Inovação
Pesquisa identifica nova espécie de cigarrinha que afeta a cana
Descoberta do inseto explica falhas no uso de defensivos e reforça a importância do controle biológico
Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP) | igor.savenhago@estadao.com
05/01/2026 - 05:00

A constatação de que defensivos agrícolas tradicionalmente usados contra a cigarrinha-das-raízes já não apresentavam a mesma eficiência levou pesquisadores brasileiros a uma descoberta no setor sucroenergético: uma nova espécie de inseto que ataca lavouras de cana-de-açúcar. Batizada de Mahanarva diakantha, a praga, uma nova espécie de cigarrinha, foi identificada por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), após anos de investigação envolvendo análises genéticas e morfológicas. A descoberta ajuda a explicar dificuldades enfrentadas por produtores e abre novas perspectivas para o desenvolvimento de estratégias de controle mais eficazes.
A cana-de-açúcar ocupa posição estratégica na economia brasileira. Desde 2010, a produção nacional gira em torno de 700 milhões de toneladas anuais, destinadas à fabricação de açúcar, etanol e à geração de energia por meio do aproveitamento do bagaço. Em 2024, o Brasil exportou US$ 18,61 bilhões em açúcar, consolidando o País como principal fornecedor mundial do produto. Diante dessa relevância, pragas e doenças que afetam a cultura são tratadas como prioridade, já que podem comprometer produtividade, qualidade e rentabilidade.
Entre os inimigos mais conhecidos da cana, está a cigarrinha-das-raízes, um inseto de pequeno porte, coloração marrom-avermelhada, que se alimenta da seiva da planta. Durante esse processo, libera toxinas capazes de provocar a queima das folhas, reduzir o teor de sacarose e causar perdas que podem chegar a 80% da produção em casos mais severos. Tradicionalmente, as espécies Mahanarva fimbriolata e Mahanarva spectabilis eram apontadas como as principais responsáveis pelos danos.
O alerta que deu origem à pesquisa
Produtores e empresas do setor passaram a relatar dificuldades crescentes no controle da praga, mesmo com a aplicação de produtos químicos amplamente utilizados. A hipótese inicial era de que os insetos estariam desenvolvendo resistência aos defensivos. No entanto, uma pesquisadora da Embrapa, em Araras, levantou uma possibilidade alternativa: a de que se tratasse de uma espécie diferente das já conhecidas.
A partir dessa suspeita, amostras coletadas em usinas e lavouras de cana foram encaminhadas para análise. O trabalho reuniu especialistas de diferentes áreas e instituições. De um lado, pesquisadores com experiência em taxonomia de insetos realizaram estudos morfológicos detalhados; de outro, cientistas da Unesp se dedicaram à investigação genética, comparando o DNA das amostras com o de espécies já descritas.
Coordenador da parte genética do estudo, o professor Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello, do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro, explica que a diferenciação entre espécies próximas exige múltiplas abordagens. Por meio de um marcador genético, foi possível observar variações mais amplas do que aquelas esperadas dentro de uma mesma espécie. Mais de 300 indivíduos coletados entre 2012 e 2015 foram analisados, revelando um padrão genético consistente que indicava se tratar de um grupo distinto.
A confirmação definitiva veio com a análise morfológica. A pesquisadora Andressa Paladini identificou uma diferença sutil, porém decisiva, na genitália dos machos: enquanto as espécies já conhecidas apresentam uma estrutura quadrangular não bifurcada, a nova cigarrinha possui uma formação pontiaguda e dividida em duas partes. Essa característica inspirou o nome diakantha, termo de origem grega que significa “dois espinhos”.
A descrição da nova espécie de cigarrinha foi publicada na revista científica internacional Bulletin of Entomological Research, da Universidade de Cambridge, e revelou que a Mahanarva diakantha não é um inseto raro ou restrito a uma região específica. Já foi identificada em lavouras de cana-de-açúcar em diferentes partes do País. Revisões posteriores em coleções entomológicas também indicaram que o inseto provavelmente já estava presente no Brasil desde a década de 1960, mas vinha sendo confundido com outras espécies.
O que muda no campo com a nova espécie de cigarrinha?

A descoberta da nova espécie de cigarrinha tem implicações diretas para o manejo agrícola. Defensivos e métodos de controle costumam ser desenvolvidos com foco em espécies específicas. Assim, um produto eficiente contra uma cigarrinha pode não apresentar o mesmo desempenho com outra, ainda que sejam muito semelhantes. Isso ajuda a explicar por que algumas propriedades observaram resultados insatisfatórios nos últimos anos.
Especialistas em fitossanidade avaliam, no entanto, que a nova espécie não deve representar, por si só, um risco incontrolável às lavouras. Atualmente, o principal método de combate à cigarrinha-das-raízes é o controle biológico, realizado com o fungo Metarhizium anisopliae. Cultivado em laboratório e aplicado nas plantações diluído em água, ele é seletivo, ataca apenas insetos e não oferece riscos à planta nem à saúde humana. O método é considerado um dos casos mais bem-sucedidos de controle biológico em larga escala no mundo.
Mesmo com o sucesso dessa estratégia, pesquisadores ressaltam a necessidade de novos estudos específicos sobre a Mahanarva diakantha. É fundamental compreender sua biologia, comportamento, taxas reprodutivas e diversidade genética, além de avaliar se as técnicas atualmente utilizadas manteriam a eficácia para a nova espécie. Outro desafio é atualizar as análises com amostras mais recentes, já que o sistema de cultivo da cana passou por mudanças significativas na última década, como a ampliação da colheita mecanizada.
Nesse cenário, o sequenciamento completo do genoma das cigarrinhas surge como uma ferramenta promissora. Ao mapear as variações genéticas entre as espécies, os pesquisadores esperam avançar no desenvolvimento de soluções mais precisas, alinhadas ao conceito de agricultura de precisão. A hipótese é que a separação evolutiva entre as espécies tenha ocorrido nos últimos 100 mil anos, o que é recente do ponto de vista evolutivo e explicaria a grande similaridade morfológica e genética.
Além das cigarrinhas, a cultura da cana-de-açúcar enfrenta outras ameaças relevantes, como a síndrome do murchamento da cana, associada a fatores climáticos e biológicos, e o avanço do bicudo-da-cana, praga favorecida pelo sistema de colheita mecanizada. A escassez de informações detalhadas sobre essas ocorrências torna o desafio ainda maior.
A pesquisa da cigarrinha evidencia a importância da cooperação entre universidades, centros de pesquisa e o setor produtivo. O trabalho só foi possível graças à colaboração entre Unesp, PUCRS, Embrapa e empresas do agronegócio. Iniciativas como o Centro de Pesquisa em Engenharia – Fitossanidade em Cana-de-Açúcar (Cepenfito), financiado por recursos públicos e privados, reforçam esse modelo de parceria voltado à solução de problemas concretos do campo.
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