PUBLICIDADE

Sustentabilidade

Governo reconhece falhas no Plano Clima e pode mudar texto

Consulta pública do Plano Clima de mitigação recebeu cerca de 2 mil sugestões de mudanças; agro contesta peso desproporcional ao setor

Nome Colunistas

Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com

28/08/2025 - 05:00

Foto: Adobe Stock
Foto: Adobe Stock

Secretários de diferentes pastas do governo federal reconheceram que a proposta colocada em consulta pública para o Plano Clima tem alguns problemas. Os representantes do Executivo também admitiram que podem rever alguns pontos a partir dos apontamentos feitos na consulta pública. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) havia criticado o plano setorial para a agricultura e pecuária, classificando como uma “autossabotagem”

O Plano Clima faz parte da Política Nacional sobre Mudança do Clima, de 2009. Basicamente, é um plano de ação para cumprir com as obrigações firmadas no Acordo de Paris. Essa nova versão do Plano Clima traz as metas brasileiras com o horizonte de 2024 até 2035. Além disso, é dividido em duas partes: Plano Clima de mitigação e o Plano Clima de adaptação. Cada eixo tem planos setoriais com objetivos para cada parte da economia. A discussão atual é sobre o Plano Clima de mitigação da agricultura e pecuária. 

CONTEÚDO PATROCINADO

Um dos questionamentos do setor é com relação às emissões de gases do efeito estufa (GEE) atribuídas à agropecuária brasileira. O Plano Clima contabiliza as emissões da atividade em si, como a aplicação de adubos e a criação de gado, mas também inclui o desmatamento na conta do setor, tanto legal e como o ilegal. Com base nos dados de 2022 do Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa, a estimativa apontada no plano é de que 70% das emissões de Uso da Terra, Mudança do Uso da Terra e Florestas (LULUCF, sigla em inglês) sejam relacionadas ao setor. 

Em audiência pública nesta quarta-feira, 27, a explicação dada pelo secretário adjunto III de Articulação e Monitoramento da Casa Civil, Adriano Shantiago, é de que a junção (agropecuária e desmatamento) facilitaria o acompanhamento das ações. “A proposta do governo é tratar da responsabilidade de emissões setoriais de uma perspectiva diferente para o monitoramento de políticas públicas. Não tem nada juridicamente vinculante em um nível nacional”, disse. Mesmo assim, ele ainda reconheceu que pode haver riscos para a imagem do setor. 

No entanto, o chefe de Relações Internacionais da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Marcelo Morandi, disse que isso implica em um peso desproporcional ao setor, refletindo em obrigações que não são de responsabilidade da parte agropecuária. “A gente atribuiu para o setor agropecuário o controle de algo que não está na gestão do setor agropecuário fazê-lo enquanto política pública. Quem tem a gestão sobre autorização ou não de desmatamento legal ou fiscalização e controle de desmatamento ilegal, não são os ministérios ligados ao setor agropecuário”, afirmou. 

PUBLICIDADE

Cálculos imprecisos de remoção

Um dos destaques feitos por quase todos os participantes foi a necessidade de melhorar a forma de calcular o impacto positivo que o setor tem com a captura de carbono. O Plano Clima leva em consideração essa remoção, mas os valores são avaliados como baixos por ainda não ter um cálculo mais preciso sobre isso. Enquanto aspectos da atividade agropecuária emitem cerca de 643 milhões de toneladas de CO² equivalente, o plano contabiliza apenas 63 milhões de toneladas de CO² equivalente em atividades de recuperação de pastagem e reflorestamento, por exemplo. 

“Essa é uma questão que a gente tem ciência e concorda de que o nosso inventário [nacional de emissões], essa medição de emissões, não dá conta da realidade da dinâmica do setor agropecuário. Deixa de reconhecer, ou faz de forma limitada, esses esforços de sistemas integrados, recuperação de pastagens e mesmo de remoção pela vegetação nativa na área privada. Tem um melhoramento a ser feito”, indicou o secretário Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, Aloisio Melo. 

Segundo o governo, já está em andamento uma revisão na metodologia de cálculo do inventário. Dentro do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), foi criado no ano passado o Grupo Técnico de Inventário. A intenção é aprimorar a metodologia do inventário, já que os números de lá refletem nas metas do Plano Clima. Porém, o governo não apresentou uma data de quando essas revisão deve ser concluída. 

