Economia
Acordo Mercosul-UE divide o agro brasileiro entre apoio e críticas
Faesp e Tereza Cristina defendem cautela com salvaguardas europeias, enquanto exportadores de suco de laranja celebram ganhos tarifários

Após mais de duas décadas de negociações, os embaixadores dos 27 países da União Europeia (UE) oficializaram nesta sexta-feira, 09, o apoio ao acordo de livre comércio com o Mercosul, apesar da resistência da França, Polônia e Irlanda. O próximo passo, é a ida da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, à capital do Paraguai para a assinatura oficial, em ato solene previsto para o início da próxima semana.
No Brasil, o avanço do acordo foi recebido entre aplausos e críticas. Enquanto alguns setores do agronegócio comemoram a perspectiva de redução tarifária e ampliação do acesso ao mercado europeu, outros veem com cautela as salvaguardas e cotas previstas no texto, que, na avaliação de críticos, mantêm o livre comércio ainda distante.
Faesp vê avanço, mas cobra proteção ao produtor brasileiro
O presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, avaliou como positivo o avanço do acordo entre Mercosul-UE. Segundo ele, o atual cenário internacional influenciou nas negociações. “A questão do tarifaço imposto pelo governo norte-americano reforçou a importância de acordos bilaterais que permitam uma maior capilaridade do comércio internacional brasileiro”, afirmou.
Ao comentar as salvaguardas exigidas por países europeus, como Itália e França, Meirelles disse que as medidas “não estão erradas, pois pretendem proteger as cadeias produtivas locais”. Ele acrescentou que o Brasil também precisa adotar postura semelhante em defesa de seus produtores.
Segundo ele, faltam políticas internas para garantir competitividade ao setor. “No caso do leite em pó, há mais de um ano estamos denunciando a importação desenfreada, comprometendo a cadeia do leite, sem que nenhuma posição tenha sido tomada até então. O governo brasileiro precisa ser parceiro do setor produtivo. Hoje o pequeno produtor, principalmente, não tem seguro; o Plano Safra inexiste; as taxas de juros estão elevadíssimas. Agora enfrentaremos as regras da nova reforma tributária, já que o arcabouço fiscal não funcionou”, ressaltou.
Tereza Cristina: “Livre comércio ainda está distante”
A vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina (PP-MS), destacou que a aprovação do acordo entre os dois blocos é “um avanço importante”, mas também pontuou que “não foi o acordo dos sonhos, mas o possível”. A ex-ministra criticou as salvaguardas e reforçou que essa medida sinaliza uma ameaça ao agronegócio brasileiro.
“Abre portas e estabelece cotas, mas o livre comércio ainda está distante. Ainda mais com as novas salvaguardas impostas pela UE que significam ameaças injustas ao nosso agro. Mesmo assim, o acordo pode se ajustar e abrir perspectivas comerciais para o Brasil. E trazer alternativas para nossas exportações na atual conjuntura protecionista global”, comentou a senadora.
Acordo é positivo, mas foco do agro brasileiro está em outros continentes, diz SRB
Para Sérgio Bortolozzo, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), após 25 anos, o acordo “já está maduro e dever ser assinado”. Porém, ele não acredita em grandes impactos para o agronegócio brasileiro. “Eu acho que vai ser bom, mesmo que a gente não tenha um interesse comercial tão grande com relação à Europa, porque o foco principal do agro brasileiro hoje é a Ásia, Oceania, África e o Oriente Médio. O nosso foco comercial não é tanto a Europa”, destacou.
Bortolozzo também criticou o uso de salvaguardas por parte da UE, avaliando que elas servem como forma de “protecionismo do próprio agricultor europeu”. “Eles [europeus] têm consciência de que o Brasil é competitivo. Hoje, o Brasil só compete com eles na área de comodidades agrícolas, nós não competimos em produtos agrícolas de valor agregado”, disse. Segundo ele observou ainda, mesmo com cotas limitadas para produtos agropecuários do Mercosul, esse ponto não deve representar um obstáculo à sua assinatura.
