Economia
Fortalecer laços com a China é racional, indica consultoria
Markestrat expõe o dilema do agro brasileiro entre a dependência comercial da China e a necessidade de acesso a tecnologia e capital dos EUA
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
12/08/2025 - 07:54

Fortalecer os laços com a China é uma estratégia racional do ponto de vista econômico, principalmente em meio às tarifas impostas pelos Estados Unidos (EUA), segundo relatório da Markestrat Group. No documento, a consultoria lembra que o mercado chinês não é apenas o maior comprador de produtos do agro brasileiro, mas também um dos principais fornecedores de insumos essenciais à produção.
Quando se adota uma visão cruzada e estruturada por cadeias produtivas, segundo a Markestrat, a importância da China se torna evidente em diferentes frentes. No caso da soja, por exemplo, mais de 70% das exportações brasileiras têm como destino o país asiático, o que representa cerca de US$ 32 bilhões anuais. Nas carnes bovina e de frango, a China também lidera como principal destino, respondendo por cerca de 30% das exportações. Os EUA, por sua vez, ficam com apenas 2% a 3% desse mercado.
No setor do café, os especialistas indicam que a recente autorização para ampliar as importações brasileiras do grão é vista como uma possível resposta do principal parceiro comercial do Brasil às tarifas de 50% impostas pelos EUA.
A análise da Markestrat também destaca a dependência brasileira em relação a insumos importados, principalmente fertilizantes e defensivos agrícolas. “O Brasil é hoje o quarto maior importador mundial de fertilizantes, com destaque para potássio, fósforo e nitrogênio, que juntos representam quase a totalidade do consumo nacional e são essenciais para culturas como soja, milho e cana-de-açúcar”, aponta o documento, ressaltando que a produção interna, no entanto, é insuficiente para atender à própria demanda.
Em relação aos defensivos, a China também figura como fornecedora dominante. Nesse contexto, a aproximação com países asiáticos e com o bloco dos BRICS, que reúne países emergentes, entre eles Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tem sido uma estratégia adotada para garantir segurança de abastecimento e reduzir riscos em cenários de instabilidade geopolítica. “Estar alinhado ao BRICS reduz o risco de bloqueio político-comercial e assegura fertilizantes e químicos necessários à produção do Brasil”, observa a consultoria.
A Markestrat ressalta que, ainda que o BRICS discuta mecanismos de liquidação em moedas locais — com o objetivo de reduzir a dependência do dólar e os custos cambiais —, a hegemonia da moeda americana deve persistir por muitos anos. O entrave principal, segundo a consultoria, não está na moeda em si, mas na ausência de um sistema de pagamentos internacional comparável ao SWIFT (sistema internacional que conecta bancos e permite a troca de informações financeiras), amplamente aceito por instituições públicas e privadas.
Para a consultoria, o Brasil se vê diante de um dilema geopolítico: por um lado, sua economia está cada vez mais integrada à Ásia; por outro, depende dos Estados Unidos para acesso a tecnologias, capital e equipamentos industriais. “Embora o mercado americano represente uma fatia menor para o agro brasileiro, é um polo de inovação estratégica”, alerta.
O relatório afirma, por fim, que a imposição de tarifas pelos EUA apenas escancarou a inexistência de uma política de Estado voltada ao futuro. Por isso, segundo os especialistas, o ideal seria que as decisões de investimento público considerassem o desenvolvimento do país enquanto Nação, e não somente como parte de uma Cadeia de Valor Global.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Economia
1
Em investigação, China aponta 'dano grave' à indústria de carne bovina e notifica OMC e exportadores
2
Fim do papel: produtores rurais terão de emitir nota fiscal eletrônica em 2026
3
Feiras do agro 2026: calendário dos principais eventos do setor
4
Começa a valer obrigatoriedade de emissão de nota fiscal eletrônica
5
Salvaguarda à carne bovina: Câmara Brasil-China vê desfecho favorável ao setor brasileiro
6
Menos pão, mais carne: canetas emagrecedoras redesenham demandas do agro brasileiro
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Economia
Acordo Mercosul-UE levanta críticas do governo Trump às vésperas de assinatura
Comentários focam em regras que impedem venda de produtos com selos europeus de indicações geográficas
Economia
Aporte de US$ 1,3 bilhão da JBS permitirá ao México cortar 35% das importações de frango
Ministro da Economia do México vê investimento da Pilgrim’s Pride como oportunidade de ampliar a produção avícola e gerar empregos
Economia
Setor de máquinas agrícolas fecha 2025 em baixa nos EUA
Instabilidade econômica e menor renda dos produtores pressionam o mercado, mas setor aposta em retomada em 2026
Economia
Acordo entre Canadá e China reduz taxas para canola e pescados
Pequim cortará impostos de 84% para 15% até março, beneficiando produtores de grãos do Canadá
Economia
Governo da Indonésia cancela implementação obrigatória do B50 para 2026
Testes automotivos e estudos sobre o B50 seguem em curso no país, mas a adoção efetiva dependerá da dinâmica de preços
Economia
Carne bovina brasileira bate recorde de exportações para o mundo árabe
Vendas do produto para o bloco somaram US$ 1,79 bilhão em 2025, quase 2% a mais em relação ao ano anterior
Economia
Exportadores de pescado precisarão de certificado para vender aos EUA
Nova regra obriga apresentação do documento COA em mais de 60 produtos e restringe pescados obtidos por emalhe
Economia
Vendas semanais de soja dos EUA superam previsões do mercado
Exportações da safra 2025/26 somam 2,06 milhões de toneladas, com forte demanda da China