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Tecnologia identifica origem do café e detecta adulterações em segundos

Pesquisa da Embrapa adapta método já empregado nas cadeias do leite e da soja para confirmar procedência e identificar misturas ilegais

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Redação Agro Estadão

17/02/2026 - 08:00

Técnica do NIR reconhece padrões químicos específicos de cada lote de café. Foto: Antonio Scarpinetti/Arquivo pessoal
Técnica do NIR reconhece padrões químicos específicos de cada lote de café. Foto: Antonio Scarpinetti/Arquivo pessoal

Uma tecnologia que “lê” a composição química do café por meio da luz começou a ser usada no Brasil para identificar a origem do grão e detectar adulterações. Pesquisas da Embrapa Rondônia mostram que a Espectroscopia no Infravermelho Próximo (NIR) — técnica já empregada no País e no exterior para análise da qualidade do leite e da soja — permite diferenciar cafés por região e apontar fraudes em poucos segundos.

A técnica faz uma leitura rápida da composição química (sem destruir a amostra) e está em fase de validação para o setor cafeeiro. Segundo os pesquisadores, o método pode fortalecer as indicações geográficas e as certificações de qualidade. “É uma tecnologia que permite identificar o terroir [conjunto de características específicas de uma região] do café, chegando ao nível da área produtiva”, explica o pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia.

CONTEÚDO PATROCINADO

A NIR mede como a luz infravermelha interage com os compostos químicos do café. Dessa interação, nasce um sinal chamado espectro químico, uma “impressão digital” da amostra. Um software compara esse espectro com bancos de dados e, com algoritmos treinados, verifica origem, pureza e autenticidade.

O estudo foi desenvolvido ao longo de cinco anos como parte do doutorado de Michel Baqueta na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a equipe da estatal. A pesquisa combinou espectroscopia (ciência que estuda a relação entre a luz e a matéria) e análise quimiométrica (uso de métodos matemáticos e estatísticos para interpretar dados químicos complexos) para criar padrões capazes de diferenciar origens, reconhecer terroirs e identificar adulterações.

Segundo a Embrapa, os resultados permitem separar, por exemplo, cafés robustas amazônicos — inclusive variedades indígenas — de conilons do Espírito Santo e da Bahia. Todos pertencem à espécie Coffea canephora, mas apresentam perfis químicos distintos conforme o solo e o ambiente de cultivo.

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A mesma técnica pode ser aplicada a outras cadeias agroalimentares, como cacau, soja, leite, frutas e vinhos, ampliando a rastreabilidade e o controle de qualidade. Nos testes, foi possível identificar adulterações no café com milho, soja, casca, borra e sementes de açaí, citadas por Baqueta como “um tipo emergente de fraude”.

Identidade e autenticidade

O trabalho contou com a colaboração de universidades brasileiras e centros de pesquisa da Itália e da França, reunindo especialistas em ciência de alimentos, química analítica e espectroscopia. Em paralelo, estudos no Espírito Santo aplicaram a mesma metodologia para delimitar terroirs regionais, reforçando a consistência dos resultados.

De acordo com a Embrapa, a validação científica da NIR pode facilitar o reconhecimento técnico e mercadológico dos cafés indígenas amazônicos. A confirmação de origem e autenticidade agrega valor econômico e simbólico ao produto, amplia o acesso a mercados de cafés especiais e fortalece a identidade territorial e cultural desses sistemas produtivos.

Prevenção a fraudes e acessibilidade

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Técnica abre caminho para o melhoramento genético e a rastreabilidade digital. Foto: Antonio Scarpinetti/Arquivo Pessoal

Alves explica que a técnica reconhece padrões químicos específicos de cada lote. Alterações nesses padrões indicam a presença de materiais estranhos ou a mistura de grãos de origens diferentes. “Se houver contaminante, palha ou outro resíduo, a curva espectral muda e conseguimos confirmar a adulteração”, afirma. O método também permite identificar a mistura de cafés de regiões distintas em um mesmo lote.

Para o pesquisador Michel Baqueta, da Unicamp, a principal vantagem é a rapidez. Uma avaliação laboratorial tradicional pode levar horas ou até dias, dependendo do preparo da amostra e do uso de reagentes químicos, e gera laudos laboratoriais demorados. “Uma análise convencional pode exigir preparo de amostra e reagentes. Com a NIR, o resultado sai em segundos, com mínimo custo operacional”, destaca.

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Rastreabilidade digital

Além do combate a fraudes, a técnica abre caminho para o melhoramento genético e a rastreabilidade digital. A equipe da Embrapa Rondônia pretende aplicar a técnica ao banco de germoplasma de café, com cerca de mil acessos, para associar perfis químicos a características como teor de cafeína e minerais.

Baqueta ressalta que o equipamento não destrói o grão e dispensa reagentes químicos, o que reduz custos e resíduos. A leitura pode ser feita em equipamentos de bancada ou portáteis, inclusive em campo. “A técnica foi idealizada justamente para permitir que cooperativas, associações e agências de certificação tenham acesso a uma ferramenta rápida, confiável e de baixo custo, promovendo a democratização da autenticação e rastreabilidade”, afirma o especialista.

Há também um movimento de integração da espectroscopia NIR a dispositivos móveis e sistemas em nuvem, o que pode ligar o campo ao consumidor e aumentar a transparência no setor.

Caminho para certificações

Embora já seja usada em cadeias como leite e soja, a NIR ainda é novidade no café brasileiro. A expectativa é que, após a validação dos modelos e a definição de protocolos oficiais, os resultados ganhem valor legal como apoio à certificação de origem, pureza e qualidade.

Na avaliação de Baqueta, a adoção da tecnologia pode transformar o controle de qualidade do café nacional. “A técnica permite monitorar lotes desde a origem até a exportação, prevenindo fraudes e fortalecendo a confiança do mercado. Também facilita ações de fiscalização mais ágeis e transparentes”, diz.

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