CitrusBR vê economia de US$ 320 milhões para suco de laranja
O setor brasileiros de suco de laranja comemora a aprovação do acordo Mercosul-UE. Segundo o diretor-executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), Ibiapaba Netto, o tratado pode gerar uma economia estimada em cerca de US$ 320 milhões nos próximos cinco anos.
“O maior impacto está no suco não concentrado, chamado de NFC, que terá suas tarifas zeradas em quatro anos. E hoje em dia, o NFC é um produto bastante importante na pauta de exportação brasileira para a União Europeia”, disse. No caso do suco concentrado congelado, o executivo explicou que a redução tarifária será gradual. “Ele vai ter 50% de desgravação em até cinco anos, ano após ano. Depois, em mais cinco anos, ele chega a zero”, disse. Já o suco concentrado não congelado (COJ) terá eliminação total das tarifas em oito anos.
Para Netto, o acordo contribui para um ambiente de negócios mais equilibrado e não representa risco à produção europeia. “Eles têm uma estrutura de custo bastante diferente da estrutura de custo brasileira, que precisa atravessar um oceano, além das dificuldades fitossanitárias que existem no Brasil e não existem na Europa”, salientou, ressaltando sua expectativa para oficialização e entrada em vigor do acordo o mais rápido possível.

Novas oportunidades para cadeia de aves, suínos e ovos
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) comemorou o aceite do bloco europeu e a concretização do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, destacando o avanço para a previsibilidade comercial do setor. Para a entidade, o tratado é resultado de “um processo de negociação longo e de elevada complexidade técnica” e traz impactos “graduais e bem delimitados” para as proteínas animais.
No caso da carne de frango, a ABPA ressaltou que o acordo “não interfere, não altera e não substitui o sistema de cotas já em vigor” entre Brasil e UE. O principal ganho, segundo a associação, é a criação de “um novo contingente tarifário adicional de 180 mil toneladas anuais isentas de tarifa”, a ser compartilhado entre os países do Mercosul e implantado de forma gradual ao longo de seis anos.
Para a carne suína, o acordo cria, “pela primeira vez, um contingente tarifário preferencial específico para o Mercosul”, com cota final de 25 mil toneladas anuais e tarifa intracota de € 83 por tonelada, embora a utilização ainda dependa da conclusão dos trâmites sanitários junto à UE.
A ABPA também apontou oportunidades para o segmento de ovos, com cotas de 3 mil toneladas anuais para ovos processados e 3 mil toneladas para albuminas, ambas isentas de tarifa. A ABPA ponderou, porém, que os contingentes “não são exclusivos do Brasil” e exigirão coordenação intrabloco. “O acordo reforça o posicionamento do Brasil como fornecedor confiável de proteínas animais, em complementariedade à produção local”, afirmou a associação, destacando que o aproveitamento dos termos dependerá de uma implementação “técnica, previsível e transparente”.
Abramilho vê retrocesso devido à cota
A Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho) criticou a forma como o acordo ficou. No entendimento do presidente da entidade, Paulo Bertolini, houve um retrocesso, já que o tratado prevê uma cota de até 1 milhão de toneladas de milho e sorgo com alíquota isenta. Isso representa menos da metade do que somente o Brasil exportou do cereal para os europeus em 2025.
“Não é um benefício o acordo. O Brasil já exporta em torno de 3 milhões a 4 milhões de toneladas todos os anos para a União Europeia, predominantemente para a Espanha. A Argentina também exporta em torno de 400 mil a 500 mil toneladas. E o Mercosul inteiro teria uma cota de 1 milhão de toneladas na proposta que foi feita. Então, para o setor do milho, a gente acha que não faz sentido”, disse Bertolini ao Agro Estadão.
De acordo com o dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025 foram cerca de 3,09 milhões de toneladas de milho exportadas aos europeus. O montante representou cerca de US$ 589,1 milhões.
