PUBLICIDADE

Economia

Como o Brasil controlou e venceu o surto de gripe aviária nas granjas

Organização Mundial reconheceu o país como livre do vírus em granjas comerciais; setor busca a retomada dos mercados fechados e quer acordo de regionalização

Sabrina Nascimento | São Paulo e Mônica Rossi | Porto Alegre

27/06/2025 - 08:00

Foto: Adobe Stock
Foto: Adobe Stock

Líder global na exportação de carne de frango, o Brasil enfrentou em maio um inédito foco de gripe aviária em granja comercial. O caso gerou alerta máximo na cadeia produtiva, mobilizou autoridades sanitárias e provocou embargos de diversos países compradores.

O sinal foi acionado em 15 de maio, quando o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) confirmou a presença do vírus em uma granja de matrizes em Montenegro (RS). Desde a chegada da doença ao continente americano, em 2022, o Brasil só havia registrado casos em aves silvestres.

CONTEÚDO PATROCINADO

A granja gaúcha abrigava 17 mil aves matrizes, responsáveis pela produção de ovos férteis para a criação de frangos de corte. A mortalidade foi considerada altíssima pelos técnicos. Diante da situação, o MAPA determinou o abatimento imediato de todo o plantel, com descarte no local, além da destruição de todos os ovos produzidos.

O impacto logístico foi significativo. Só no Paraná, foram descartados mais de 10 milhões de ovos férteis que tinham chegado da granja contaminada. Além disso, um rigoroso protocolo foi adotado: sete barreiras sanitárias foram montadas no entorno da propriedade e foi iniciada uma varredura em todas as granjas no raio de 10 quilômetros.

granja em Montenegro RS; gripe aviária;
Granja em Montenegro (RS) passou por desinfecção após caso confirmado. Foto: Filipe Serena

Na mesma semana, houve a confirmação de mortes de aves silvestres no Zoológico de Sapucaia do Sul (RS). Dias depois, o Zoológico de Brasília também foi interditado por conta de uma suspeita, reforçando a circulação do vírus no ambiente silvestre nacional. 

PUBLICIDADE

28 dias sob vigilância

Três dias após o início dos trabalhos de contenção, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, anunciou que, se nenhum novo foco surgisse em plantéis comerciais dentro de 28 dias, o Brasil poderia recuperar seu status sanitário. Porém, novas suspeitas começaram a surgir em diferentes estados. 

Entre janeiro e 22 de junho, foram conduzidas 172 investigações de possíveis casos de gripe aviária. Nove deram resultado positivo, sendo o foco de Montenegro o único registrado em produção comercial. 

Efeitos comerciais

Com a confirmação em granja, os embargos às exportações de carne de frango começaram. Diversos países adotaram restrições: nacionais, estaduais ou no raio de 10 quilômetros. 

Para mitigar os impactos, o MAPA autorizou, de forma emergencial, a armazenagem de cargas já inspecionadas em contêineres refrigerados. Ao mesmo tempo, tentava-se negociar com os compradores.

O primeiro recuo veio em meados de junho. O México — 8º destino da carne de frango brasileira em 2024 — restringiu as importações apenas ao Rio Grande do Sul. Já o Japão — 3º maior mercado — suspendeu também as compras de carne de frango, ovos, derivados, aves vivas e ovos férteis oriundos de Campinápolis (MT) e Santo Antônio da Barra (GO), após confirmação de casos em aves domésticas.

PUBLICIDADE

Retomada e diplomacia sanitária

O alívio para o setor veio em 18 de junho. Após cumprir 28 dias sem novos casos em plantéis comerciais, o MAPA anunciou a retomada do status sanitário. Em 20 de junho, a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconheceu oficialmente o Brasil como livre de gripe aviária. “Não se comemora uma crise, mas é preciso reconhecer a robustez do nosso sistema sanitário, que respondeu com total transparência e eficiência”, afirmou Fávaro. 

Com o reconhecimento internacional, o governo iniciou uma ofensiva diplomática por meio dos adidos agrícolas para derrubar os embargos ainda em vigor e reverter a queda de 12,9% nas exportações do setor no último mês. Até esta quinta-feira, 26, 17 países já tinham retirado a restrição à carne de aves do Brasil.

“Agora, nós vamos buscar retomar a integralidade das exportações. Com a publicação da OMSA, não tem que fechar nem para o Rio Grande do Sul mais, tem que abrir tudo”, diz Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Reflexões e reforços

Embora a gripe aviária tenha sido contida na produção comercial, o desafio sanitário persiste. O secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, afirma que não houve falha no sistema: “Você faz as medidas para prevenir a entrada, porque não é possível ser risco zero.”

Para Márcio Madalena, secretário adjunto da Secretaria da Agricultura do RS, a lição está no controle sanitário rigoroso. “A biosseguridade foi o que garantiu que a doença não se espalhasse. Foi um episódio pontual. O vírus circulou no continente, entrou em uma granja específica, mas não avançou.”

O presidente da ABPA destaca que o episódio deve levar a um reforço nos protocolos. “Os controles já eram sólidos, mas vamos revisar, reforçar e treinar ainda mais as equipes com base no que aprendemos.”

Novas aberturas e regionalização

O governo também trabalha para consolidar acordos de regionalização sanitária, prática recomendada pela OMSA. A medida permite que embargos se limitem às áreas afetadas, evitando bloqueios a estados ou ao país todo. “Mais de 130 países já aceitam a regionalização. Faltam alguns. Cada caso é um caso, mas seguimos avançando”, diz Rua.

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Piscicultura brasileira ultrapassa 1 milhão de toneladas em 2025

Economia

Piscicultura brasileira ultrapassa 1 milhão de toneladas em 2025

Exportações de peixe de cultivo subiram em valor e caíram em volume no ano passado 

Tarifas globais dos EUA voltam para 10% e entram em vigor por 150 dias

Economia

Tarifas globais dos EUA voltam para 10% e entram em vigor por 150 dias

Carne bovina, tomates, açaí, laranjas e suco de laranja ficam de fora das tarifas por necessidades da economia americana

Exportações de carne bovina já superam todo fevereiro de 2025 em apenas 13 dias

Economia

Exportações de carne bovina já superam todo fevereiro de 2025 em apenas 13 dias

Exportações de carne de frango e suína também avançaram, com alta na média diária de 32,69% e 26,41%, respectivamente

China não habilitará novos frigoríficos brasileiros pelos próximos três anos, afirma assessor do Mapa

Economia

China não habilitará novos frigoríficos brasileiros pelos próximos três anos, afirma assessor do Mapa

Setor ainda espera habilitações e quer regulação de cota brasileira para afastar questionamentos de formação de cartel

PUBLICIDADE

Economia

Nos EUA, venda de suínos beira recorde; ausência da China pesa sobre carne bovina

Sem a China, exportações norte-americanas de carne bovina caíram 12% em volume e 11% em receita em 2025

Economia

Fila de caminhões trava escoamento da safra pelo porto de Miritituba; veja o vídeo

Comitiva da Famato constata 25 quilômetros de fila em trecho da BR-163 antes do porto; caminhoneiros relatam falhas na organização do fluxo;

Economia

Exportação de pescados do Brasil deve somar US$ 600 mi após alívio tarifário dos EUA

Abipesca prevê retomada em 2026, com recuperação de mais de 5 mil empregos e recomposição da capacidade produtiva do setor.

Economia

Brasil e Índia fecham acordo para ampliar cooperação em biocombustíveis

Acordo prevê a criação de uma plataforma de colaboração voltada ao intercâmbio de conhecimento e cooperação tecnológica

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.