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Proteína feita de fungos pode movimentar US$ 32 bilhões até 2032

Estimativa aparece em uma publicação da Embrapa; alimentos à base de fungos têm alto valor nutricional e menor impacto ambiental

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Redação Agro Estadão*

12/01/2026 - 05:30

André Damasio, professor da Unicamp, trabalha em pesquisa com fungos. Foto: Wilson Smanhoto/Divulgação
André Damasio, professor da Unicamp, trabalha em pesquisa com fungos. Foto: Wilson Smanhoto/Divulgação

Por décadas, as proteínas animais dominaram a dieta mundial. Agora, um novo protagonista ganha espaço: os fungos. Pesquisas em engenharia genética e fermentação de precisão transformam o micélio — estrutura que sustenta o fungo — em fonte promissora de micoproteínas, com alto valor nutricional, textura próxima à da carne e menor impacto ambiental. O mercado global desses produtos deve superar US$ 32 bilhões até 2032, segundo publicação da Embrapa.

Avanços na edição de DNA e na eficiência dos processos fermentativos abrem caminho para a produção em larga escala e reforçam o potencial das micoproteínas como alternativa sustentável às proteínas animais.

CONTEÚDO PATROCINADO

André Damasio, pesquisador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a combinação dessas tecnologias está transformando os chamados fungos filamentosos e leveduras em verdadeiras “fábricas celulares”, capazes de produzir proteínas recombinantes — como as do leite, ovos e carne — com menor impacto ambiental e maior segurança alimentar. 

“A produção de micoproteínas se destaca por exigir menos terra e água, e emitir menos gases de efeito estufa do que a pecuária convencional. Esse novo sistema de produção de alimentos pode mitigar os efeitos ambientais da agricultura intensiva, como o desmatamento, a degradação do solo e o esgotamento de recursos hídricos”, explica Damasio.

Do ponto de vista nutricional, as micoproteínas são fontes de aminoácidos essenciais e minerais como zinco e selênio, embora não contenham Vitamina B12 nem ferro. Estudos clínicos indicam que seu consumo pode ajudar a reduzir colesterol, melhorar a saciedade, controlar glicemia e até estimular a síntese de proteína muscular. Ainda assim, especialistas alertam para a necessidade de mais pesquisas sobre sua digestibilidade e potencial alergênico.

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Complemento ao suprimento mundial de proteínas

Para a pesquisadora Paula Cunha, da Unicamp, a aposta na biotecnologia fúngica não pretende eliminar a carne animal, mas oferecer alternativas viáveis e acessíveis que diversifiquem a dieta e reduzam o impacto ambiental da produção de alimentos. Ao integrar essas micoproteínas às cadeias alimentares existentes, é possível fortalecer a segurança alimentar global e aumentar a resiliência dos sistemas agroindustriais frente às mudanças climáticas e à pressão sobre os recursos naturais.

De acordo com a Embrapa, proteínas derivadas do micélio, como as produzidas pelas empresas Quorn, Meati e Eternal, oferecem vantagens como alto teor proteico (entre 45% e 48%), riqueza em fibras (entre 22% e 35%), sabor neutro e textura semelhante à carne. Por isso, têm sido aplicadas tanto em análogos de carne quanto em produtos híbridos, que combinam proteína animal ou vegetal com micélio, ampliando a sua aceitação entre consumidores não veganos.

Sequência mostra shimeji crescendo em arroz parboilizado. Foto: Unicamp/Divulgação

Entretanto, para que essas proteínas ocupem lugar fixo nas prateleiras e nos pratos dos consumidores, ainda há barreiras a vencer. As propriedades do micélio exigem mais investigação e adaptação tecnológica. Isso inclui melhorias na textura, sabor e funcionalidade para aplicações variadas na indústria alimentícia, como potenciais substitutos de carne e laticínios.

Regulamentação

Gabriel Mascarin, engenheiro agrônomo da Embrapa Meio Ambiente, acredita que, além da aceitação pelo consumidor, há ainda o desafio da segurança e da regulamentação. Faltam estudos clínicos sobre a biodisponibilidade dos aminoácidos presentes nas micoproteínas, a sua contribuição à saciedade e os efeitos de longo prazo à saúde humana. A padronização de valores nutricionais e a criação de normas rigorosas para controle de toxinas e metais pesados são urgentes, sobretudo diante da diversidade de substratos utilizados nos processos fermentativos.

“Do ponto de vista técnico, os obstáculos vão desde a engenharia genética de linhagens fúngicas até a otimização do bioprocesso e escalonamento, além da etapa de purificação dos produtos”. Estratégias que utilizam novas ferramentas biotecnológicas têm sido aplicadas para aumentar a eficiência das fábricas celulares”, conta Mascarin, ao informar que dados recentes mostram o avanço da engenharia de fungos e leveduras para produzir proteínas com funcionalidade semelhante às de origem animal.

Produtos à base de micoproteínas, como os derivados do micélio, são frequentemente classificados como “novos alimentos”, exigindo rigorosas avaliações de segurança antes da aprovação comercial. Embora a FDA dos Estados Unidos tenha aprovado o seu uso em 2001, ainda não existem diretrizes específicas sobre ingestão diária, e esses alimentos não são recomendados para crianças menores de três anos devido ao alto teor de fibras e baixa densidade energética.

*Com informações da Embrapa

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