Economia
Por que a Indonésia é ‘o novo mundo’ para a carne bovina do Brasil?
Quarto país mais populoso do mundo deve habilitar mais frigoríficos brasileiros após importações avançarem mais de 170% em um ano
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
26/01/2026 - 05:00

Diante das cotas tarifárias impostas pela China, o setor de carne bovina tem intensificado os trabalhos para diversificação e ampliação de mercados. Ao passo que se olha para países como Japão, Coreia do Sul e Turquia — mercados estratégicos, mas com barreiras sanitárias rígidas —, busca-se, paralelamente, uma maior presença na Indonésia.
O país do sudeste asiático, atualmente, é o quarto mais populoso do mundo, com cerca de 283 milhões de habitantes, segundo a Organização das Nações Unidas. Não por acaso o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, ressaltou que a “Indonésia pode ser o novo mundo para a carne bovina brasileira”. Isso, segundo ele, é em razão da melhora da renda da população e do crescimento da classe média urbana.
Hoje, o Brasil já conta com 38 unidades frigoríficas habilitadas a atender à demanda crescente do mercado indonésio. Mais de um terço dessas autorizações foram conquistadas há pouco mais de quatro meses. E há previsão de novas aprovações nos próximos dias. “Deve sair nos próximos dias a habilitação de 18 unidades frigoríficas do Brasil autorizadas a exportar para a Indonésia. Hoje, nós exportamos majoritariamente miúdos para lá. E nós competimos com carne de búfalo, que eles consomem bastante”, disse Perosa.
Segundo ele, o governo da Indonésia está se antecipando ao déficit global de oferta de carne bovina previsto para ocorrer este ano. Porém, no Brasil, as estimativas ainda mostram uma estabilidade de produção, ao redor de 40 milhões de cabeças abatidas este ano, de acordo com a Abiec.
Exportações de carne bovina do Brasil para a Indonésia
Essa aproximação entre os dois países já aparece nos números. Conforme dados do ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, os embarques de carne bovina do Brasil para a Indonésia avançaram, em média, 176% em comparação com o volume de 2024. Em valor, a alta foi de 145,5%.
Olhando desde 2020 — ano em que os embarques começaram a ganhar força — até o ano passado, as exportações brasileiras de carne bovina tiveram alta acumulada de 681,6% em volume e de 732,4% em valor.
Para Fernando Iglesias, economista e analista da Safras & Mercado, o potencial de crescimento da Indonésia é significativo, especialmente no contexto de redução da dependência do mercado chinês. “É um mercado que tem um grande potencial de importação este ano. Eu acredito que esse é um caminho muito bom para o Brasil à medida que nós precisamos diversificar os destinos de exportação de carne bovina”, disse ao Agro Estadão.
O especialista lembra que, hoje, a Indonésia conta com uma cota de importação de 188 mil toneladas de carne bovina, distribuída entre seus fornecedores. Nesse cenário, o Brasil figura entre os principais exportadores, com destaque para os embarques de gado em pé, o que reforça a importância estratégica para o setor de pecuária bovina, não pelo volume, mas pelo elevado potencial de crescimento no longo prazo.
Já do ponto de vista de preços, a carne brasileira destinada à Indonésia tem sido negociada com valores inferiores aos praticados pela China — principal destino da proteína vermelha.
Considerando a carne bovina congelada e desossada, o preço médio pago pelos chineses em 2025 foi de US$ 5,36 mil por tonelada. Enquanto isso, a Indonésia desembolsou, em média, US$ 4,26 mil por tonelada, segundo levantamento da Safras & Mercado.
Carne bovina fresca e congelada responde por 3,2% dos produtos exportados
Apesar do avanço significativo dos embarques de carne bovina brasileira para a Indonésia nos últimos cinco anos, a pauta comercial entre os dois países ainda é concentrada em outros produtos.
Dados do ComexStat, do MDIC, mostram que os principais produtos brasileiros comprados pela Indonésia em 2025 foram:
- farelo de soja e outros alimentos para animais (32,1%);
- açúcares e melaços (19,3%);
- óleos brutos de petróleo (18%);
- algodão bruto (7%);
- tabaco (6,2%).
A carne bovina fresca ou refrigerada aparece na sexta posição, respondendo por 3,2% das importações indonésias.
Com essas aquisições, a Indonésia alcançou a 16ª posição entre os principais mercados consumidores de produtos brasileiros no último ano, com 1,19% de participação no total exportado.
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