Inovação
Estudo inédito no Brasil estima perda de carbono em solos da agropecuária
Com participações de pesquisadores de três instituições, mensuração pode ajudar a medir potencial de parte do mercado de carbono brasileiro
Daumildo Júnior | Brasília | daumildo.junior@estadao.com
03/02/2026 - 05:00

Uma pesquisa estimou que o Brasil perdeu cerca de 1,4 bilhão de toneladas de carbono no solo com a conversão de vegetação nativa em áreas agropecuárias. A análise foi feita com base em mais de 370 estudos realizados nos últimos 30 anos nos seis biomas brasileiros – Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa. Esse montante, porém, representa apenas a perda na camada de 30 centímetros do solo.
O estudo foi feito em parceria entre pesquisadores do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP); da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG); e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A medição é considerada um ponto de partida, já que ainda não havia estudos que quantificassem a dimensão do que os pesquisadores chamam de “dívida de carbono” nessa faixa do solo. Basicamente, o cálculo desse volume levou em consideração a quantidade de carbono estocado no solo caso a área estivesse com vegetação nativa e subtraíram pela quantidade de carbono presente no solo das áreas utilizadas na agropecuária.
“Conhecemos essa dívida de carbono. Sabemos como esse carbono se encontra nos seis biomas, quais são as diferenças, como é o solo de cada bioma e, por fim, a gente tem as perspectivas que servem para recuperar esse carbono no solo com programas como o ABC+ [Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agricultura]”, destacou João Marcos Villela, pesquisador da Esalq.
Potencial que pode virar crédito de carbono
O cientista explica que o volume de carbono perdido pode ser parcialmente recuperado a partir de melhorias no manejo, como a implementação de sistemas integrados e o uso do plantio direto. A pesquisa aponta, por exemplo, que a recarbonização de um terço dessa área seria suficiente para alcançar entre 59% e 67% da meta brasileira de redução de emissões até 2035.
Essa reformulação de parte dos estoques de carbono perdidos pode gerar crédito de carbono para os produtores. Por isso, Villela aponta que a pesquisa pode servir como um ponto base para outros estudos que visam entender o tamanho do mercado de carbono brasileiro.
Ele também destaca que é importante diferenciar os potenciais de cada bioma, já que cada um pode exigir uma estratégia de recarbonização diferente. “Um hectare de carbono na Mata Atlântica, devido às condições, de ser um clima mais frio, com regime de chuva em termos de disponibilidade hídrica maior, é diferente do saldo de carbono, em termos de recuperação, de você recuperar um hectare lá na Caatinga”, disse.
Além disso, a pesquisa não traz o dimensionamento do volume de carbono perdido da parte aérea da vegetação suprimida, ou seja, dos caules, galhos e folhas, por exemplo. Também não traz o montante de carbono para faixas abaixo de 30 centímetros do solo.
Mesmo assim, o cientista destaca que o estudo pode ser usado como uma ferramenta para entender essa dinâmica e traçar ações mais estratégicas quanto às práticas de manejo. “Acho que o trunfo desse estudo é reconhecer que temos essa dívida, que realmente foi um grande impacto em termos de perda de carbono, mas, por outro lado, nosso estudo também evidencia o potencial dessas outras práticas de manejo que já estão em vigor”, concluiu Villela.
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