Economia
Alta nos custos e crédito caro desafiam ano-safra 2025/2026
Margens apertadas vão exigir gestão mais eficiente no campo, aponta Itaú BBA
Paloma Santos | Brasília
03/07/2025 - 13:31

O ano-safra 2025/2026 deve exigir cautela por parte dos produtores rurais, diante da alta nos custos de produção — especialmente com fertilizantes e crédito — e do cenário global marcado por incertezas econômicas e geopolíticas. A avaliação foi feita pelo gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, Cesar de Castro Alves, durante a 11ª edição do Agro em Pauta, do Itaú BBA, nesta quinta-feira, 02, em São Paulo (SP). A previsão da consultoria é de margens mais apertadas e a necessidade de uma gestão eficiente de custos e preços no campo.
Segundo Alves, o principal impacto para o agro vem do encarecimento dos fertilizantes, intensificado por conflitos no Oriente Médio. “Em princípio, não estamos completamente preocupados com a disponibilidade de fertilizantes, mas sim com o preço deles.” Para o especialista, o milho safrinha pode ser o mais afetado, já que parte dos insumos ainda não foi adquirida.
Outro ponto crítico apontado é o custo elevado do crédito, sem perspectiva de queda na taxa de juros no curto prazo. “Juros mais altos, enormes incertezas econômicas e geopolíticas: um ambiente que a gente tem que ser, obviamente, mais cauteloso.”
Produtividade da soja
Apesar desses e outros desafios, como o aumento dos custos e a queda nos preços das commodities, a soja teve um desempenho acima do esperado em grande parte do país. Cesar destacou que, mesmo com margens apertadas, a boa produtividade ajudou os produtores a manter algum nível de rentabilidade.
Segundo ele, “a produtividade foi muito boa, com exceção só do Rio Grande do Sul e parte do sul do Mato Grosso do Sul, que sofreram bastante”. Nas demais regiões, especialmente do Mato Grosso do Sul para cima, a safra de soja surpreendeu positivamente, beneficiada por condições climáticas favoráveis.
O bom desempenho foi crucial para compensar a queda nos preços da oleaginosa, permitindo que muitos produtores fechassem a safra em uma situação melhor do que o inicialmente previsto.
Biocombustíveis
De acordo com a consultoria, o esmagamento global de soja deve bater recorde, puxado pela produção de biocombustíveis.“A gente enxerga que o Brasil tem grande potencial, seja como exportador de alimentos, mas seja também como produtor de matéria-prima para a produção de biocombustíveis”, disse.
Na avaliação dele, o mercado interno, impulsionado pela Lei de Combustível do Futuro, com as recentes alterações feitas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), e o cenário internacional, que favorece as exportações, especialmente de proteínas animais — beneficiada com a produção de farelo —, reforçam essa projeção positiva para o médio e longo prazo.
Outras culturas
Para o milho, a situação é mais delicada, de acordo com a consultoria. A produção está elevada, mas há risco de excedente, mesmo com exportações em alta. “Mesmo que a gente consiga dar vazão a todo o milho, a gente ainda fica com um estoque razoavelmente bom no final”, disse.
Outro destaque é o cenário atual do arroz é, com oferta elevada e estoques consideráveis. O gerente da Consultoria Agro do Itaú enfatizou que o governo tem sinalizado a intenção de adotar medidas para estimular a formação de estoques privados, com uma possível pré-compra de até 500 mil toneladas, o que ajudaria a reduzir o excedente atual — estimado em 1,3 milhão de toneladas, segundo a Conab.
No entanto, Alves destacou que a medida ainda não foi confirmada e que há pressão do setor para que o Ministério da Economia autorize a operação, o que considera difícil, em razão do contexto político e a sensibilidade em torno de políticas públicas para o arroz. Questionado sobre o tema, Alves disse que “qualquer tipo de política pública pode mudar o cenário”.
Além dos grãos e biocombustíveis, o Itaú BBA também aponta desafios para culturas como o algodão e o trigo, pressionadas por custos elevados e concorrência externa.
Otimismo para carnes
Já no setor de proteínas animais, a expectativa é de manutenção das margens e possível renovação de recordes de exportação, sustentados por custos de ração mais baixos e demanda internacional firme. De acordo com o Itaú BBA, a estabilidade sanitária do Brasil deve continuar fortalecendo a competitividade da carne de frango no mercado global.
“Para as proteínas, a gente tem uma visão bem otimista”, disse Alves, destacando também a retomada da competitividade brasileira na exportação de carne de frango, apesar das preocupações com a gripe aviária.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Economia
1
Exportações no ritmo atual podem esgotar cota chinesa da carne bovina antes do 3º tri
2
Países árabes viram alternativa à China para a carne bovina brasileira
3
Aliança Agrícola paga R$ 114 milhões a investidores; advogada alerta produtores sobre risco jurídico
4
Por que a China rejeitou o pedido do Brasil para redistribuir cotas de carne bovina?
5
China sinaliza forte demanda por importações de soja em 2026
6
Governo estuda regular cota de exportação de carne à China
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Economia
Piscicultura brasileira ultrapassa 1 milhão de toneladas em 2025
Exportações de peixe de cultivo subiram em valor e caíram em volume no ano passado
Economia
Tarifas globais dos EUA voltam para 10% e entram em vigor por 150 dias
Carne bovina, tomates, açaí, laranjas e suco de laranja ficam de fora das tarifas por necessidades da economia americana
Economia
Exportações de carne bovina já superam todo fevereiro de 2025 em apenas 13 dias
Exportações de carne de frango e suína também avançaram, com alta na média diária de 32,69% e 26,41%, respectivamente
Economia
China não habilitará novos frigoríficos brasileiros pelos próximos três anos, afirma assessor do Mapa
Setor ainda espera habilitações e quer regulação de cota brasileira para afastar questionamentos de formação de cartel
Economia
Nos EUA, venda de suínos beira recorde; ausência da China pesa sobre carne bovina
Sem a China, exportações norte-americanas de carne bovina caíram 12% em volume e 11% em receita em 2025
Economia
Fila de caminhões trava escoamento da safra pelo porto de Miritituba; veja o vídeo
Comitiva da Famato constata 25 quilômetros de fila em trecho da BR-163 antes do porto; caminhoneiros relatam falhas na organização do fluxo;
Economia
Exportação de pescados do Brasil deve somar US$ 600 mi após alívio tarifário dos EUA
Abipesca prevê retomada em 2026, com recuperação de mais de 5 mil empregos e recomposição da capacidade produtiva do setor.
Economia
Brasil e Índia fecham acordo para ampliar cooperação em biocombustíveis
Acordo prevê a criação de uma plataforma de colaboração voltada ao intercâmbio de conhecimento e cooperação tecnológica