Sustentabilidade
Corantes que vêm do campo e da floresta
Substâncias extraídas de plantas tingem tecidos com tons vibrantes e inspiram práticas sustentáveis
Redação Agro Estadão*
07/03/2026 - 05:00

O Brasil vive uma mudança importante no jeito de pensar sobre produtos naturais. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que vem crescendo o número de brasileiros que consomem produtos ambientalmente sustentáveis, independentemente do preço.
Essa preferência se estende também ao mundo do tingimento de tecidos e artesanato. Os corantes naturais são substâncias que vêm de plantas e servem para dar cor aos tecidos e outros materiais.
Diferente dos produtos químicos industriais, eles oferecem uma forma mais sustentável de tingir fibras.
O que são corantes naturais?
Existe uma diferença importante entre pigmentos e corantes. Os pigmentos não se dissolvem na água e cobrem bem o tecido.
Já os corantes se dissolvem na água, mas cobrem menos. Essa diferença muda a forma como extraímos a cor das plantas e como ela adere ao tecido.
Entender isso ajuda a escolher a planta certa para cada trabalho. Também explica por que algumas plantas tingem melhor que outras e por que certas cores desbotam mais rápido.
Principais grupos de corantes naturais e suas cores

As plantas produzem cores por meio de diferentes substâncias químicas. Cada grupo cria cores específicas e tem jeitos próprios de se comportar.
As antocianinas fazem vermelhos e roxos, as betalaínas criam tons avermelhados-azulados, a curcumina produz amarelos, os carotenóides geram alaranjados, a clorofila resulta em verdes e o índigo em tons azulados.
Corantes vermelhos, rosas e roxos das antocianinas
As antocianinas são encontradas em frutas como uva e produzem tons que vão do vermelho ao roxo. Elas se dissolvem na água e funcionam melhor em líquidos ácidos. O problema é que são sensíveis ao calor e à luz do sol.
Na prática, isso significa que você precisa controlar a acidez da água onde vai fazer o tingimento. Depois de tingir, é importante proteger o tecido da luz solar forte para a cor não desbotar rapidamente.
Corantes avermelhados-azulados da beterraba
A beterraba tem substâncias chamadas betalaínas que criam cores vermelhas puxando para o azul. Elas funcionam bem quando o líquido não está nem muito ácido nem muito básico. Se a água ficar muito básica, a cor se perde.
Por isso, é importante não mexer demais no tingimento e evitar produtos que deixem a água muito alcalina.
Amarelos da cúrcuma
A cúrcuma, que muita gente chama de açafrão-da-terra, tem uma substância chamada curcumina que produz amarelos bonitos. Ela aguenta bem o calor, então pode ser aquecida durante o processo. Mas não gosta de luz solar direta, que pode fazer a cor desaparecer.
Alaranjados do urucum
O urucum vem dos frutos e sementes de uma planta e produz cores que vão do alaranjado ao vermelho. Ele tem duas substâncias principais: bixina e norbixina.
Essas substâncias se dissolvem melhor em óleos do que em água, são sensíveis à luz e ao tipo de líquido usado, mas aguentam temperatura até 100 °C.
Alaranjados dos carotenoides
Os carotenoides, encontrados na páprica, criam cores que vão do amarelo ao vermelho. Eles se dissolvem melhor em óleos, funcionam bem em diferentes tipos de líquidos e ainda têm propriedades antioxidantes (protegem contra oxidação). Isso os torna mais estáveis para tingimento.
Verdes das clorofilas
As clorofilas extraídas de plantas como espinafre fazem cores verdes naturais. O problema é que são muito sensíveis à luz e se oxidam facilmente (reagem com o ar).
Por isso, os verdes naturais costumam ser menos duradouros e precisam de mais cuidado para se manter bonitos.
Azul do índigo
O índigo, extraído das folhas da planta Indigofera tinctoria, produz um azul profundo e característico muito usado em tingimentos têxteis. Sua substância principal, o indigotina, é insolúvel em água, mas torna-se solúvel na forma reduzida em meio alcalino.
Após o tingimento, a exposição ao ar oxida o corante, fixando a cor estável; é resistente ao calor e à luz, mas sensível a ácidos fortes que podem degradá-lo.
Plantas do conhecimento tradicional Guarani

De acordo estudo do Projeto Novos Rumos no Horizonte dos Guarani da Aldeia Boa Vista, o povo Guarani desenvolveu conhecimento rico sobre plantas que servem para tingir tecidos.
Eles usam diferentes partes das plantas — raízes, cascas, folhas, sementes e frutos — para criar uma paleta variada de cores. Esse saber tradicional valoriza recursos locais e práticas sustentáveis.
Para conseguir amarelos, os Guarani usam raízes de açafrão-da-terra, cascas de mangueira, serragem de cajarana e amoreira.
Também aproveitam casca de pakuri, goiabeira-do-mato inteira, cipó-de-macaco e uma planta chamada yvyra katu. A casca de cebola produz tons de ocre e alaranjado.
Cada parte da planta rende quantidades diferentes de cor e precisa de preparos específicos para funcionar bem.
Já o urucum é a estrela para tons vermelhos, usando frutos e sementes. O caroço de abacate produz alaranjado e existe uma planta chamada yvyra-pytã-pire que também dá vermelho.
Tem também a erva-mate que produz uma cor verde-musgo e cinza através das folhas. A erva-de-passarinho também dá verde. Como esses verdes vêm da clorofila, que é sensível à luz, eles precisam de cuidados especiais.
Por fim, o angico serve como exemplo principal para tons marrons. Cascas e madeiras costumam produzir essas cores terrosas que complementam outras tonalidades.
Desafios atuais dos corantes naturais
Ainda existem obstáculos para quem quer usar corantes naturais. Há poucos fornecedores especializados, pouca variedade de cores disponíveis e faltam informações técnicas sobre como usar cada tipo.
Para artesãos e pequenos produtores, isso significa dificuldade para encontrar materiais, variação entre diferentes lotes e necessidade de fazer muitos testes para conseguir cores padronizadas.
Uma observação importante: corantes que se dissolvem em óleos costumam ser mais estáveis que os que se dissolvem em água.
*Conteúdo gerado com auxílio de Inteligência Artificial, revisado e editado pela Redação Agro Estadão
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