Agropolítica
Em Paris, Lula recebe certificado de Brasil livre de febre aftosa sem vacinação
Status serve como peso para novas aberturas de mercado; além da carne bovina, reconhecimento pode gerar mais de US$ 120 milhões à suinocultura
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com | Atualizada às 12h
06/06/2025 - 05:04

Um projeto iniciado ainda na década de 1960 agora ganha seus capítulos finais. O Brasil recebeu nesta sexta-feira, 6, o certificado de país livre de febre aftosa sem vacinação. A cerimônia acontece em Paris, na sede da Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA).
O evento faz parte da agenda do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que, desde o dia 4 de junho, está em visita à França. Apesar de o reconhecimento ter sido aprovado na 92ª Sessão Geral da Assembleia Mundial de Delegados da OMSA, realizada no último dia 29 de maio, a cerimônia desta sexta-feira marca a entrega oficial do status sanitário, articulada para contar com a presença de Lula.
“Hoje é o reconhecimento de um país que tem no agronegócio, que tem na agropecuária, uma das suas mais importantes vertentes econômicas. Já não é um quebra-galho trabalhar com o agronegócio do Brasil. Virou o principal negócio do Brasil”, destacou Lula durante o discurso no evento.
O status é resultado de um esforço que vem sendo construído há pelo menos 60 anos, com campanhas de vacinação para a erradicação da doença, como mostra a linha do tempo feita pelo Agro Estadão. De lá para cá, os estados foram se organizando, sendo Santa Catarina o primeiro a receber o status de livre de febre aftosa sem vacinação. Até que, em 2024, foram realizadas as últimas vacinações no país.
Mais mercados — e não só para bovinos
O efeito prático desse reconhecimento é a expansão de mercados — e não só para os bovinos, comumente associados como vítimas da doença. A febre aftosa é uma enfermidade que atinge animais biungulados, ou seja, com casco fendido em duas partes. Basicamente, são bovinos, bubalinos, caprinos, ovinos e suínos. Por isso, além das exportações de carne bovina, o novo status pode trazer bons frutos para a suinocultura brasileira.
Quem também está em Paris para este momento é o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin. Ele falou ao Agro Estadão sobre a importância do novo status e apontou dois ganhos principais para a comercialização da proteína suína.
“São duas vertentes de importância. A primeira delas, que a suinocultura se beneficia junto com todas as outras [atividades], é a imagem do país. É um país que investe, porque, para chegar a um selo de livre de aftosa sem vacinação, precisa ter investido muito, ter construído um sistema de defesa muito robusto e muito forte […]”, destacou Santin. “A segunda vertente é o impacto econômico. A suinocultura sofre muita restrição de alguns países que não abriam para outros estados além de Santa Catarina, justamente porque o Brasil ainda vacinava. Veja o caso de Rio Grande do Sul, Paraná, Acre e Rondônia, que foram declarados livres de febre aftosa sem vacinação há dois anos, mas ainda não começaram a vender”, complementou.
Entre os possíveis mercados estão Japão, Coreia do Sul, México, Canadá, Estados Unidos e China. No caso chinês, eles compram carne suína sem osso do restante do país, mas carnes com osso e miúdos só são adquiridos quando vêm de Santa Catarina. Já há um pleito junto ao governo chinês para que haja o reconhecimento de Rio Grande do Sul, Paraná, Acre e Rondônia como zonas livres de febre aftosa sem vacinação. Esses estados foram reconhecidos pela OMSA há dois anos, mas esse status ainda precisa ser ratificado nos protocolos comerciais firmados entre os países para permitir a exportação de todos os produtos suínos.
Questionado se as negociações poderiam agora incluir o reconhecimento integral do Brasil, Santin acredita que não. “Num primeiro momento, é preciso reforçar o que já está na mesa. Não creio que ampliar seja uma vantagem em um mercado para o qual já temos todas as documentações prontas, especificamente para esses estados. […] Depois de concluído esse processo, podemos, sim, seguir com o pleito para os demais estados”, comentou.
Santin também explica que o novo status brasileiro concedido pela OMSA não abre mercados de forma automática. O reconhecimento ajuda, mas não garante. “Não é uma obrigação imposta; é um reconhecimento do status, que precisa ser referendado pelos países”, salientou.
Mais US$ 120 milhões
Um levantamento feito pela ABPA projeta que o Brasil pode ganhar mais de US$ 120 milhões na balança comercial apenas com novas negociações entre o Rio Grande do Sul e a China. Segundo Santin, esse valor refere-se exclusivamente aos ganhos com as vendas de carne suína com osso e miúdos.
“Com esse status, reforçamos o argumento para buscar abertura para os demais estados — não só o Rio Grande do Sul, mas também Paraná, Acre e Rondônia —, que já estão declarados livres sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal. Agora, todos os estados do Brasil poderão também pleitear acesso a mercados que exigem esse status sanitário”, pontua o presidente da entidade.
Churrasco à la Paris
A comitiva brasileira em Paris também vai promover um evento mais informal: um churrasco para autoridades e empresários. Como revela Santin, o cardápio deve incluir carne bovina e frango na brasa. “Será um momento de celebração desse fato histórico e de fortalecimento das parcerias”, disse.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Agropolítica
1
Ministério da Pesca cria grupo para discutir Registro Geral da Atividade Pesqueira
2
Novo projeto no Congresso busca evitar colapso da cadeia do leite; entenda
3
China “nunca” disse que não habilitaria novos frigoríficos, diz encarregado de Comércio Internacional do Mapa
4
Fim da jornada 6x1 pode criar vácuo operacional no agro com impacto bilionário, aponta FAEP
5
Operação apreende 28 toneladas de defensivos irregulares em MG
6
Governo de Goiás envia projeto para encerrar cobrança da taxa do agro
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Agropolítica
Entenda as novas diretrizes para pedidos de recuperação judicial no agro
Orientação normativa aos magistrados busca reduzir divergências entre comarcas e detalha exigências documentais para pessoa física e jurídica
Agropolítica
Caminhoneiros negam greve nacional por causa de alta do diesel
Categoria organiza paralisação de 24 horas no Porto de Salvador por problemas na triagem de cargas
Agropolítica
Nova fiscalização da soja para a China gera embate entre governo e exportadores
Entenda por que a Cargill suspendeu embarques de soja para a China e os ajustes na fiscalização defendidos pelo Ministério da Agricultura
Agropolítica
Governo anuncia pacote para frear alta do diesel no Brasil
Plano inclui isenção de impostos federais, subsídio e apelo por redução do ICMS nos estados
Agropolítica
Alckmin prevê sanção do acordo Mercosul-UE na próxima semana
Segundo Vice-presidente, tratado deve começar a valer em até 60 dias
Agropolítica
Comitiva gaúcha em Brasília pede aceleração do PL das dívidas rurais
Grupo também teve reunião com Ministro da Agricultura para apresentar plano de irrigação para o RS
Agropolítica
Seguro rural e endividamento são prioridades da Agenda Legislativa do Agro 2026
Lançado pela CNA na Câmara dos Deputados, documento reúne 100 projetos em tramitação no Congresso que impactam diretamente produtores rurais
Agropolítica
Operação apreende 28 toneladas de defensivos irregulares em MG
Operação também encontrou sementes e fertilizantes irregulares, somando R$ 3,2 milhões em insumos apreendidos