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Economia

Escassez e alta no preço do diesel se espalham e colocam o agro brasileiro em alerta

Agricultores no Paraná e em Mato Grosso, além do Rio Grande do Sul, denunciam disparada do diesel em meio aos trabalhos de colheita e plantio

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Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com

11/03/2026 - 16:14

Foram registrados aumentos no diesel de até R$ 2 por litro. Foto: Adobe Stock
Foram registrados aumentos no diesel de até R$ 2 por litro. Foto: Adobe Stock

Após produtores rurais do Rio Grande do Sul denunciarem a falta de diesel e o aumento nos preços em meio a Guerra no Oriente Médio, relatos semelhantes começam a surgir em outros estados. No Paraná, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Sistema FAEP) alerta que já recebeu informações de escassez de combustível em diferentes regiões. 

De acordo com o Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, sindicatos rurais e produtores informaram dificuldades para encontrar diesel em municípios do centro-sul, como Guarapuava e Prudentópolis e no oeste do Estado, em cidades como Marechal Cândido Rondon. 

CONTEÚDO PATROCINADO

Em alguns casos, além da dificuldade de abastecimento, também foram registrados aumentos expressivos no preço do combustível, com alta de até R$ 1,50 ou R$ 2,00 por litro em relação aos valores praticados anteriormente. “Nos últimos dias, então, nós temos acompanhado a evolução do aumento do preço do combustível, principalmente o diesel, que é um insumo tão necessário para a nossa produção. […] Então, posteriormente, nossa preocupação é com a falta desse combustível tão importante para a cadeia como um todo”, conta o presidente do Sindicato Rural Patronal de Marechal Cândido Rondon, Edio Chapla. 

A preocupação do setor está relacionada ao cenário internacional de energia à medida que a guerra no Oriente Médio persiste. A instabilidade na região está atrelada especialmente ao Estreito de Hormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural comercializados no mundo. Como o Brasil importa aproximadamente 29% do diesel que consome, qualquer oscilação no fornecimento ou nos preços internacionais pode repercutir rapidamente no mercado interno.

“O conflito no Oriente Médio impacta o nosso agronegócio, seja no fornecimento de combustível, seja no fornecimento de fertilizantes ou nas exportações de grãos e proteína animal. Mais especificamente sobre o diesel, essa possibilidade de escassez ou mesmo de aumento de preço já vem impactando o interior do nosso estado”, afirma Luiz Eliezer Ferreira, técnico do departamento técnico e econômico do Sistema FAEP. 

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O Sistema FAEP reitera ainda que, além de abastecer tratores, colheitadeiras e outros equipamentos agrícolas, o diesel é essencial para a logística do agronegócio. No país, mais de 60% da movimentação de cargas ocorre por rodovias, incluindo o transporte de grãos, fertilizantes, ração e outros insumos essenciais para a produção agropecuária. 

O mesmo cenário é revelado em Mato Grosso, onde entidades do setor produtivo também apontam aumento nos preços do diesel comercializado diretamente aos produtores. Segundo informações da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), apesar de não haver, neste momento, falta generalizada do combustível, o valor cobrado pelas distribuidoras que atendem produtores rurais já registra elevação significativa. 

Há relatos de aumentos que variam entre R$ 0,50 e R$ 1,00 por litro na modalidade de fornecimento a granel. Essa modalidade é utilizada por produtores para abastecer tanques próprios nas propriedades. Diante disso, alguns agricultores têm buscado alternativas, como adquirir o combustível diretamente em postos de combustíveis e transportá-lo em tambores ou recipientes maiores para garantir o abastecimento das máquinas no campo.

Menos tributos

Diante do cenário, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) solicitou ao Ministério da Fazenda e ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) a redução imediata e temporária de tributos federais e estaduais que incidem sobre a produção, importação, distribuição e comercialização do diesel. 

A entidade argumenta que o momento é particularmente delicado para o setor agropecuário, uma vez que coincide com o período de plantio da segunda safra e colheita da safra de soja. Nessa fase, o custo do combustível tem impacto direto sobre as despesas de produção e sobre a atividade econômica.

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Nos ofícios encaminhados ao governo, a CNA destaca que tributos federais como PIS, Pasep e Cofins representam cerca de 10,5% do preço do diesel, enquanto impostos estaduais, especialmente o ICMS, acrescentam em média 38,4% ao valor final do combustível. Para a entidade, uma redução temporária dessas alíquotas poderia ajudar a mitigar os impactos da alta dos combustíveis sobre o setor produtivo, contribuindo para conter o aumento dos custos logísticos e evitar pressões adicionais sobre os preços dos alimentos ao consumidor.

Setor quer aumento do biodiesel ao diesel

A CNA também assina uma carta aberta, divulgada nesta quarta-feira, 11, pedindo a ampliação da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel de 15% para 17%, reforçando sua posição divulgada anteriormente. 

Segundo as entidades signatárias, o aumento da participação do biocombustível na matriz energética do país poderia contribuir para reduzir a dependência brasileira da importação de diesel e ampliar a segurança energética nacional. Além disso, a medida também fortaleceria cadeias produtivas ligadas ao biodiesel, como a da soja, principal matéria-prima utilizada na produção do combustível renovável no Brasil.

“A ampliação da mistura para B17 representa uma resposta ágil, segura e plenamente alinhada aos interesses nacionais. Trata-se de uma medida eficaz para reduzir a crônica dependência brasileira da importação de diesel, acelerar a transição energética por meio de combustíveis renováveis e fortalecer as cadeias produtivas, vetor de geração de emprego, renda e desenvolvimento em diferentes regiões do Brasil”, destaca o documento assinado por 42 associações do agro e da indústria. 

Elevações no preço devem ser investigadas

Para investigar o contexto, o Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), encaminhou um ofício ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) solicitando a análise de recentes aumentos nos preços dos combustíveis registrados em diferentes estados e no Distrito Federal. 

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A medida foi tomada após sindicatos de postos de combustíveis informarem que distribuidoras teriam elevado os valores de venda aos postos sob a justificativa da alta do petróleo no mercado internacional, em decorrência do conflito iniciado no Oriente Médio no fim de fevereiro. Até o momento, porém, a Petrobras não anunciou reajuste nos preços do diesel nas refinarias. 

Diante disso, a Senacon pediu que o Cade avalie a existência de possíveis indícios de práticas que possam prejudicar a livre concorrência no mercado, incluindo eventual influência para adoção de condutas comerciais uniformes entre empresas do setor. Segundo o órgão, o objetivo é garantir transparência nas práticas comerciais e proteger os consumidores diante das oscilações do mercado de combustíveis.

‘Sem risco de desabastecimento’, diz ministro

Apesar do temor de diversos setores, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que não há risco de desabastecimento de combustíveis no Brasil, mesmo diante das tensões internacionais no mercado de energia. 

Em participação na Comissão de Minas e Energia do Senado nesta quarta-feira, ele afirmou que o governo acompanha a situação e intensificará a fiscalização para evitar abusos na formação de preços. O ministro também afirmou que eventuais aumentos registrados no mercado podem estar relacionados a práticas especulativas por parte de distribuidoras e revendedores, e que medidas de fiscalização e punição poderão ser adotadas caso irregularidades sejam confirmadas.

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