Agropolítica
Geopolítica mundial preocupa o setor de fertilizantes
Líder da Mosaic diz que país deve ser afetado em retaliação indireta à Rússia e pede saída consensual com os EUA
Daumildo Júnior* | Palmeirante (TO) | daumildo.junior@estadao.com
17/07/2025 - 15:37

Saída consensual e planejamento. Para o country manager da Mosaic no Brasil, Eduardo Monteiro, o atual cenário mundial tem preocupado diferentes setores e empresas, mesmo não diretamente envolvidas. Ele pondera que o momento exige essas duas atitudes, sendo a primeira tomada pelo governo federal e a segunda uma recomendação ao produtor rural.
“Você tem uma questão geopolítica importante no mundo. Você tem, infelizmente, guerras acontecendo, guerra de Rússia e Ucrânia, guerra de Israel e Irã. E, dentro desse contexto, uma dependência importante”, comenta, ao olhar para a questão dos fertilizantes.
Os últimos dias têm envolvido o Brasil nas disputas geopolíticas atuais. Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos anunciou uma tarifa de 50% sobre todos os produtos importados do Brasil. E sugeriu que o Brasil poderia ser novamente taxado caso mantivesse relações comerciais com a Rússia e os russos não caminhassem para um acordo de finalização da guerra com a Ucrânia. Na última terça-feira, 15, foi a vez do chefe da Otan se alinhar ao discurso de Trump e ressaltar que o Brasil pode ter tarifas de 100%, o que traria consequências sérias para o agro brasileiro.
Apesar de ainda estar no campo da ameaça ou alerta, essa questão com a Rússia já preocupa o setor, na avaliação do executivo da Mosaic. Ele pontua que a empresa em si não depende das importações russas.
“No Brasil, 60% do fósforo que se produz vem da Mosaic. A gente tem a única mina de cloreto e os produtos que a gente traz são das nossas minas no Canadá, são das nossas minas na Flórida [Estados Unidos], então, dentro do contexto da Rússia, a gente está um pouco fora desse viés”, diz.
Porém, como membro do mercado de insumos agrícolas, ele demonstra certo temor, já que se trata de uma cadeia em que diferentes agentes estão interligados. “Afeta o Brasil. Um terço do que o Brasil consome [de fertilizantes] vem da Rússia. Então, acima de tudo, espero que a gente chegue num consenso com esses vários participantes de mercado, os stakeholders, para que medidas extremas nessa direção não sejam tomadas, porque o maior prejudicado será o agricultor brasileiro”.
Saída consensual
A Mosaic é uma multinacional americana e, neste momento, não deve ser impactada com as reviravoltas internacionais, já que não redireciona a produção do Brasil aos Estados Unidos e não depende da importação de produtos russos. Ao ser questionado sobre o posicionamento da empresa em relação a tarifa de 50%, Monteiro afirma que parte dos negócios está no Brasil e, devido a esse contexto, a empresa não deve “emitir nenhuma opinião específica sobre a situação”.
No entanto, diz aguardar uma resolução “negociável” e com “bom senso” entre as partes. “A gente espera que as autoridades de ambos os países cheguem em um consenso”, declara.
Produtor deve estar atento à organização e ao planejamento
Para Monteiro , o momento também pede tomadas de decisões dos produtores rurais. O vai e vem das tarifas acaba gerando um cenário de incertezas. Por isso, a recomendação do executivo é organização e planejamento, com um olhar em todas as direções e pautando os riscos.
“Dentro desse contexto, a gente sempre fala para o agricultor administrar seu negócio olhando a perspectiva de gestão de risco, olhando sua matriz de fornecimento, trabalhando com fornecedores confiáveis, antecipando-se a movimentos”, orienta.
Nesse sentido, ele aponta que atualmente 70% dos fertilizantes da próxima safra já estão comercializados, mesmo não tendo sido entregues. Mesmo assim, Monteiro alerta os produtores que ainda não se movimentaram para isso.
“Em anos anteriores, esse percentual era 10%, sendo que, em algumas regiões, como a do Matopiba, está muito mais atrasado que em anos anteriores. E isso não é benéfico, porque você promove gargalos logísticos e fica suscetível a essas situações hoje de guerra que estão acontecendo ou discussões tarifárias que geram muita instabilidade”, acrescenta o responsável da Mosaic no Brasil.
O ponto de atenção é, principalmente, para produtores da safra de verão, especialmente soja. Segundo Monteiro, as condições climáticas para este ano não devem atrasar o plantio e, por isso, o tempo para a preparação está mais curto do que no ano passado.
“Não deixe para a última hora. A gente observa hoje no Brasil como um todo uma janela de plantio ideal, com o regime de chuvas vindo no momento adequado. Então, diferente do ano passado, que atrasou o regime de chuvas, esse ano não vai atrasar”, recomenda Monteiro.
*Jornalista viajou a convite da Mosaic
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