Inovação
Mel da Serra Catarinense conquista primeira certificação FSC das Américas
Reconhecimento valoriza pequenos apicultores e mostra que a floresta pode gerar renda, biodiversidade e desenvolvimento para além da madeira
Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP) | igor,savenhago@estadao.com
31/01/2026 - 05:00

A Serra Catarinense – região entre o oeste e o norte do Estado – é a primeira região das Américas a obter a certificação FSC para a produção de mel. O reconhecimento, concedido pela Forest Stewardship Council (FSC), marca um avanço por inserir oficialmente um produto florestal não madeireiro no manejo responsável, reforçando o papel das florestas como espaços de conservação, geração de renda e fortalecimento das comunidades locais.
A FSC é uma organização internacional que cria padrões e certificações para garantir que produtos de origem florestal sejam obtidos de forma ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável.
A certificação do mel catarinense é resultado de uma jornada construída de forma colaborativa entre a Klabin, maior produtora e exportadora de embalagens de papel do Brasil, o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), a FSC Brasil e produtores de mel do Planalto Serrano Catarinense. O selo simboliza um novo capítulo para a apicultura brasileira e para o próprio sistema FSC, tradicionalmente associado à madeira e à celulose.
“A certificação do mel é muito marcante para a FSC porque mostra que o sistema é capaz de responder a demandas que vão além da madeira. Esse produto [mel] carrega não apenas qualidade, mas a garantia de que é produzido em florestas que conservam a biodiversidade e respeitam as pessoas e os valores culturais do território”, afirma Elson Fernandes de Lima, diretor executivo da FSC Brasil.
Um caminho aberto por mudanças no padrão FSC
A certificação do mel só se tornou viável após a atualização do Padrão de Manejo Florestal da FSC para Plantações no Brasil, lançada em março de 2025. O novo documento passou a contemplar, de forma explícita, produtos florestais não madeireiros, criando indicadores específicos para essa atividade dentro do sistema de auditorias.
“Apesar de ao FSC já ter histórico com produtos não madeireiros, como açaí, castanhas, o mate, na Região Sul, o novo padrão abriu esse caminho de forma mais clara. Foram construídos indicadores específicos para a produção de mel, considerando suas particularidades, sem abrir mão dos princípios e critérios ambientais, sociais e econômicos da FSC”, explica Lima.
Atenta à mudança, a Klabin — empresa que mantém áreas certificadas pela FSC há décadas — identificou na apicultura uma oportunidade de gerar valor compartilhado. A companhia já convivia com produtores de mel em suas áreas há muitos anos, autorizando a instalação de apiários em regiões preservadas e livres de defensivos agrícolas.
Floresta em mosaico e biodiversidade como aliadas

Na Serra Catarinense, a Klabin adota, desde a década de 1950, o modelo de manejo em mosaico, que intercala florestas plantadas de pínus e eucalipto com extensas áreas de Mata Atlântica nativa, reservas legais e áreas de preservação permanente. É nesse ambiente que os apicultores instalam seus apiários, principalmente nas bordas de áreas florestais nativas e em regiões em restauração.
“O manejo apícola promove o uso sustentável dos recursos florestais, fortalece o desenvolvimento regional e gera renda para pequenos e médios produtores. Ao mesmo tempo, as abelhas prestam um serviço ambiental essencial de polinização, contribuindo para a recuperação da vegetação e a saúde dos ecossistemas”, destaca Darlon Orlamunder, diretor de Estratégia e Planejamento Florestal da Klabin.
Segundo ele, a certificação atesta que o mel é produzido em áreas manejadas de forma responsável, seguindo rigorosamente os critérios da FSC. “Além de agregar valor ao produto, o selo reforça o compromisso da Klabin com a conservação ambiental, o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento das comunidades locais”, afirma.
Credibilidade no mercado e segurança para exportação
Para os apicultores, a certificação representa um ganho direto em credibilidade, especialmente no mercado internacional, onde as exigências são rigorosas. Fernando Zils, apicultor e secretário da Associação de Apicultores do Planalto Serrano Catarinense (AAPSC), vive em Otacílio Costa (SC) e trabalha com o pai e o irmão na atividade.
“Qualquer sinal de contaminante derruba a classificação do produto. Estar em áreas certificadas mostra que seguimos critérios ambientais reconhecidos, que as colmeias estão em ambiente controlado e livre de agrotóxicos”, explica.
Atualmente, cerca de 90% dos apiários da associação estão instalados em áreas da Klabin. “São áreas amplas, preservadas e com boa diversidade de flora, algo que dificilmente conseguiríamos em pequenas propriedades. Isso melhora o sabor, a qualidade e até o volume da produção”, afirma Zils.
Diversidade de floradas e identidade regional

A riqueza ambiental da região se reflete diretamente no produto final. A diversidade de espécies vegetais permite a produção de diferentes tipos de mel, cada um com características próprias de cor, aroma e sabor.
“Conseguimos produzir o mel claro, de pau-da-água; o mel amarelo, de vassourão, vassourinha e carqueja; o mel vermelho, de eucalipto; e o mel preto, da bracatinga, que é raro e muito valorizado no exterior”, detalha o apicultor. Segundo ele, a predominância de uma florada praticamente define o tipo de mel, conferindo identidade ao produto da Serra Catarinense.
Para atender aos critérios da FSC, os apicultores adotam práticas rigorosas de manejo. Os apiários são instalados longe de áreas agrícolas para evitar contaminação, e todo o processo — da colheita ao armazenamento — segue protocolos de higiene e segurança alimentar. “Usamos equipamentos exclusivos para o manuseio do mel e tambores adequados para armazenamento. Esses cuidados atendem às exigências da FSC, da associação e das exportadoras”, afirma Zils.
Benefícios que vão além da apicultura
Os impactos da certificação não se limitam à produção de mel. Segundo a FSC, os benefícios ambientais, sociais e econômicos se espalham pela região. A restauração de áreas da Mata Atlântica, impulsionada pelo serviço de polinização das abelhas, contribui para a formação de corredores ecológicos, a conservação da biodiversidade e a melhoria da qualidade ambiental.
“Os benefícios sociais estão diretamente ligados a essa qualidade ambiental. A certificação permite gerar renda a partir de uma atividade que depende da conservação da natureza”, destaca Orlamunder, da Klabin. Além da apicultura, outras cadeias produtivas, como a fruticultura e a produção de hortaliças, se beneficiam de um ambiente mais equilibrado.
Próximo passo: certificação da cadeia de custódia
Apesar do avanço histórico, o processo ainda não terminou. Para que o mel chegue ao consumidor final com o selo FSC, é necessária a certificação da cadeia de custódia, que abrange todas as etapas posteriores à produção. “O próximo passo é a certificação da Associação dos Apicultores do Planalto Serrano Catarinense. Só assim teremos um produto 100% certificado, garantindo que o beneficiamento, o envase e a comercialização também atendam aos requisitos da FSC”, explica Elson de Lima.
A associação reúne 26 produtores e está sendo preparada para esse novo desafio, com apoio técnico e consultoria custeada pela Klabin. A expectativa é que o reconhecimento agregue valor ao mel da região, fortaleça o empreendedorismo local e amplie o acesso a mercados mais exigentes.
“Esse é um ganho para as pessoas, para a região e para o próprio sistema FSC. Nosso desejo é que o consumidor reconheça esse mel não apenas pela qualidade, mas pelos benefícios socioambientais que ele entrega”, conclui Lima.
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