Economia
Fila de caminhões trava escoamento da safra pelo porto de Miritituba; veja o vídeo
Comitiva da Famato constata 25 quilômetros de fila em trecho da BR-163 antes do porto; caminhoneiros relatam falhas na organização do fluxo;
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com *
23/02/2026 - 17:46

Ao passo que a colheita de soja avança no Brasil, uma cena se repete: dezenas de caminhões carregando os grãos colhidos em Mato Grosso, principal estado produtor, avançam lentamente pela BR-163 até o porto de Miritituba (PA), esperando a liberação do descarregamento.
Em plena safra recorde, o corredor logístico do chamado Arco Norte volta a operar no limite. Somente no último ano, conforme dados do painel estatístico da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a movimentação na região cresceu 10,33% em comparação a 2024, alcançando 163,3 milhões de toneladas. O índice superou a média nacional, que foi de 6,1%.
Entre os produtos, a soja foi a grande protagonista desse movimento exportador. O grão representou quase 30% de tudo o que passou pelos portos do Arco Norte, somando 48,6 milhões de toneladas, com avanço de 19,24% no ano.
Neste momento, entretanto, esse movimento está comprometido. A situação foi constatada de perto por uma comitiva da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), que percorreu, nesta segunda-feira, 23, o trecho até Miritituba e constatou mais de 25 quilômetros de fila. A avaliação é de que, embora o Brasil tenha ampliado sua presença no comércio global de grãos, a infraestrutura segue aquém do ritmo de expansão da produção.
Para o presidente da Famato, Vilmondes Tomain, o cenário evidencia a necessidade de ampliar a capacidade portuária e melhorar a gestão do fluxo com apoio do poder público. “Não é possível enfrentar uma fila gigante como esta de caminhões aguardando para fazer triagem, para descarregar. Isso não tem lógica. Eu faço um apelo para os nossos representantes, para os governos de Mato Grosso e do Pará para que a gente una forças. Ministério da Agricultura e Ministério dos Transportes precisam vir aqui ver de perto essa demanda para trazer soluções”, disse, defendendo que o gargalo logístico não pode ser tratado como normalidade.

Relatos de quem transporta
Na fila, o caminhoneiro Luigi Brischiliari relatou a ausência de estrutura mínima, como banheiros e pontos de atendimento, além de impactos emocionais causados pela espera prolongada. “Aqui a gente está jogando, não tem banheiro, a gente passa dificuldade. São muitos pais de família e não merecemos esse descaso, abala muito o psicológico. Tem colega que fica tantas horas e acaba fazendo coisa errada na estrada”, afirmou.
Outro caminhoneiro, Rodrigo Caicara, apontou falhas na triagem e na organização do fluxo, o que, segundo ele, contribui para o acúmulo de caminhões ao longo da rota até o porto. “O que a gente tá vendo aqui é falta de organização. Tem empresa que não tá suportando receber os caminhões. Isso vai entupindo a fila e, por isso, estou aqui há vários dias”, relatou.
Comitiva da Famato constata 25 quilômetros de fila em trecho da BR-163 antes do porto; caminhoneiros relatam falhas na organização do fluxo;
Diante do cenário, a Famato defende uma agenda para reduzir filas e aumentar a previsibilidade do escoamento. Vilmondes diz que é preciso ampliar a capacidade portuária e de triagem, com expansão de pátios, melhorias operacionais e reforço de equipes em períodos de pico.
Mas, as ações vão além. Ainda segundo o presidente, é preciso viabilizar novos armazéns, o que dará planejamento de médio e longo prazo para aliviar o pico sazonal da safra. “A questão do armazenamento de Mato Grosso é essencial para equilibrar o escoamento. Tem que começar lá atrás: armazém, rodovias e porto. Isso é planejamento. Se o produtor colhe e consegue armazenar, esse fluxo aqui também melhora”, afirmou Vilmondes.
*com informações da Famato
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