Na análise do presidente da Abramilho, a imposição de uma cota para o milho não se justifica já que “a União Europeia é deficitária na produção de milho”. Quanto ao sorgo, ele explica que não tem impacto, já que as exportações para lá não são significativas – não chegam a uma tonelada conforme os dados oficiais.
Bertolini ainda destaca que há uma dificuldade extra na comercialização do milho com os europeus. Nem toda variedade obtida através de melhoramento ou modificação genética é permitida. Ele aponta que essa é uma barreira comercial mascarada de medida fitossanitária.
“A cota é um detalhe. Existem outras barreiras que estão aí embutidas, chamadas de fitossanitárias. É uma barreira que você não tem controle, porque ela é ideológica, tem processo demorado para ser ultrapassada e não muito transparente, e isso é muito ruim para o mercado internacional”, comentou o presidente sobre as liberações envolvendo variedades de milhos obtidas por meio de biotecnologia.
Farsul destaca protecionismo europeu em acordo
Na avaliação da Federação da Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Sul (Farsul), o avanço do acordo vem acompanhado de um elevado grau de protecionismo ao mercado agrícola europeu. Em nota técnica, a federação aponta que a Comissão Europeia estruturou salvaguardas que permitem limitar importações de produtos sensíveis — como carnes, aves, arroz, mel, ovos e etanol — e abrir investigações caso haja aumento súbito de volumes ou preços do Mercosul ao menos 8% inferiores aos praticados na UE.
A entidade também critica restrições ambientais e sanitárias consideradas unilaterais, como a proibição de defensivos agrícolas, “como o tiofanato-metilo, que afeta diretamente as exportações de citrinos, mangas e papaias”. Além disso, há ainda a aplicação da Lei Antidesmatamento europeia, que pode afetar cadeias como carne bovina, soja, café, couro e madeira, sem considerar a rigidez do código ambiental brasileiro. Para a Farsul, essas medidas reduzem a previsibilidade para o produtor rural.
Apesar das ressalvas, a federação reconhece os ganhos do acordo, que prevê a eliminação de tarifas para mais de 93% das linhas tarifárias da UE em até dez anos e cria cotas com tarifas reduzidas para produtos agropecuários.
Embora o sinal verde político tenha sido dado, a Farsul recorda que o acordo ainda não produz efeitos jurídicos imediatos. “O texto precisa de aprovação do Parlamento Europeu – onde há resistência de um bloco significativo de cerca de 150 eurodeputados – e dos parlamentos nacionais dos países do Mercosul”, lembra. Até lá, a federação afirma que permanecerá monitorando o que define como um cenário de baixa previsibilidade para o produtor rural.
Para Abag, acordo abre novas agendas para combustíveis sustentáveis
A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) avalia que a aprovação do acordo Mercosul–União Europeia tem importância estratégica para ambos os blocos. No Mercosul, deve impulsionar o crescimento econômico por meio da facilitação de investimentos e da redução ou eliminação de tarifas sobre produtos sul-americanos. Além disso, deve consolidar o bloco como potência energética, alimentar e ambiental, ampliando sua capacidade de promover o desenvolvimento sustentável.
De acordo com a associação, o acordo também abre novas agendas, como os combustíveis sustentáveis para aviação e transporte marítimo, além da cooperação em mobilidade híbrida. “Nesse contexto, cria rotas estratégicas de integração com a Europa, que já mantém acordos com o Chile, ampliando oportunidades em tecnologias, logística e na integração bioceânica”, destaca o comunicado.
Segundo o presidente da Abag, Ingo Plöger, o acordo estabelece ainda um arcabouço jurídico favorável ao avanço de novas agendas de cooperação entre blocos democráticos comprometidos com a livre iniciativa. “Abrem-se oportunidades nas áreas de novos combustíveis e tecnologias de processos industriais, com mais cooperação do que competição, integração de inovações em serviços digitais e fortalecimento dos instrumentos da democracia. Mais mercado, melhor cooperação e maior participação do setor privado no desenvolvimento sustentável”, destaca o executivo.
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