Economia
Em investigação, China aponta 'dano grave' à indústria de carne bovina e notifica OMC e exportadores
China não incluiu Brasil na lista de países isentos à potencial aplicação de salvaguardas; setor brasileiro aguarda atualização do processo
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
30/12/2025 - 05:00

A China concluiu que o aumento das importações de carne bovina pelo país causou “dano grave” à sua indústria doméstica e notificou formalmente a Organização Mundial do Comércio (OMC). A conclusão consta no documento enviado ao Comitê de Salvaguardas da OMC em 19 de dezembro de 2025 e ao qual o Agro Estadão teve acesso.
De acordo com o relatório chinês, no período, “os principais indicadores de produção e operação da indústria doméstica sofreram uma deterioração geral”, incluindo participação de mercado, estoques, preços de venda, receita, lucro, produtividade, emprego e utilização da capacidade produtiva. O relatório explica que a investigação analisou as importações de carne bovina entre 2019 e o primeiro semestre de 2024, e que esse conjunto de fatores resultou em “um prejuízo significativo e global à indústria doméstica”.
Apesar da constatação, o governo chinês ainda não informou se irá aplicar alguma medida de salvaguarda, como tarifas adicionais ou cotas de importação. Também não sinalizou uma data de início ou a duração de uma eventual restrição. Segundo o governo chinês, caso seja decidido avançar com a aplicação da medida, conforme previsto no Acordo de Salvaguardas, a OMC será notificada.
Notificação a países exportadores
Pequim também abriu prazo para manifestações e consultas prévia para países com “interesse substancial como exportadores”.
A China informou que encaminhou cópias do documento às missões de Brasil, Argentina, Uruguai, Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos junto à OMC. Segundo a notificação, as informações foram divulgadas às partes interessadas também em 19 de dezembro de 2025, com prazo para envio de comentários até 26 de dezembro.
O Agro Estadão procurou o Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil (Mapa), mas não recebeu retorno até a publicação deste conteúdo.
À reportagem, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne Bovina (Abiec) disse que não recebeu nenhuma nova informação sobre a investigação de salvaguarda, sendo a notícia da prorrogação do processo até janeiro de 2026 a última da qual a entidade foi informada.
Brasil não está entre os países isentos de potencial medida
O documento também traz a lista de países em desenvolvimento que poderão ser isentos de uma eventual salvaguarda chinesa. Esses países representam, juntos, cerca de 6% das importações chinesas de carne bovina.
Entre os países listados como isentos, aparecem, por exemplo, Bolívia, Chile, Costa Rica e outros 128, com participações inferiores a 1% no mercado de carne bovina importada pela China.
O Brasil, porém, não consta nesta lista de potencial isenção das medidas. Em 2024, a China absorveu 51,3% da carne bovina exportada pelo setor brasileiro, considerando a fresca, a refrigerada ou a congelada. Somente este ano, no período de janeiro a novembro, essa representação subiu para 53,9%.
Importações cresceram de forma “súbita e significativa”
A autoridade investigadora chinesa destaca que as importações de carne bovina apresentaram um aumento considerado “recente, súbito, acentuado e significativo” ao longo do período analisado.
Em termos absolutos, as compras externas passaram de 165,9 mil toneladas em 2019 para 273,7 mil toneladas em 2023, com sucessivas altas nos anos de intervalo. Além disso, as importações chegaram a 143,9 mil toneladas apenas no primeiro semestre de 2024, representando uma alta de 17% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Como resultado, a participação das importações no consumo doméstico chinês subiu de 20,5% em 2019 para 30,9% no primeiro semestre de 2024, enquanto a fatia da indústria doméstica recuou no mesmo intervalo.
O documento também aponta aumento expressivo dos estoques internos e queda nos preços e na rentabilidade dos produtores locais. “No período investigado, afetados pelo aumento das importações, os indicadores de mercado, estoques, preços, receitas e lucros da indústria doméstica apresentaram deterioração generalizada”, afirma o texto enviado à OMC.
EUA se mobilizam e já solicitaram consultas
Concorrente do Brasil no fornecimento de carne bovina ao mercado chinês, os Estados Unidos já solicitaram consultas com as autoridades da China.
No documento ao qual o Agro Estadão também teve acesso, o governo norte-americano se destaca como “membro da OMC com interesse substancial na exportação do produto em questão”.
Segundo a solicitação, o objetivo das consultas é trocar pontos de vista e buscar esclarecimentos a respeito da medida, bem como alcançar um entendimento sobre formas de atender aos objetivos estabelecidos no Acordo de Salvaguardas. “Os Estados Unidos observam que a determinação do MOFCOM [Ministério de Comércio chinês] não propõe qualquer medida específica de salvaguarda, apesar da conclusão de dano grave”, aponta o documento.
Dessa forma, os Estados Unidos propõem que as consultas abordem tanto a determinação de dano grave feita pelo MOFCOM quanto qualquer medida de salvaguarda potencial que a China esteja considerando impor. Os norte-americanos ainda aguardam resposta sobre o agendamento de data e horário para a realização dessas consultas.
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