PUBLICIDADE

Agropolítica

População de javalis avança e impasse no controle da espécie persiste

Em audiência na Câmara, especialistas alertam para os riscos sanitários e deputados pedem menos burocracia e autonomia dos Estados

Nome Colunistas

Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com

28/08/2025 - 10:44

Dados do Ibama apontam para 1,183 milhão de javalis abatidos até 2024. - Foto: Adobe Stock
Dados do Ibama apontam para 1,183 milhão de javalis abatidos até 2024. - Foto: Adobe Stock

A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CRA) da Câmara dos Deputados realizou nesta quarta-feira, 27, uma audiência pública para debater o avanço da população de javalis no Brasil. O encontro, que partiu de uma requisição do deputado Pezenti (MDB-SC), reuniu parlamentares, produtores rurais, pesquisadores da Embrapa e universidades, além de associações de caçadores. 

O javali, como espécie exótica invasora, tem seu controle populacional autorizado pelo Ibama por meio de normativas específicas. Para realizar esse controle, é necessário obter autorização e registro como controlador. São Paulo foi um dos primeiros estados a definir, por lei, diretrizes para o controle e erradicação do javali no estado. 

CONTEÚDO PATROCINADO

O debate expôs divergências. Parlamentares e produtores pressionaram por menos entraves e mais autonomia local. Já pesquisadores e entidades de proteção animal pediram cautela, destacando riscos sanitários e ambientais. Todos concordaram, no entanto, que a população de javalis cresce sem controle e ameaça o agronegócio, a biodiversidade e a saúde pública.

Pesquisadores chamaram atenção para a escala do problema. Paulo Bezerra, pesquisador do NPC (Núcleo de Pesquisa e Conservação da Fauna), afirmou que os números oficiais estão subestimados. Segundo ele, os dados mais recentes do Ibama apontam para 1,183 milhão de javalis abatidos até 2024. Os dados, autodeclaratórios, são a única fonte de informações sobre esses animais.

Ele explicou, baseado em questionários aplicados junto aos caçadores, e considerando caçadas autorizadas e informais, a estimativa é que mais de 6,5 milhões de animais tenham sido abatidos até o ano passado. Uma das sugestões apresentadas pelo especialista é priorizar abates de fêmeas, a fim de frear a reposição da população.

PUBLICIDADE

Altamente adaptáveis, os javalis possuem uma taxa reprodutiva elevada. Vivem em grupos e têm hábitos noturnos, dificultando sua observação direta. “Nós começamos com milhares [de javalis], passamos para milhões, vamos passar para dezenas de milhões, vamos passar para centenas de milhões, e quando chegar na Amazônia acabou, não tem controle”, disse, ao mostrar o avanço dos animais pelo país.

Distribuição dos javalis segundo dados dos caçadores declarados no SIMAF/IBAMA – 2022

Representando o Ibama, a diretora do Uso Sustentável de Biodiversidade e Florestas, Lívia Karina Martins, destacou que o órgão já trabalha no desenvolvimento de um novo sistema informatizado, com apoio orçamentário via emenda parlamentar, para agilizar a concessão de autorizações e dar maior rastreabilidade ao processo. Segundo ela, o órgão reconhece os javalis como uma espécie invasora”. “Não há o que se falar em não existir controle, ou não há o que se falar em não erradicar a espécie aqui no Brasil”, afirmou.

O presidente da FPA, Pedro Lupion (PP-PR), defendeu a desburocratização do controle. “Nos Estados Unidos a caça é liberada e o manejo funciona. O produtor precisa ter o direito de proteger sua lavoura. Os estados têm condição de autorizar e fiscalizar.”

O avanço dos animais preocupa produtores. O presidente do Sindicato Rural de Sacramento (MG), Osny Zago, representante da CNA e da Faemg/Senar, afirmou que o Brasil está “dez anos atrasado” no enfrentamento. “A reprodução é geométrica. Os controladores fazem um trabalho importante, mas totalmente insuficiente. 

“Para cada javali abatido, nascem dez”, disse. Ele defendeu investimentos em pesquisas para métodos de esterilização, como um hormônio que possa ser misturado em meio a ração em cochos.

PUBLICIDADE

Além das destruições em lavouras, nascentes e ameaça a espécies nativas, os parlamentares também relataram riscos à população, nas rodovias e no campo. “O javali ataca cavalo e gente. Há casos de famílias impedidas de passear no campo. Além disso, manadas de cem ou duzentos animais estão destruindo lavouras e já alcançam perímetros urbanos”, disse o deputado Silvio Girardi.

