Inovação
Megafábrica e pesquisa prometem ajudar Brasil a manter liderança em celulose
Construção da maior indústria do mundo e inovação em nanotecnologia reforçam potencial do País no mercado sustentável de biomateriais
Igor Savenhago | Ribeirão Preto (SP) | igor.savenhago@estadao.com
08/01/2026 - 05:00

O Brasil tem avançado de forma consistente para se manter entre os líderes mundiais na cadeia da celulose, combinando força industrial e inovação científica. Enquanto o Mato Grosso do Sul se prepara para abrigar o maior complexo industrial do planeta voltado ao segmento, que está sendo construído pela chilena Arauco, pesquisadores desenvolvem tecnologias que podem redefinir o uso do material em múltiplos setores.
Em Inocência (MS), o Projeto Sucuriú, em obras, será o maior investimento já realizado pela Arauco: US$ 4,6 bilhões. A fábrica, que terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano, deverá entrar em operação no final de 2027, marcando a estreia da companhia na produção do insumo no Brasil.
A unidade promete transformar a região em um dos principais polos globais do setor. Do total produzido, até 98% será exportado, com foco em mercados da Ásia, Europa e América do Norte. Para atender à demanda, a empresa investe em um sistema logístico de alta complexidade, que prevê o transporte de 9,6 mil toneladas diárias de celulose até o Porto de Santos, a mais de mil quilômetros de distância. A operação contará com trens de até 100 vagões, projetados especialmente para o escoamento do produto, além de rotas rodoviárias e hidroviárias complementares.
Tecnologia limpa e autossuficiência energética

Com área total de 3.500 hectares, às margens do Rio Sucuriú, a nova planta nasce sob o conceito de Indústria 4.0, totalmente automatizada e integrada digitalmente. “Todo o maquinário contará com controles de processos e simuladores para treinamentos operacionais e com a integração de soluções de conectividade, do processamento da madeira até o controle de qualidade da celulose, o que trará segurança e otimização para a operação e contribuirá para a excelência na eficiência do uso de recursos”, informa a empresa.
Outro destaque é a autossuficiência energética: a planta vai gerar mais de 400 megawatts (MW) de energia limpa, o dobro do necessário para seu funcionamento. O excedente — equivalente ao consumo de uma cidade de 800 mil habitantes — será injetado na rede nacional, ampliando a oferta de energia renovável.
Durante a construção, o projeto deve gerar 14 mil empregos diretos e indiretos, e, após a inauguração, manter 6 mil postos permanentes nas áreas industrial, florestal e logística. A Arauco já cultiva 400 mil hectares de eucalipto para garantir o abastecimento da planta.
Maior exportador mundial
Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o Brasil é o segundo maior produtor, atrás dos Estados Unidos, e o maior exportador mundial de celulose. Dados do anuário do setor em 2024 mostram que a área plantada cresceu 234 mil hectares, sendo 187,9 mil justamente no Mato Grosso do Sul, que desponta como nova fronteira de expansão da indústria.
“Esse crescimento acontece sobre áreas antropizadas, de forma a transformar pastos de baixa produtividade em plantações produtivas, que ainda prestam valiosos serviços ecossistêmicos, como a recuperação do solo, dos recursos hídricos, a recuperação da biodiversidade e a remoção de carbono da atmosfera”, afirma a Ibá.
Pesquisa e inovação em escala microscópica

Enquanto a Arauco ergue o maior complexo industrial de celulose do planeta, um outro tipo de revolução ocorre nos laboratórios brasileiros. Em Lorena (SP), a estudante Laura Lis, da Escola de Engenharia da Universidade de São Paulo (USP), conquistou o primeiro lugar no congresso internacional TAPPI Nano Conference 2025, na Espanha, com uma pesquisa sobre nanotecnologia de celulose — área que transforma o mesmo insumo produzido em larga escala no País em materiais de altíssimo valor agregado.
Orientada pelo professor Valdeir Arantes, a cientista desenvolveu uma rota tecnológica para a produção de nanocristais de celulose (CNS) utilizando hidrólise enzimática — um processo considerado “verde” por dispensar produtos químicos agressivos.
“O estudo mais que triplicou a produtividade da produção de nanoesferas de celulose (CNS) ao avaliar a influência de quatro fatores de produção: grau de desfibrilação, tempo de hidrólise, carga enzimática e teor de sólidos”, disse Laura à Agência Fapesp. “Com isso, foi possível fazer a otimização do processo de produção das CNS”.
Essas partículas microscópicas têm potencial para substituir plásticos, reforçar materiais leves, criar tecidos inteligentes e até compor dispositivos eletrônicos biodegradáveis, explica Laura, que realiza parte da pesquisa no Henry Royce Institute, no Reino Unido, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Do campo ao laboratório: um ciclo verde
Essa convergência entre indústria e pesquisa científica abre espaço para um novo ciclo de desenvolvimento sustentável. As florestas plantadas de eucalipto passam a ser vistas não apenas como fonte de papel e celulose, mas como base para biomateriais inteligentes.
Especialistas avaliam que o Brasil reúne condições únicas para liderar a bioeconomia florestal global. Além da produtividade recorde — o eucalipto brasileiro cresce até seis vezes mais rápido que o de regiões temperadas —, o País combina infraestrutura industrial de grande porte, recursos humanos qualificados e políticas públicas de incentivo à inovação.
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