Agropolítica
Saiba o que está em jogo na abertura do Vietnã para carne bovina brasileira
Contrapartida inclui importação de tilápia vietnamita, gerando preocupações na piscicultura nacional

Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com | Atualizada às 18h40
11/04/2025 - 15:51

A recente viagem do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao Vietnã trouxe como resultado a abertura de mercado para exportações de carne bovina brasileira para o país asiático. Mas o acordo entre os países também contou com uma contrapartida por parte do Brasil: a abertura do mercado nacional para a importação de tilápia produzida no Vietnã.
“O presidente vietnamita [Luong Cuong] falou que abriria o mercado de carne bovina se fosse permitida a exportação de tilápia para o Brasil. E o presidente Lula assumiu esse compromisso”, disse ao Agro Estadão o presidente executivo da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros. Nessa quinta-feira, 10, houve uma reunião da Câmara Setorial da Produção e Indústria de Pescados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). De acordo Medeiros, a Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Mapa confirmou a abertura do mercado para a tilápia vietnamita.
O entendimento da associação representativa é de que a importação de tilápia pode “destruir” a cadeia nacional que cresceu 14,36% no último ano. Segundo dados do Anuário Brasileiro da Piscicultura Peixe BR 2025, o Brasil produziu 662,23 mil toneladas de tilápia. O peixe representa 68,36% da produção nacional de peixes de cultivo. No mundo, o Brasil aparece na quarta posição entre os maiores produtores, atrás apenas da China (2,15 milhões de toneladas), Indonésia (1,5 milhões de toneladas) e Egito (1,25 milhões de toneladas).
“A gente tem um setor estruturado, é o quarto maior produtor do mundo. O produto chega aqui abaixo do custo de produção, então vai dar um impacto negativo muito grande no setor. E a gente tem um histórico de que onde o filé de tilápia chinês chegou, a produção local acabou. Eles fazem procedimentos que a Anvisa proíbe no Brasil, principalmente com relação à incorporação de água, e isso barateia o produto”, argumentou Medeiros.
O presidente da Peixe BR disse que pretende seguir em diálogo com o Executivo. A expectativa é de que o governo brasileiro retroceda. “A gente acha que foi uma atitude sem pensar do governo federal. Destruir uma cadeia para dar sobrevida a outra, não faz sentido”, pontuou.
A situação também preocupa a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca). No curto prazo, o diretor-executivo da associação, Jairo Gund, explica que o tarifaço de Donald Trump sobretaxou as exportações de tilápia do Vietnã para os norte-americanos. “Então, vai ter uma pressão no mercado vietnamita para fazer o escoamento dos seus produtos, com uma queda de preços”, alerta.
No médio e longo prazo, a questão está na matriz de produção do país asiático. Segundo Gund, o Vietnã tem um grande potencial instalado de aquicultura. “A matriz de produção deles [Vietnã] não é voltada para a tilápia, é voltada para o panga. Mas, se eles entenderem que é mais vantagem produzir tilápia do que panga, é questão de um ciclo de produção para eles virarem a matriz. Talvez o reflexo não seja imediato em termos de grandes volumes exportados, mas em dois ou três anos a gente pode ter um problema sério”, afirmou.
“Já foi definido pelo presidente Lula”
Uma fonte do governo envolvida com o tema ouvida pela reportagem disse que a questão já está resolvida internamente e que o mercado será aberto. “Foi definido pelo presidente Lula nas negociações com o Vietnã. Não há motivações técnicas para impedir, e por isso, o presidente tomou a decisão, e isso [importação de tilápia] vai acontecer”, destacou.
Quanto às alegações de possíveis adulterações no produto vietnamita, o Executivo entende que é um argumento “protecionista”, já que “não foi encontrada nenhuma questão técnica”. Sobre um possível impacto na cadeia brasileira, a visão é de que isso é o “princípio da precaução excessiva”, já que não há uma certeza de que haverá o fluxo de comércio.
“Não dá pra gente só querer exportar e não importar nada. A gente vai ver o que vai acontecer [após a liberação da importação], mas não dá para sofrer antecipadamente”, comentou.
Histórico de importação de tilápia
Atualmente, nenhum país exporta tilápia para o Brasil — exceto as Filipinas, que embarcaram peixes para reprodução em dezembro do ano passado, cerca de 448 quilos. Porém, em 2023, o Vietnã exportou 25 mil toneladas de filés congelados, a um valor de US$ 118,1 mil, segundo dados do ComexStat. Na época, a medida foi muito contestada e o governo brasileiro suspendeu as compras. A alegação era o receio da entrada do vírus TiLV, além do uso de polifosfato para adulterar o peso do produto.
O resultado foi a abertura de um processo para averiguação dos riscos de contaminação do vírus ao importar o produto. A minuta com a “Análise de Risco de Importação de produtos derivados de tilápias destinados ao consumo humano” foi aberta para consulta pública em dezembro do ano passado. Em fevereiro recebeu nova prorrogação e o prazo venceu na última quinta-feira, 10. A doença provocada pelo vírus da TiLV pode trazer prejuízos à criação comercial, com taxa de mortalidade acima de 80%. É uma doença de animais aquáticos com notificação obrigatória ao Serviço Veterinário Oficial. Apesar do risco para os peixes, ela não é uma zoonose.
De acordo com o documento do Mapa, “o risco para a importação de filés de tilápia é insignificante” e por isso “não haveria necessidade da adoção de medidas de gerenciamento de risco”. Para a importação de animais inteiros — com cabeça e vísceras, o risco foi considerado “muito baixo, ou seja, o evento pode ocorrer, mas não é esperado”.

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