Agro na COP30
Governo “dá sinais trocados” quando trata de Seguro Rural, avalia especialista
Setor cobra mais previsão em orçamento, que atualmente pode ser contingenciado e tem gerado incerteza para seguradoras
Daumildo júnior* | Belém (PA) | daumildo.junior@estadao.com
21/11/2025 - 08:57

As discussões envolvendo o setor agropecuário na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30) também passaram pelo Seguro Rural. O mecanismo é entendido como fundamental num cenário de mudanças climáticas em que os efeitos são sentidos no campo. Mas na avaliação do coordenador do Observatório do Seguro Rural da FGV Agro, Pedro Loyola, a urgência do tema ainda não tem o devido foco na política agrícola do país.
“O nosso governo só dá sinal trocado. Se você fez Seguro, você não tem direito a mais nada. Se você não fez Seguro, você pode renegociar sua dívida, pode ficar inadimplente, pode ter recuperação judicial. Então, o nosso governo ainda dá muito sinal trocado, a nossa política agrícola ainda não considera o seguro uma política de Estado”, disse o especialista durante um painel organizado pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) na Casa do Seguro, espaço dedicado ao debate sobre seguros na COP 30.
Ele indicou que a política agrícola brasileira tem cerca de R$ 26 bilhões, mas os recursos não são bem alocados. Ele cita, por exemplo, o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). “É seis a sete vezes menos ineficiente do que o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural”, comentou.
O resultado, segundo ele, é um gasto maior em socorros com renegociações de dívidas. “Não tem R$ 500 milhões, R$ 600 milhões para o Seguro, mas gastou agora R$ 12 bilhões para a Medida Provisória dessa última seca extrema que nós tivemos. […] Quer dizer, quando se trata de renegociação, o recurso aparece muito rápido. A gente tem que mudar isso”, falou no painel.
Seguros personalizados e previsibilidade
O painel também discutiu as deficiências de adesão ao Seguro Rural. Para o diretor de Agronegócios da Allianz Seguros, Rafael Marani, parte da solução passa por ofertar opções mais “personalizadas” aos produtores.
“A gente entende que precisamos caminhar para um seguro mais personalizado, onde a gente olha o risco e precifica esse risco e oferece uma cobertura adequada para esse risco”, destacou Marani. Do ponto vista do executivo, seguradoras devem trabalhar para tornar o Seguro Rural um elemento indispensável para o produtor. “O nosso trabalho aqui, no nosso setor, é que o produtor olhe para o seguro rural como ele olha para o fertilizante”, comparou.
O vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Renato Buranello, tratou da falta de previsibilidade dos recursos destinados ao PSR. O representante da associação ressaltou que um planejamento de longo prazo traria tranquilidade para produtores e seria uma fator de atração na adesão ao Seguro Rural.
“Planejamento para nós, numa cadeia longa de risco, precisa ser de longo, médio prazo. […] A gente pensa no Plano Safra e o Seguro Rural já chega atrasado a cada ano. Qual a previsibilidade tem o produtor? Como é que a cadeia de seguros reage diante disso? Precisamos de uma política de Estado muito mais consistente. No momento que o Estado planeja e incentiva, a cultura aumenta, a contratação vai aumentar e todo mundo pagaria menos”, reforçou.
*Jornalista viajou a convite da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e CropLife Brasil
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