisão de incentivos e subsídios: programas governamentais serão avaliados por órgãos de concorrência estrangeiros, com riscos de investigação por subsídios distorsivos (caso recente: consulta dos EUA sobre subsídios à madeira).
Como resposta estratégica, o primeiro passo é deixar o amadorismo para trás. O comércio internacional, em 2026, exigirá governança, mapeamento de riscos e atuação técnica. Algumas prioridades para exportadores serão:
• Compliance em classificação, origem e valoração aduaneira: para penalidades e permitir aproveitamento correto de preferências tarifárias.
• Monitoramento legislativo e engajamento institucional: a construção de exceções, flexibilizações e ajustes regulatórios demanda tempo — e exige pressão coordenada sobre autoridades locais e estrangeiras.
• Aproveitamento de acordos existentes: o Brasil precisa reativar agendas com México, Indonésia, Canadá e Reino Unido. Acordos de última geração exigem atuação ativa do setor privado no monitoramento de prazos e concessões de capítulos específicos.
• Defesa comercial ofensiva: setores estratégicos devem estruturar pedidos de antidumping ou compensatórias, diante da avalanche de importações com subsídios ou prática de dumping.
Ao mesmo tempo, os exportadores precisarão demandar, do governo brasileiro, mais ação institucional coordenada (desafiante num ano eleitoral). Isto implica usar a diplomacia comercial, embaixadas, Apex e organismos multilaterais para acompanhar e influenciar normas estrangeiras, fortalecer foros regionais, e atuar em coalizões para contrabalançar a imposição unilateral de políticas comerciais. Para o Brasil, exige-se uma virada estratégica: do improviso à inteligência regulatória, da reação à antecipação, do discurso à execução técnica. O mundo não esperará, em 2026.
*Sócio de Barral Parente Pinheiro Advogados. Ex-secretário de Comércio Exterior.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Opinião
1
O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras
2
Em 2026, o silêncio também comunica
3
Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro
4
UE-Mercosul: o custo da postergação
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Opinião
Marcos Fava Neves: os 5 fatos do agro para acompanhar em fevereiro
Colheita da soja, janela do milho, mix da cana e cenário geopolítico estão entre as variáveis que podem mexer com o agro neste mês
loading="lazy"
Marcos Fava Neves
Opinião
UE-Mercosul: o custo da postergação
Estudo do instituto ECIPE calculou que, para cada mês de atraso na vigência do acordo, a Europa perde € 4,4 bilhões em crescimento do PIB
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
O agro brasileiro em 2026: produção robusta, pressão global e o desafio de competir sob novas regras
Mudanças regulatórias, câmbios climáticos e reconfiguração do comércio internacional tornam 2026 um ano desafiador para o agro
loading="lazy"
Celso Moretti
Opinião
Em 2026, o silêncio também comunica
Quando aqueles que entendem de um assunto se calam, o espaço público é ocupado por quem fala mais alto, não por quem fala melhor
loading="lazy"
Marcello Brito
Opinião
A vigência do Acordo Mercosul-União Europeia
Entenda quais são os próximos passos, tanto na Corte Europeia quanto nos países do Mercosul, para que o tratado passe a valer
loading="lazy"
Welber Barral
Opinião
Setor do biodiesel e agronegócio aguardam confirmação de B16 para março
A decisão reforça o previsto no Combustível do Futuro e é fundamental para garantir estabilidade ao setor, segurança jurídica para os investimentos e previsibilidade
loading="lazy"
Francisco Turra
Opinião
25 anos de inovação que mudaram o agro brasileiro
A inovação agropecuária deixou de ser incremental e tornou-se sistêmica: produzir mais não basta; o desafio é produzir melhor, com eficiência e valor agregado
loading="lazy"
Celso Moretti
Opinião
Marcos Fava Neves: em janeiro, quais os 5 pontos para ficar de olho?
Dólar, preços internacionais, demanda asiática e produtividade das lavouras devem exigir maior gestão dos produtores rurais no próximo ano
loading="lazy"
Marcos Fava Neves