Pacote de medidas para manter floresta em pé

Outro ponto de atenção colocado pelo setor é que o plano setorial coloca como objetivo o fim do desmatamento legal. A proposta de texto do Executivo também traz que é importante haver mecanismos capazes de remunerar os produtores rurais a manterem intactas áreas que poderiam ser desmatadas legalmente. Porém, o questionamento da bancada ruralista é sobre a efetividade desses instrumentos, que ainda estão engatinhando no país. 

“Eu tenho escutado muito que nós não vamos mais desmatar a partir de 2030. Tá bom, mas o que nós vamos oferecer para o produtor rural que pode desmatar legalmente?”, indagou a senadora e vice-presidente da FPA, Tereza Cristina (PP-MS). 

PUBLICIDADE

O representante do Ministério do Meio Ambiente disse que a pasta tem trabalhado em um pacote de medidas remuneratórias. “[Estamos vendo] Como a gente cria uma estratégia que efetivamente entregue na forma de incentivo o reconhecimento do valor das florestas, seja na agenda climática, como manutenção e remoção de estoques de carbono, seja para os outros benefícios”, destacou Melo.

Ele ainda apresentou os incentivos econômicos e financeiros que a pasta vem buscando formalizar dentro do Plano Clima:

  • Cota de Reserva Ambiental (CRA);
  • Regulamentação do mercado de carbono regulado e voluntário;
  • Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que o Brasil espera levar aos países na COP 30;
  • Recursos para recuperação de áreas degradadas por meio do Ecoinvest
  • Redução de juros no crédito rural para quem tem excedente de vegetação nativa (ainda em análise).

Siga o Agro Estadão no WhatsApp, Instagram, Facebook, X, Telegram ou assine nossa Newsletter

PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas

Curso do Refloresta-SP capacita para restaurar áreas degradadas

Sustentabilidade

Curso do Refloresta-SP capacita para restaurar áreas degradadas

Programa paulista oferece capacitação gratuita para instituições que atuam na recuperação de áreas degradadas e no manejo sustentável do solo

Negócios com insumos amazônicos ganham apoio para vendas digitais

Sustentabilidade

Negócios com insumos amazônicos ganham apoio para vendas digitais

Programa Amazônia em Casa abre inscrições até 29 de março para capacitação nacional gratuita

O adubo caseiro que transforma solos pobres 

Sustentabilidade

O adubo caseiro que transforma solos pobres 

O bokashi é um adubo fermentado sem ar e esse detalhe mantém microrganismos vivos que “acordam” a vida do solo após a aplicação

Produção de leite no Brasil emite menos carbono que média global, aponta estudo

Sustentabilidade

Produção de leite no Brasil emite menos carbono que média global, aponta estudo

Estudo conduzido em sete estados mostra que maior produtividade reduz em até 43% as emissões por litro produzido

PUBLICIDADE

Sustentabilidade

Corantes que vêm do campo e da floresta

Substâncias extraídas de plantas tingem tecidos com tons vibrantes e inspiram práticas sustentáveis

Sustentabilidade

Quando os insetos 'do bem' salvam a lavoura

Ferramenta gratuita da Embrapa ajuda produtor a reconhecer insetos benéficos e evitar pulverizações desnecessárias

Sustentabilidade

Como o manejo de dejetos transforma resíduos da pecuária em recursos

Planejamento e técnicas simples ajudam produtores a reduzir impacto ambiental e economizar com adubo e energia

Sustentabilidade

Projeto apoia produtores na regularização ambiental em SP; saiba como participar

Iniciativa da Ypê prevê investimento de R$ 4,4 milhões e recuperação de 80 hectares até 2026

Logo Agro Estadão
Bom Dia Agro
X
Carregando...

Seu e-mail foi cadastrado!

Agora complete as informações para personalizar sua newsletter e recebê-la também em seu Whatsapp

Sua função
Tipo de cultura

Bem-vindo (a) ao Bom dia, Agro!

Tudo certo. Estamos preparados para oferecer uma experiência ainda mais personalizada e relevante para você.

Mantenha-se conectado!

Fique atento ao seu e-mail e Whatsapp para atualizações. Estamos ansiosos para ser parte do seu dia a dia no campo!

Enviamos um e-mail de boas-vindas para você! Se não o encontrar na sua caixa de entrada, por favor, verifique a pasta de Spam (lixo eletrônico) e marque a mensagem como ‘Não é spam” para garantir que você receberá os próximos e-mails corretamente.