Economia
Salvaguardas no Mercosul-UE não impedem avanço das exportações do agro, diz Rubens Barbosa
Países da UE aprovam provisoriamente acordo com o Mercosul; veja análise do ex-embaixador do Brasil em Washington
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com | Atualizada às 08h46
09/01/2026 - 05:00

Os países da União Europeia aprovaram provisoriamente nesta sexta-feira, 09, o acordo comercial com o Mercosul, segundo diplomatas ouvidos pelas agências France Presse e Reuters. A formalização dos votos, no entanto, ainda depende do envio de confirmações por escrito até as 13h no horário de Brasília (17h no horário de Bruxelas), informaram as fontes.
Os embaixadores dos 27 países-membros do bloco europeu estão reunidos para votar o texto que estabelece mecanismos de salvaguardas às importações agrícolas, em meio a protestos de produtores rurais em diferentes países do continente.
As salvaguardas foram incluídas na negociação como forma de conter eventuais aumentos rápidos das importações e tentar acalmar agricultores europeus, que temem a entrada acelerada de produtos do Mercosul.
Pela proposta avaliada inicialmente, caso as importações de produtos agrícolas sensíveis, como carnes e açúcar, cresçam, em média, 8% ao longo de um período de três anos, a UE poderá abrir uma investigação e adotar medidas de proteção. A Itália defende que esse gatilho seja reduzido para 5% — inclusive, essa é uma condição italiana para apoiar o acordo.
Para o ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, Rubens Barbosa, as salvaguardas são reflexo da pressão dos agricultores europeus, mas não representam um bloqueio estrutural ao agro brasileiro. Segundo ele, apesar do mecanismo, no médio prazo o Brasil continuará ampliando as vendas de produtos agrícolas para o bloco europeu. “Isso [salvaguardas] não vai impedir que o Brasil exporte mais produtos, porque vai haver uma demanda. Eles [europeus] não têm condição de produzir soja, produzir café, no montante que precisam”, destacou.
Em conversa com o Agro Estadão, Barbosa salientou ainda que as cotas atuais estipuladas no acordo são pequenas. Ao longo de 15 anos, o Mercosul irá eliminar as tarifas sobre 91% das exportações da UE, ante os 35% atuais. Por sua vez, o bloco europeu, ao longo de 10 anos, eliminará progressivamente as tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul.
No aspecto dos produtos agrícolas, o acordo prevê redução tarifária pelo Mercosul para produtos europeus, como vinhos — hoje taxados em 17% — e bebidas destiladas, cujas tarifas variam entre 20% e 35%.
Para os itens considerados mais sensíveis, o acesso ao mercado europeu ocorrerá por meio de cotas tarifárias. A UE oferecerá ao Mercosul uma cota adicional de 99 mil toneladas de carne bovina, enquanto o bloco sul-americano concederá à UE uma cota isenta de tarifas de 30 mil toneladas para queijos.
Além disso, o acordo estabelece cotas europeias para aves, carne suína, açúcar, etanol, arroz, mel, milho e milho doce. Do outro lado, o Mercosul abrirá cotas específicas para leite em pó e fórmulas infantis oriundos da União Europeia.
Itália vai destravar acordo
Na avaliação de Barbosa, as medidas recentemente anunciadas pela Comissão Europeia — liberação antecipada de cerca de € 45 bilhões aos agricultores e retirada das tarifas sobre fertilizantes — tendem a satisfazer a Itália. O País é considerado decisivo para aprovação final do acordo. “Eu tenho a impressão que a Itália vai ficar satisfeita com essas medidas que estão sendo tomadas”, afirmou.
Segundo ele, a liberação antecipada de recursos e a flexibilização de regras ambientais pesaram na mudança de posição italiana. Com isso, Barbosa acredita que o texto será aprovado definitivamente.
Ele reforça, no entanto, que a França, por outro lado, deve manter sua oposição ao acordo. Barbosa, que inclusive está em Paris, relatou ainda à reportagem que a cidade está um “caos”, com tratores e policiais por toda parte, devido às manifestações dos produtores rurais. “A França não vai mudar de posição. Eles vão ficar contra”, afirma.
Geopolítica global jogando a favor da assinatura
Na avaliação do ex-embaixador, o cenário geopolítico, intensificado no início de 2026 após ação militar dos Estados Unidos na Venezuela que resultou na prisão do ditador Nicolás Maduro, está influenciando o avanço da conclusão do acordo.
“Essa instabilidade, essa presença norte-americana do jeito que está e a Europa sendo afetada muito por causa das medidas restritivas norte-americanas, tudo isso levou a Europa a acelerar esse acordo”, disse.
Esse contexto e a dependência europeia de fornecedores externos sustentam, segundo Barbosa, as perspectivas para o agro brasileiro. “Quem fornece alimentos à Europa são os Estados Unidos e o Brasil. Então, se eles não compram dos Estados Unidos, eles vão ter que comprar do Brasil. Não tem saída”, destacou.
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