Economia
Sanções à Rússia podem afetar o agro brasileiro; entenda
Fertilizantes e óleos combustíveis concentram quase 90% das compras brasileiras, enquanto as exportações para os russos se concentram em soja, café e carne bovina
Sabrina Nascimento | São Paulo | sabrina.nascimento@estadao.com
16/07/2025 - 13:44

O agro brasileiro acompanha com cautela a escalada do aumento de tarifas e a possibilidade de sanções econômicas, mesmo que secundárias, ao Brasil. Além das consequências às exportações agropecuárias com as tarifas norte-americanas de 50% a partir de 1º de agosto, especialistas alertam ainda para efeitos adicionais caso a Rússia, um dos principais fornecedores de adubos e fertilizantes ao país, receba nova sanção tarifária.
O primeiro alerta chegou na terça-feira, 15. Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar ocidental, disse a jornalistas que países como Brasil, China e Índia poderiam ser duramente atingidos por sanções secundárias se continuarem negociando com a Rússia. “Se você for o presidente da China, o primeiro-ministro da Índia ou o presidente do Brasil e ainda estiver negociando com os russos e comprando seu petróleo e gás, às vezes antes de vendê-los por um preço mais alto, saiba que, se esse cara em Moscou não levar as negociações de paz a sério, eu lhe imporei sanções secundárias de 100%”, afirmou.
Segundo ele, os líderes destes países deveriam analisar o cenário, pois a medida pode ser prejudicial aos países. “Então, por favor, liguem para Vladimir Putin e digam a ele que ele precisa levar as negociações de paz a sério, porque, caso contrário, isso vai prejudicar o Brasil, a Índia e a China de forma massiva”, disse.
Atualmente, a Rússia, também membro do BRICS, é o 24º maior parceiro comercial do agronegócio brasileiro. No entanto, somente no último ano, o comércio bilateral entre os dois países atingiu recorde histórico, de US$ 12,4 bilhões — aumento de 9% em relação a 2023.
Considerando os produtos negociados, as exportações brasileiras se concentram em soja (33%), café não torrado (18%) e carne bovina (18%). Enquanto isso, as importações envolvem óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos (57%) e adubos e fertilizantes químicos (34%).
Contudo, a pauta importadora brasileira da Rússia apresenta forte concentração, uma vez que dois grupos de produtos — óleos combustíveis de petróleo e adubos e fertilizantes — representam quase 90% das importações totais do Brasil.
De acordo com a consultoria Markestrat, o modelo de tarifas secundárias que pode ser adotado afetaria diretamente o agro brasileiro, principalmente, pela dependência da importação de fertilizantes. “Até o momento, essa possibilidade de pressão indireta via tarifas secundárias permanece especulativa. No entanto, dado o histórico das decisões de Donald Trump e sua predisposição pela força, não devemos descartar a sua plausibilidade”, ressalta, em relatório.
Segundo levantamento da consultoria com base no banco de dados Comtrade, da Organização das Nações Unidas, em 2024 o Brasil importou US$ 4,17 bilhões em fertilizantes da Rússia — de um total de US$ 12,21 bilhões em compras daquele país no ano. “Os fertilizantes são o principal item importado da Rússia, superando em mais de três vezes o valor de produtos como ferro, óleo e cereais”, destaca a Markestrat.
Ameaça geopolítica sem precedentes
Para James Onnig, professor de geopolítica do Laboratório de Relações Internacionais da FACAMP, as ameaças feitas pelo secretário-geral da Otan representam um movimento inédito na história política recente, abrindo um perigoso precedente. “Essas ameaças se transformam num ato agressivo geopoliticamente. É como se você ameaçasse um país por uma situação em outra nação. Quando a Otan pede ou fala o que deve ser feito, é uma ingerência ainda maior”, afirma.
Contudo, segundo Onnig, o foco da pressão indireta da Otan recai justamente sobre os países que integram o BRICS — grupo já contestado pelas potências ocidentais em outras situações. “É um ataque de dupla função: pressiona Putin para aceitar os termos da guerra e, ao mesmo tempo, obriga o BRICS a recuar. Há um claro interesse em desmobilizar esse bloco, cuja influência tem incomodado os países ricos.”
O professor ressalta ainda que, nesse contexto, a própria Otan tenta recuperar protagonismo após anos de desgaste, dependência dos Estados Unidos e o que ele chama de ‘fracasso’ da estratégia militar na Ucrânia. “As ameaças soam quase como chantagem política”, diz.
Onnig também pondera que, do ponto de vista comercial, não há razão objetiva para tarifas contra o Brasil, considerando o histórico equilibrado de relações comerciais com os Estados Unidos. Ele lembra que houve e há questionamentos pontuais contra o Brasil, a exemplo do aço e algodão, porém, no âmbito da Organização Mundial de Comércio. “O que vemos é uma tentativa de criminalizar o Brasil como peça de uma disputa geopolítica maior”, alerta.
Para Onnig, o Brasil, como liderança do Sul global e integrante do BRICS, virou alvo de tarifas e ameaças por representar uma voz independente na nova ordem mundial, incomodando interesses estratégicos dos EUA. “Trata-se de uma guerra comercial com viés geopolítico, aberta, cujas sequelas podem marcar o relacionamento entre Brasil e Estados Unidos como nunca antes na história”, salienta.
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