Economia
China sinaliza forte demanda por importações de soja em 2026
Plano rural chinês prevê diversificação de culturas, como canola e amendoim, e incentivos ao uso de tecnologias como IA, robôs e drones
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
05/02/2026 - 05:00

A China irá “participar profundamente” do comércio agrícola e expandir as importações de produtos com oferta doméstica insuficiente. A afirmação foi feita pelo chefe do escritório do grupo dirigente de assuntos rurais do Partido Comunista, Han Wenxiu, na quarta-feira, 03.
As declarações de Han aconteceram após a divulgação do plano rural de Pequim para 2026, nesta semana, conhecido como o ‘Documento nº 1’. Tradicionalmente, essa é a primeira diretriz de política do ano emitida pela liderança chinesa.
Segundo a autoridade chinesa, a expansão das compras externas de produtos com oferta interna limitada, sinaliza uma demanda forte e sustentada por soja estrangeira. “Buscaremos ativamente uma abertura mais ampla e de maior nível, inclusive na agricultura”, afirmou Han, ressaltando ao mesmo tempo que “é essencial regular adequadamente o ritmo e a escala das importações de produtos agrícolas para proteger a segurança alimentar nacional”.
Efeitos no mercado
Atualmente, a China é o principal destino da soja do Brasil. No último ano, os chineses responderam por 80% das exportações brasileiras de soja, conforme dados consolidados pela Associação Nacional dos Exportadores de Cereais. O movimento ganhou mais força pela guerra comercial travada entre Pequim e Washington, após o tarifaço de Donald Trump.
Para o consultor Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio, o espaço para mudanças relevantes na origem das compras chinesas é limitado, sobretudo no caso da soja, principal commoditie envolvendo o Brasil. “Não há grandes alternativas de diversificação, a não ser voltar a adquirir maiores volumes nos Estados Unidos, como consta no acordo verbal entre os países”, avaliou.
Em outubro passado, a Casa Branca informou que Pequim assumiu o compromisso de comprar 12 milhões de toneladas de soja norte-americana até fevereiro deste ano — volume que, segundo analistas já foi atingido. Nesta quarta-feira, 4, entretanto, em publicação nas redes sociais Donald Trump disse que os chineses teriam elevado suas as aquisições para 20 milhões de toneladas na safra atual. A afirmação mexeu com o mercado.
No pregão do dia, o contrato da soja na Bolsa de Chicago para março deste ano avançou 2,49%, cotado a US$ 10,92 por bushel. Já o vencimento de maio/26 subiu 2,55%, aos US$ 11,04 o bushel. O derivados acompanharam o movimento: o óleo e o farelo subiram 1,47% e 2,15%, respectivamente.
Ainda conforme Trump, o compromisso chinês de comprar ao menos 25 milhões de toneladas de soja dos EUA anualmente até 2028, segue mantido. Apesar do otimismo, parte do mercado mantém cautela. Operadores avaliam que as declarações do presidente se contradizem com falas anteriores e ressaltam que, mesmo com um eventual aumento para 20 milhões de toneladas, o volume ainda ficaria abaixo da média anual histórica, estimada em cerca de 27 milhões de toneladas.
O que o plano rural de Pequim indica?
A diretriz divulgada na terça-feira busca estabilizar a produção de grãos em cerca de 700 milhões de toneladas em 2026. No ano passado, esse volume atingiu 714,9 milhões de toneladas — um recorde tanto em volume total quanto em produtividade por unidade. A definição oficial de grãos na China inclui cereais, leguminosas e tubérculos.
Dado o papel crucial da soja como fonte de óleo comestível, o documento defende esforços para diversificar o fornecimento por meio da expansão do cultivo de canola, amendoim, camélia oleaginosa e outras culturas produtoras de óleo. Além disso, para atender à crescente demanda por ração animal, Pequim irá continuar com seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento de variedades de soja de alto rendimento.
O plano rural deste ano também incentiva os agricultores a aproveitar a onda de novas tecnologias, integrando a inteligência artificial à agricultura e ampliando o uso de drones, da Internet das Coisas, de robôs e de outras inovações. Segundo informações divulgadas na coletiva desta quarta-feira, a China lidera globalmente a posse de drones agrícolas, respondendo por mais de 300 mil das 500 mil unidades em uso no mundo.
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