Economia
Decisão sobre salvaguardas da China leva tensão ao mercado da carne bovina
Pequim anuncia, nesta semana, se aplicará medidas de proteção para limitar compras externas de carne bovina
Redação Agro Estadão
24/11/2025 - 13:01

O mercado pecuário começa a última semana de novembro de olho na China. Isso porque termina na próxima quarta-feira, 26, o prazo estipulado para que o governo chinês adie novamente ou anuncie sua decisão sobre as investigações para aplicação de medidas de salvaguardas às importações de carne bovina do País.
Desde o fim do ano passado, Pequim apura se há excesso de compras externas de carne bovina. Como justificativa para a abertura do processo, o governo chinês mencionou o excesso de oferta no mercado interno, que derrubou os preços domésticos da proteína entre 2019 e 2023. Durante o processo de defesa, os exportadores brasileiros, que têm na China o seu principal mercado comprador, argumentaram que caso restrições sejam adotadas a inflação no país asiático pode subir.
Entretanto, na última semana, rumores de que o principal país comprador de carne bovina adotaria medidas para limitar o crédito aos importadores chineses mexeu com o mercado. Embora nada tenha sido oficialmente confirmado, o CEO da Scot Consultoria, Alcides Torres, alerta que essa possibilidade é preocupante. “O que mais me preocupa é o governo chinês diminuir ou limitar o crédito para os importadores de carne bovina, pois a gente sabe que o mercado global vive de crédito”, disse.
Alcides destaca ainda que a China costuma agir estrategicamente. Segundo ele, caso medidas restritivas venham a ser adotadas agora, elas ocorreriam justamente em um período do ano em que a importação chinesa é naturalmente menor, reduzindo o atrito interno e ampliando a eficácia das ações.
Enquanto isso, o mercado futuro reage com força à apreensão dos agentes. Conforme lembra Alcides, a especulação na B3 já vinha desde o início do mês motivada pela incerteza envolvendo a China, mas ganhou intensidade na última semana. Os contratos futuros chegaram a cair para a faixa de R$ 315 por arroba em novembro — cerca de R$ 5 abaixo do mercado físico, que se mantém mais resiliente na casa dos R$ 320 a R$ 325 por arroba, de acordo com levantamento da Scot consultoria.
Retomada dos EUA pode equilibrar redução chinesa
A Scot consultoria lembra que, sazonalmente, a China costuma reduzir o ritmo de compras entre novembro e dezembro. O país asiático tradicionalmente aumenta as aquisições até outubro, com o objetivo de abastecer o mercado interno para o Ano Novo Lunar — que ocorre entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, dependendo do calendário chinês. Neste ano, porém, o movimento foi atípico.
Diante da incerteza sobre as salvaguardas, Pequim antecipou parte das compras. Conforme levantamento da consultoria, desde julho deste ano a China tem importado mais de 150 mil toneladas mensais de carne bovina brasileira. Em setembro e outubro, o volume subiu para cerca de 180 mil toneladas. No entanto, a tendência agora é que haja uma desaceleração.
De acordo com a Scot, esse recuo temporário abre espaço para outro destino ganhar relevância nas exportações brasileiras: os Estados Unidos que retiraram adicionais impostas às compras de carne bovina do Brasil.
Em um período no qual a China deve reduzir o ritmo das compras, a melhora no acesso ao mercado norte-americano tende a abrir oportunidades para o preenchimento de escalas e para uma intensificação dos embarques a partir do início de 2025. “A gente estava com 26% mais os 50%; passamos a ter 26% mais os 40%; e agora, nós passamos a, neste final de ano, só os 26%, e em janeiro volta para os 4% — dentro de um acordo com países membros do Mercosul. Então, uma notícia muito boa para o setor exportador, que pode buscar mais boiada agora no final do ano, talvez, para preencher suas escalas e intensificar a exportação a partir de janeiro”, destacou Felipe Fabbri, analista da Scot Consultoria.
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