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Economia

“Hoje é um gargalo produzir leite”, diz produtor mineiro

Preços baixos, custos altos de produção e aumento das importações têm pressionado para baixo o valor do leite no país

3 minutos de leitura

20/02/2024 | 15:05

Por: Daumildo Júnior | daumildo.junior@estadao.com

Leite
Foto: Adobe Stock

A situação dos pequenos produtores de leite tem se agravado com a queda dos preços do produto. O Agro Estadão entrou em contato novamente com o pecuarista Alexsandro Luiz Oliveira, de Bocaiuva (MG), que além de sofrer com a estiagem no final do ano passado, conforme já mostramos em reportagem publicada no dia 07 de fevereiro, também viu o valor do leite cair.

“Hoje é um gargalo produzir leite. Tudo está difícil. O gado também deu uma esfriada. Quando começar a tratar, nós praticamente teremos que tratar o gado com ração, então vai ficar mais difícil. Hoje qualquer quilo da ração está acima de R$ 2,25, R$ 2,50”, contou.

De acordo com o presidente da Abraleite (Associacao Brasileira dos Produtores de Leite), Geraldo Borges, os mais penalizados pela situação são os produtores com pouca tecnificação e assistência, pois os custos de produção não acompanharam a queda no leite, que vem ocorrendo desde maio de 2023. 

“A gente tem que lembrar também que o custo de produção aumentou, como um dos efeitos da pandemia. Na época que aumentou o preço aos produtores, aumentou também o custo de produção. Quando caiu o preço do leite, o custo de produção não acompanhou”, disse Borges.

Na propriedade de Alexsandro, na época do tratamento – período em que produtores de gado dão uma complementação a pastagem, pois o capim está seco e insuficiente –, por exemplo, ele costuma oferecer ao gado entre 20 e 30 quilos de ração por dia, um custo que pode chegar a R$ 75 só com ração. Nesse período, ele tira entre 100 e 130 litros de leite diariamente. O produtor contou que no último pagamento o valor do litro ficou em R$ 1,60. 

O presidente da entidade representativa da cadeia leiteira lembrou que em 2022 o preço pago chegou a R$ 3,50. “No final do ano [de 2023], o produtor recebeu em média na casa de R$ 1,80 a R$ 2,00, dependendo da região, do volume e da qualidade da produção”, apontou.

Migração de rebanho

Ainda segundo Borges, o Brasil pode estar vivendo uma migração de rebanho, que seria a passagem das vacas leiteiras de produtores menos estruturados para os que têm mais condições. “Estamos tendo informações de que a produção do ano passado parece que ficou estável em relação ao ano de 2022. Se isso tiver acontecido, significa que não houve diminuição na produção, e sim, uma migração da produção”, completou.

Em números aproximados, a produção brasileira de leite em 2022 foi na casa de R$ 34 bilhões de litros. Os números de 2023 ainda não foram divulgados, mas estariam nessa ordem. 

Ele também lembrou do papel social que o leite tem, já que dos mais de 1 milhão de produtores, cerca de 90% são agricultores familiares. “O leite brasileiro é um leite social. A gente se preocupa com o desemprego em massa, não só dessas famílias de pequenos produtores, como também, das famílias que trabalham com esses pequenos produtores”. 

Pedido de auxílio e importação de leite

O apoio aos pequenos produtores está sendo pedido desde junho do ano passado, afirmou Borges. Segundo ele, além da Abraleite, outras entidades como a OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e Frente Parlamentar em Apoio ao Produtor de leite também estão requerendo essa ajuda ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

Sobre as importações de leite, o presidente da Abraleite disse não ter oposição, mas sim, ser contra o que ele classificou como importações “danosas”. Ele explicou que essas importações seriam em “fluxos contínuos, com volumes altíssimos e preços muito abaixo do que é praticado no país”. 

“A gente precisa de ter incentivos para melhorar a produtividade, baratear o custo de produção, para o nosso leite ser mais competitivo frente a leites de países vizinhos, como Uruguai e Argentina”, concluiu.

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