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Sustentabilidade

Por que a história dos solos influencia a conservação dos rios?

Estudo revela que o uso da terra no passado tem papel decisivo na proteção dos cursos d'água e na preservação da biodiversidade aquática

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Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP) | igor.savenhago@estadao.com

25/01/2026 - 05:00

Experimentos foram conduzidos na bacia do rio Corumbataí. Foto: Prefeitura de Piracicaba (SP)/Divulgação
Experimentos foram conduzidos na bacia do rio Corumbataí. Foto: Prefeitura de Piracicaba (SP)/Divulgação

A forma como o ser humano ocupa e transforma a terra deixa marcas profundas não apenas nas paisagens que a gente vê, mas também nos cursos d’água que as atravessam. Rios e riachos carregam sinais que, apesar de não evidentes a olhares despretensiosos, podem revelar, se estudados em detalhes, décadas de intervenções humanas — do avanço da agricultura à redução de vegetação nativa. É o que mostra uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, que alerta para a importância de compreender a chamada “memória ecológica” como medida fundamental para planejar ações de conservação.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Laboratório de Ecologia de Comunidades Aquáticas, coordenado pelo biólogo Tadeu Siqueira, do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima). A investigação analisou como mudanças no uso da terra afetam a biodiversidade e o funcionamento de cursos d’água ao longo do tempo, revelando que os impactos nem sempre são imediatos, mas que o passado pode influenciar a saúde dos ecossistemas aquáticos por décadas.

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Rios e riachos guardam rastros

Embora rios e riachos não tenham uma memória semelhante à dos humanos, os pesquisadores utilizam o conceito de “memória ecológica” para descrever os efeitos cumulativos de transformações em um ambiente. Essas marcas se manifestam na composição das comunidades aquáticas, na qualidade da água e na capacidade dos ecossistemas de responder a novas pressões ambientais. De acordo com Siqueira, a biodiversidade encontrada atualmente não reflete o que acontece hoje ao redor deles, mas é resultado de uma sequência de eventos passados, especialmente relacionados às mudanças no uso da terra.

A pesquisa avaliou 101 riachos da bacia do rio Corumbataí, no interior paulista, região marcada por forte atividade agrícola e por intensas transformações desde o século passado. Para reconstruir a história da paisagem, os cientistas utilizaram informações do MapBiomas, que mapeia o uso e a cobertura do solo no Brasil desde 1985, além de informações ambientais coletadas em campo ao longo mais de 30 anos.

Insetos aquáticos como indicadores de saúde

Um dos pilares do estudo foi o uso de insetos aquáticos como bioindicadores da saúde ambiental. Isso porque, apesar de a água doce cobrir menos de 1% da superfície terrestre, ela abriga cerca de 10% de todas as espécies animais do planeta. Entre elas, os insetos representam, aproximadamente, 80% da diversidade aquática. Esses organismos respondem de forma sensível a alterações ambientais, como poluição, mudanças na vegetação e variações na qualidade da água.

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solos
Pesquisadores usaram informações ambientais coletadas durante mais de 30 anos. Foto: Unesp/Divulgação

A equipe coletou e identificou milhares de indivíduos pertencentes a diferentes grupos de insetos, alguns altamente sensíveis a distúrbios ambientais e outros mais tolerantes. A presença ou ausência dessas espécies permitiu aos pesquisadores avaliar o estado ecológico dos riachos e relacioná-lo ao histórico de uso da terra na bacia. Siqueira explica que, como existe uma grande variedade de insetos aquáticos, o estudo conseguiu identificar quais grupos indicam ambientes mais preservados e quais são típicos de áreas mais degradadas – o que permitiu enxergar padrões que não seriam percebidos apenas com análises da água.

Além da biodiversidade, foram analisados parâmetros como condutividade elétrica, oxigênio dissolvido e características do habitat, compondo um retrato detalhado das condições ambientais dos riachos estudados.

O “quanto” é mais importante que o “onde”

Um dos resultados mais relevantes da pesquisa desafia o que se conhece sobre conservação. Os cientistas descobriram que a composição total do uso do solo na bacia hidrográfica — quanto da área é ocupada por agricultura, pastagem, áreas urbanas ou vegetação nativa — tem impacto maior sobre a biodiversidade aquática do que a simples proximidade dessas atividades em relação aos cursos d’água. Em síntese, não importa apenas se a floresta está próxima do riacho, mas quanto da paisagem ainda permanece preservada.

Outro aspecto destacado pelo estudo é que a memória ecológica tem limites temporais. Em regiões onde as transformações do uso da terra ocorreram há muito tempo, como em regiões do Estado de São Paulo, os ecossistemas aquáticos tendem a ser dominados por espécies generalistas, capazes de sobreviver em diferentes condições. Nesses casos, os sinais do passado tornam-se mais difíceis de detectar.

Já em regiões com alterações mais recentes, como áreas do Mato Grosso e de Rondônia, os efeitos históricos tendem a ser mais evidentes, permitindo identificar, com maior clareza, como o uso da terra molda a biodiversidade dos rios. Conforme Siqueira, se a memória ecológica for ignorada, há o risco de atribuir a perda da biodiversidade apenas a fatores contemporâneos, quando, na verdade, o problema começou lá atrás.

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Portanto, a preservação e a recuperação de matas ciliares, por exemplo, seguem necessárias, já que elas atuam como filtros naturais, reduzem a entrada de sedimentos e poluentes nos rios e riachos, ajudam as margens a ficar mais estáveis e a manter condições adequadas para a vida aquática. Mas considerando que, na bacia do Corumbataí, áreas de cana-de-açúcar e pastagens dominaram o cenário por décadas, influenciando diretamente a estrutura das comunidades aquáticas, isso apenas não basta.

O pesquisador lembra que o reconhecimento de que existe um legado do uso do solo permite decisões mais precisas. Segundo ele, entender o passado ajuda a definir prioridades e estabelecer expectativas mais realistas sobre os resultados das ações que visam à conservação.

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