Risco sanitário

A preocupação sanitária foi reforçada pelo deputado Zé Trovão (PL-SC), que destacou o risco de entrada da peste suína africana, doença altamente contagiosa que poderia comprometer a produção nacional e fechar mercados externos. “A suinocultura catarinense faturou quase R$ 10 bilhões no ano passado, metade só em exportações. Se houver contaminação vinda do javali, nós quebramos o setor”, afirmou. O Brasil é livre de PSA desde 1988 e mantém reconhecimento internacional, emitido pela OMSA, como livre da doença.

Do lado técnico, Virgínia Santiago Silva, pesquisadora da Embrapa, destacou que o javali é uma espécie invasora de alto impacto econômico, ambiental e sanitário. No entanto,  rejeitou a ideia de liberar a carne de caça para consumo, apontada por caçadores e parlamentares. “Não é possível assegurar inocuidade. Esses animais se alimentam de tudo e podem transmitir doenças. Vender salame de javali em feira é um risco real.”

A posição foi reforçada por Vânia Plaza Nunes, diretora técnica do Fórum Animal. “Caça não é forma de manejo populacional. Precisamos de programas baseados em ciência, com diagnóstico, metas e alternativas como anticoncepcionais. O abate sem critérios aumenta o risco de acidentes e não resolve o crescimento populacional.”

Audiência pública na Câmara dos Deputados
Audiência pública na Câmara dos Deputados para debater o avanço da população de javalis. Foto: Agro Estadão

Proposta legislativa de controle e manejo

Na oportunidade, parlamentares e participantes destacaram a apresentação do Projeto de Lei 4.253/2025, que transfere aos estados e municípios a competência para manejar espécies invasoras, autoriza a caça e regulamenta a comercialização da carne e subprodutos, sob inspeção sanitária. A proposta, no entanto, ainda não consta na página da Câmara na internet. 

O deputado Alceu Moreira (MDB-RS), autor do projeto de lei, criticou a postura do Ibama. “Os senhores se dão o direito de proibir por proibir, multar por multar. Queremos que estados e municípios, que conhecem sua realidade, tenham autonomia. Além disso, é preciso permitir o aproveitamento da carne, desde que com inspeção.”

Confira os principais pontos do PL 4.253/2025:

  • Competência descentralizada: transfere a estados e municípios a responsabilidade pelo controle populacional do javali e de outras espécies invasoras.
  • Autorização para caça: permite o abate por controladores credenciados, reduzindo a dependência exclusiva de autorizações do Ibama.
  • Aproveitamento da carne: autoriza a utilização da carne e de subprodutos, desde que submetidos a inspeção sanitária.
  • Enfoque sanitário: reconhece riscos à pecuária, sobretudo à suinocultura e à exportação de proteína animal.
  • Simplificação de regras: busca reduzir burocracia e prazos para emissão de licenças.
  • Flexibilidade regional: estados e municípios podem adaptar regras conforme as características locais.

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Câmara aprova urgência para projeto que moderniza o seguro rural

Agropolítica

Câmara aprova urgência para projeto que moderniza o seguro rural

Proposta, de autoria da ex-ministra da Agricultura e senadora Tereza Cristina, visa ampliar a definição de prejuízos cobertos pelo seguro rural

Projeto propõe ampliar proteção da propriedade rural contra penhora por dívidas

Agropolítica

Projeto propõe ampliar proteção da propriedade rural contra penhora por dívidas

A proposta ainda aguarda encaminhamento para análise nas comissões do Senado

Alckmin vê acordo Mercosul-UE em vigor no Brasil até o fim de maio

Agropolítica

Alckmin vê acordo Mercosul-UE em vigor no Brasil até o fim de maio

Texto do decreto das salvaguardas brasileiras já está na Casa Civil e deve sair antes de aprovação no Senado 

Vai à sanção projeto que permite uso no Pronaf de até R$ 500 milhões do Fundo Garantidor

Agropolítica

Vai à sanção projeto que permite uso no Pronaf de até R$ 500 milhões do Fundo Garantidor

Proposta já havia passado pelo Senado e foi aprovada pela Câmara nesta quinta-feira, 26;

PUBLICIDADE

Agropolítica

México e Filipinas abrem mercados para produtos brasileiros

Brasil chega a 14 novos mercados neste ano

Agropolítica

Governo libera mais R$ 73,6 milhões para ajudar arrozeiros 

Desde 2024, foram mais de R$ 716 milhões em medidas de apoio ao setor de arroz

Agropolítica

Coalizão dos Biocombustíveis quer SAF e diesel verde como prioridade em Fundo de Transição Energética

Contribuições setoriais para o mapa da transição energética do Brasil, será entregue ao governo federal na segunda semana de março 

Agropolítica

Alckmin diz que enviará proposta sobre salvaguardas brasileiras no acordo Mercosul-UE

Câmara dos Deputados aprova acordo provisório entre Mercosul e União Europeia e texto segue para análise do Senado

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.