Marcello Brito
Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental.
Esse texto trata de uma opinião do colunista e não necessariamente reflete a posição do Agro Estadão
Opinião
Qual o custo do futuro?
Os perigos das recentes aprovações do Congresso brasileiro no campo agroambiental para a economia e a dinâmica dos negócios
13/12/2025 - 05:00

Nos últimos 10 anos findados em 2024, segundo estudo da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), o Brasil teve um prejuízo de R$ 732,2 bilhões por desastres climáticos. Desses, 57,4% ou R$ 420 bilhões foram no setor do agronegócio.
Dito isso, assistimos que o Brasil vive um momento paradoxal. Ao mesmo tempo em que se apresenta ao mundo como potência agrícola moderna, científica e capaz de produzir em larga escala com baixa emissão, o Congresso Nacional acelera a aprovação de projetos que desmontam, peça a peça, os fundamentos que sustentam essa reputação. A narrativa de “desburocratização” e “liberdade para produzir” tem servido como argumento para flexibilizar normas ambientais, ignorar evidências científicas e tratar salvaguardas ecológicas como entraves políticos — e não como instrumentos econômicos de estabilidade de longo prazo.
O impacto dessas decisões ultrapassa o campo ambiental. Elas representam riscos concretos para a competitividade, a previsibilidade e a credibilidade do agronegócio brasileiro. O setor, que depende estruturalmente de mercados externos, não opera no vácuo: ele responde a protocolos internacionais, exigências de certificação e a uma pressão crescente de consumidores, investidores e governos por rastreabilidade e responsabilidade socioambiental.
Quando o Congresso sinaliza ao mundo que o Brasil pretende afrouxar controles sobre desmatamento, licenciamento e insumos, o recado que chega às cadeias produtivas globais é inequívoco: o país está disposto a renunciar a padrões que outros competidores levam décadas para consolidar.
O primeiro efeito disso é econômico — e imediato. Barreiras comerciais, exigências adicionais de comprovação e perda de preferências tarifárias tornam-se riscos cotidianos. As previsões para 2025 já são bem ruins com a acomodação dos preços internacionais, altos custos, ausência de seguro agrícola e a clara demonstração que evoluímos no campo agronômico como poucos fizeram no mundo, mas continuamos muito fracos na gestão e administração econômico-financeiro e no planejamento de futuro.
São nesses momentos que mercados ficam tentados e se movimentar. A União Europeia, por exemplo, tem ampliado mecanismos de controle para produtos associados a desmatamento, mesmo com o adiamento do EUDR, essa agenda continuará acesa. Quando o Legislativo brasileiro se move na direção oposta, cria-se um descompasso estratégico que resulta em ineficiência, custos extras e perda de mercados.
A ideia de que o mundo precisa incondicionalmente do nosso agro é uma ilusão perigosa. A demanda global é mais elástica do que muitos imaginam, e concorrentes como EUA, Austrália, China, Índia e países africanos emergentes observam cada gesto regulatório brasileiro para ocupar eventuais lacunas, principalmente num momento geopolítico que cada vez mais impõe um mercado administrado por política, não por competências.
O segundo impacto é a insegurança jurídica. Ao reescrever, de forma apressada e fragmentada, regras que foram construídas com base em ciência, governos sucessivos e diálogo institucional, o Congresso enfraquece a previsibilidade regulatória — justamente o que o investidor mais valoriza. Projetos multibilionários de infraestrutura verde, sistemas integrados de produção e tecnologias de baixo carbono dependem de marcos sólidos, não de instabilidades legislativas guiadas por interesses de curto prazo. Quando o ambiente regulatório se torna volátil, o capital se retrai ou migra para mercados mais estáveis.
Há ainda um efeito silencioso, porém devastador, sobre a produtividade agrícola. Ao ignorar limites ecológicos, o país arrisca acelerar degradação de solos, perda de serviços ambientais essenciais e maior variabilidade climática regional. Essas não são ameaças abstratas: traduzem-se em custos crescentes, necessidade de mais insumos, reduções de produtividade e maior
vulnerabilidade a extremos climáticos. A fragilização de normas ambientais não “libera” o produtor — ela apenas transfere o custo da negligência para o próprio setor no futuro.
O prejuízo reputacional fecha o círculo. O Brasil levou anos para convencer compradores globais de que seu agro é sustentável, tecnológico e baseado em ciência, e mostrou isso com muita competência na COP30. Bastam algumas mudanças legislativas mal calibradas para corroer essa confiança. Uma vez danificada, a reputação internacional não se recompõe rapidamente; ela afeta contratos, parcerias, investimentos e o poder de negociação do país.
O futuro tem um custo — e, no ritmo atual, quem pagará será o próprio agronegócio que o Congresso diz defender. A economia brasileira não precisa de um campo regulatório mais frágil, e sim mais inteligente. As escolhas feitas hoje determinarão se o Brasil permanecerá protagonista global ou se tornará refém de sua própria miopia legislativa.
Que o exemplo de 2025 não seja ainda mais exacerbado em 2026, um ano eleitoral que promete nos trazer ainda mais desastres causados por cegueiras cognitivas de cunho ideológico. Chega, precisamos de mais inteligência. Um feliz natal a todos, e que Deus nos abençoe nesse ano vindouro com paz na política, na administração pública, na segurança, na saúde.
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