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Economia

Exportações no ritmo atual podem esgotar cota chinesa da carne bovina antes do 3º tri

Em janeiro, o Brasil exportou 119,9 mil toneladas de carne bovina à China, volume equivalente a 10,8% da cota anual

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Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com

19/02/2026 - 05:00

Tarifa adicional de 55% inviabiliza a exportação ao país asiático, afirma Safras & Mercado. Foto: Adobe Stock
Tarifa adicional de 55% inviabiliza a exportação ao país asiático, afirma Safras & Mercado. Foto: Adobe Stock

A deliberação de uma cota tarifária anual para a importação de carne bovina pela China produz efeitos no mercado brasileiro, que tem no gigante asiático, o seu principal comprador. Enquanto o governo discute a criação de um mecanismo interno de distribuição da cota, o cenário atual desencadeia uma corrida pelas exportadoras. 

O ritmo acelerado de embarques ficou evidente já no primeiro mês de 2026. Em janeiro, o Brasil exportou 119,9 mil toneladas de carne bovina para a China, alta superior a 30% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O volume representa 10,8% da cota anual de 1,106 milhão de toneladas fixada pelo governo chinês.

CONTEÚDO PATROCINADO

Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras&Mercado, se o País mantiver o ritmo atual de embarque, a cota será liquidada antes do fim do terceiro trimestre. Depois disso, na avaliação dele, a tarifa adicional de 55%, praticamente inviabiliza a exportação. “Essa situação gera uma corrida desenfreada pela exportação. Enquanto nós [Brasil] tivermos cota, pelos meus cálculos, lá por agosto e setembro já não vai ter mais produto para o Brasil exportar. A cota já vai ter sido liquidada”, disse. 

Base de cálculo

O cálculo real sobre o fim da cota tem um descompasso entre o limite imposto pela China e a dinâmica logística da cadeia da carne bovina. 

O Sindicato das Indústrias de Frigoríficos de Mato Grosso (Sindifrigo-MT), alerta que o ciclo médio da cadeia — entre produção, embarque e chegada ao destino — é estimado em cerca de 75 dias. Isso significa que, quando a salvaguarda chinesa entrou em vigor, havia um volume considerável já contratado ou em trânsito — algo em torno de 500 mil toneladas, segundo estimativas da Abiec.

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Números compilados pelo Sindifrigo-MT indicam que, em 30 de dezembro de 2025, havia cerca de 350 mil toneladas de carne bovina brasileira entre cargas em trânsito e volumes já desembarcados em portos chineses. A esse total somam-se as exportações em janeiro e uma estimativa de 100 mil toneladas para fevereiro. 

Com isso, o volume entregue nos primeiros meses do ano pode alcançar 570 mil toneladas. “Restariam, então, para os dez meses seguintes de 2026, apenas 530 mil toneladas, o equivalente a 53 mil toneladas por mês, frente às 170 mil entregues em dezembro”, diz Paulo Bellicanta, presidente do Sindifrigo-MT. 

Na avaliação de Bellicanta, não se trata de uma análise teórica ou de projeções especulativas, mas da leitura objetiva de números que sinalizam risco de desabastecimento no mercado chinês e grave impacto sobre a cadeia produtiva brasileira. “O ponto que exige atenção, contudo, não é a existência da salvaguarda em si, mas as condições e adaptações necessárias à sua implementação”, salienta. 

O governo brasileiro ainda aguarda esclarecimentos das autoridades chinesas para saber se as cargas em trânsito antes da entrada em vigor da medida de salvaguarda, contarão dentro da cota tarifária estipulada.

Distribuição da cota

Diante desse cenário, o Governo Federal passou a discutir a criação de um sistema para administrar internamente a distribuição da cota entre os frigoríficos exportadores. A proposta tem a anuência da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). 

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Um dos modelos defendidos é um sistema semelhante ao aplicado à chamada cota Hilton — mecanismo tradicional que regula parte das exportações brasileiras de carne à União Europeia. Nesse sistema, são considerados como base os critérios históricos de desempenho dos exportadores.

Para Iglesias, uma gestão ordenada pode evitar distorções e reduzir a volatilidade no mercado interno. Sem regulação, no entanto, grandes frigoríficos tendem a concentrar rapidamente os embarques, ampliando a pressão sobre o boi gordo no primeiro semestre e provocando uma desaceleração no segundo, quando o limite for alcançado.

Ele pondera, no entanto, que apesar da regulação ajudar a suavizar esses ciclos, o desenho do modelo será determinante para evitar maiores problemas. “Dependendo da forma como o governo fizer essa distribuição, pode haver questionamentos legais. O que me preocupa nessa história é que pode ferir alguma lei brasileira, pois a legislação é complexa, então, isso pode acabar sendo judicializado”, alerta.

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