Economia
Cotas da China alertam para possível corrida nos embarques de carne bovina
Mercado segue estável, enquanto exportadores aguardam definição sobre a distribuição dos volumes; sobretaxa pode elevar valor do quilo
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
08/01/2026 - 15:51

Uma semana após as cotas tarifárias da China sobre as compras de carne bovina do exterior entrarem em vigor, o mercado brasileiro ainda não sentiu impactos diretos nos preços. No entanto, entrou no radar dos especialistas uma possível corrida dos exportadores e compradores para tentar antecipar embarques e escapar da tarifa adicional.
Ao Brasil, as medidas chinesas estabelecem cotas de 1,106 milhão de toneladas anuais, com aplicação de uma tarifa extra de 55% sobre os volumes que ultrapassarem o limite definido. Atualmente, para entrar na China, a carne bovina brasileira já enfrenta uma tarifa de 12%, ou seja, caso ultrapasse a cota, essa taxa subirá para 67%.
Apesar das dúvidas que ainda precisam ser esclarecidas, o comportamento do mercado pecuário nesta primeira semana convivendo com as salvaguardas foi de estabilidade. “Os preços têm se comportado como se essa notícia não tivesse sido divulgada. A cotação está flutuando independentemente da notícia das cotas e da taxação, tanto da China como do México”, destacou o CEO da Scot Consultoria, Alcides Torres, ao Agro Estadão.
De acordo com ele, os negócios continuam acontecendo normalmente, sem interrupções relevantes. “Está tudo dentro da normalidade. Em janeiro, inclusive, o consumo costuma ser melhor por causa das férias escolares”, ressaltou.
A avaliação de Torres é que o efeito das cotas ainda não se materializou porque o mercado aguarda uma maior clareza sobre a forma de distribuição dos volumes dentro da cota. “Se não houver uma disciplina dessa distribuição, a gente pode ter uma corrida dos exportadores e compradores para aproveitar a entrega dentro da cota”, explicou. “As duas pontas querem escapar da carne extra-cota”, acrescentou.
Hoje, considerando o padrão de exportações do ano passado, a cota destinada ao Brasil seria preenchida entre os meses de setembro e outubro. Mas, segundo o analista, uma aceleração dos embarques poderia antecipar esse limite. “Se houver corrida, essas 1,1 milhão de toneladas podem terminar antes de setembro, com certeza”, disse.
Torres compara o possível movimento ao que ocorre com a cota norte-americana para a carne bovina do Brasil. “Em janeiro, praticamente se liquida a cota com imposto menor, e depois passa-se a operar com imposto maior. O mercado já conhece esse comportamento”, salientou.
Dependência da China aumenta pressão
As exportações brasileiras de carne bovina bateram recorde em 2025, com a China mantendo-se como o principal destino. Esse desempenho, embora positivo, aumenta a dependência do setor em relação ao mercado chinês, justamente no momento em que Pequim adota medidas de proteção comercial.
Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as salvaguardas impostas pela China reforçam a necessidade de o setor pecuário diversificar mercados externos e ampliar alternativas de escoamento, inclusive no mercado interno.
Conforme o Cepea, os números ajudam a explicar a sensibilidade do tema. Em 2025, o preço médio da carne bovina brasileira exportada ficou em US$ 5,15 por quilo — alta de 15,42% em relação a 2024, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pelos pesquisadores.
Para a China, o valor médio pago foi ainda maior: US$ 5,29 por quilo, representando um avanço de 17,24% na comparação anual — o segundo melhor resultado da série, atrás apenas de 2022.
Porém, se o Brasil atingir o limite da cota chinesa ao longo de 2026 e continuar exportando, a sobretaxa de 55% elevaria o valor médio da carne para cerca de US$ 8,20 por quilo, tomando como base os preços de 2025. “Patamar nunca antes pago pelos chineses e nem mesmo por países europeus”, destacam os pesquisadores, ressaltando as dúvidas sobre a viabilidade econômica dos embarques fora da cota.
Por ora, o mercado segue cauteloso. “Está todo mundo esperando para ver o que pode acontecer”, resume Alcides Torres.
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