Economia
Como o Brasil controlou e venceu o surto de gripe aviária nas granjas
Organização Mundial reconheceu o país como livre do vírus em granjas comerciais; setor busca a retomada dos mercados fechados e quer acordo de regionalização

Líder global na exportação de carne de frango, o Brasil enfrentou em maio um inédito foco de gripe aviária em granja comercial. O caso gerou alerta máximo na cadeia produtiva, mobilizou autoridades sanitárias e provocou embargos de diversos países compradores.
O sinal foi acionado em 15 de maio, quando o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) confirmou a presença do vírus em uma granja de matrizes em Montenegro (RS). Desde a chegada da doença ao continente americano, em 2022, o Brasil só havia registrado casos em aves silvestres.
A granja gaúcha abrigava 17 mil aves matrizes, responsáveis pela produção de ovos férteis para a criação de frangos de corte. A mortalidade foi considerada altíssima pelos técnicos. Diante da situação, o MAPA determinou o abatimento imediato de todo o plantel, com descarte no local, além da destruição de todos os ovos produzidos.
O impacto logístico foi significativo. Só no Paraná, foram descartados mais de 10 milhões de ovos férteis que tinham chegado da granja contaminada. Além disso, um rigoroso protocolo foi adotado: sete barreiras sanitárias foram montadas no entorno da propriedade e foi iniciada uma varredura em todas as granjas no raio de 10 quilômetros.

Na mesma semana, houve a confirmação de mortes de aves silvestres no Zoológico de Sapucaia do Sul (RS). Dias depois, o Zoológico de Brasília também foi interditado por conta de uma suspeita, reforçando a circulação do vírus no ambiente silvestre nacional.
28 dias sob vigilância
Três dias após o início dos trabalhos de contenção, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, anunciou que, se nenhum novo foco surgisse em plantéis comerciais dentro de 28 dias, o Brasil poderia recuperar seu status sanitário. Porém, novas suspeitas começaram a surgir em diferentes estados.
Entre janeiro e 22 de junho, foram conduzidas 172 investigações de possíveis casos de gripe aviária. Nove deram resultado positivo, sendo o foco de Montenegro o único registrado em produção comercial.
Efeitos comerciais
Com a confirmação em granja, os embargos às exportações de carne de frango começaram. Diversos países adotaram restrições: nacionais, estaduais ou no raio de 10 quilômetros.
Para mitigar os impactos, o MAPA autorizou, de forma emergencial, a armazenagem de cargas já inspecionadas em contêineres refrigerados. Ao mesmo tempo, tentava-se negociar com os compradores.
O primeiro recuo veio em meados de junho. O México — 8º destino da carne de frango brasileira em 2024 — restringiu as importações apenas ao Rio Grande do Sul. Já o Japão — 3º maior mercado — suspendeu também as compras de carne de frango, ovos, derivados, aves vivas e ovos férteis oriundos de Campinápolis (MT) e Santo Antônio da Barra (GO), após confirmação de casos em aves domésticas.
Retomada e diplomacia sanitária
O alívio para o setor veio em 18 de junho. Após cumprir 28 dias sem novos casos em plantéis comerciais, o MAPA anunciou a retomada do status sanitário. Em 20 de junho, a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconheceu oficialmente o Brasil como livre de gripe aviária. “Não se comemora uma crise, mas é preciso reconhecer a robustez do nosso sistema sanitário, que respondeu com total transparência e eficiência”, afirmou Fávaro.
Com o reconhecimento internacional, o governo iniciou uma ofensiva diplomática por meio dos adidos agrícolas para derrubar os embargos ainda em vigor e reverter a queda de 12,9% nas exportações do setor no último mês. Até esta quinta-feira, 26, 17 países já tinham retirado a restrição à carne de aves do Brasil.
“Agora, nós vamos buscar retomar a integralidade das exportações. Com a publicação da OMSA, não tem que fechar nem para o Rio Grande do Sul mais, tem que abrir tudo”, diz Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Reflexões e reforços
Embora a gripe aviária tenha sido contida na produção comercial, o desafio sanitário persiste. O secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, afirma que não houve falha no sistema: “Você faz as medidas para prevenir a entrada, porque não é possível ser risco zero.”
Para Márcio Madalena, secretário adjunto da Secretaria da Agricultura do RS, a lição está no controle sanitário rigoroso. “A biosseguridade foi o que garantiu que a doença não se espalhasse. Foi um episódio pontual. O vírus circulou no continente, entrou em uma granja específica, mas não avançou.”
O presidente da ABPA destaca que o episódio deve levar a um reforço nos protocolos. “Os controles já eram sólidos, mas vamos revisar, reforçar e treinar ainda mais as equipes com base no que aprendemos.”
Novas aberturas e regionalização
O governo também trabalha para consolidar acordos de regionalização sanitária, prática recomendada pela OMSA. A medida permite que embargos se limitem às áreas afetadas, evitando bloqueios a estados ou ao país todo. “Mais de 130 países já aceitam a regionalização. Faltam alguns. Cada caso é um caso, mas seguimos avançando”, diz Rua.
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