Clima
Onda de frio derruba temperaturas com alerta para geada e neve
Risco é maior para o RS, onde 132 municípios foram afetados por excesso de chuvas; Emater monitora perdas na safra de inverno
Paloma Santos | Brasília
23/06/2025 - 13:10

A partir desta segunda-feira, 23, o Rio Grande do Sul volta a enfrentar um cenário climático crítico. Após chuvas volumosas na última semana, uma nova frente fria se instala no estado, trazendo instabilidade, queda acentuada de temperatura, risco de geadas e até possibilidade de neve em regiões de maior altitude.
De acordo com boletim da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, divulgado na manhã desta segunda, 132 municípios foram afetados no estado. Há 6.258 pessoas desalojadas e 1.071 permanecem em abrigos. Foram confirmados quatro óbitos, dois feridos e uma pessoa continua desaparecida. Até o momento, 733 pessoas e 139 animais foram resgatados pelas equipes de emergência.
Risco de neve e geada para região Sul
Segundo a meteorologista Desirée Brandt, da Nottus, a semana começa com chuvas pontuais entre o oeste de Santa Catarina e do Paraná, avançando para o norte do Rio Grande do Sul, incluindo a região serrana. Embora os volumes previstos não se comparem aos 250 mm registrados na semana anterior, o alerta segue mantido. “Qualquer chuva mais forte nesse momento, especialmente na região serrana, representa risco, porque o solo está saturado e os rios ainda elevados”, afirma.
Na terça-feira, 24, o cenário muda com a chegada de uma forte massa de ar frio. “Essa alta pressão continental tem potencial para derrubar significativamente as temperaturas. Esperamos mínimas de até -2°C no sul do Paraná e valores negativos também no Planalto de Santa Catarina e na Serra Gaúcha, incluindo Vacaria”, explica Brandt. O risco de geada é elevado, especialmente no sudoeste do Paraná, onde ainda há lavouras de milho vulneráveis.
Além disso, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alertas meteorológicos para os três estados do sul.
Há perigo potencial de neve para o Sul de Santa Catarina e também para as regiões gaúchas da Serra, Nordeste e Metropolitana de Porto Alegre. A previsão é de ocorrência do fenômeno entre 20h desta segunda e 6h de terça-feira (24).

Haverá intensificação dos ventos nas regiões litorâneas, com risco de deslocamento de dunas sobre construções, na faixa que se estende desde o Extremo-sul do litoral gaúcho até o Norte do Paraná.
Onda de frio deve permanecer sobre o Rio Grande do Sul até 10h de sexta-feira (27). As temperaturas podem ficar até 5 °C abaixo da média e há recomendação para cuidados redobrados com as populações vulneráveis.

Emater monitora impactos nas lavouras gaúchas
Claudinei Baldissera, diretor técnico da Emater-RS, afirmou, em entrevista ao Agro Estadão, que os maiores volumes de chuva se concentraram na região central do estado, afetando tanto áreas urbanas quanto rurais. “Tivemos impactos em infraestruturas como estradas rurais, pontes e acessos. Ainda não é possível mensurar os danos nas lavouras”, disse. Os levantamentos técnicos começaram no fim da semana passada e estão em andamento.
A instabilidade climática ocorreu em um momento crítico do calendário agrícola. A Emater estima cerca de 1,2 milhão de hectares de trigo em fase de semeadura no RS, além de 200 mil hectares de canola e áreas cultivadas com aveia branca e cevada. “Estamos em uma janela importante para a safra de inverno. O ideal agora é que o agricultor aguarde a recuperação do solo antes de retomar as semeaduras”, orienta Baldissera.
Ele também destacou cuidados específicos para as pastagens, tanto as cultivadas quanto as naturais. A principal recomendação é evitar o pastoreio contínuo, o que pode degradar o solo e prejudicar a forragem. “Onde for possível, o produtor deve evitar o pisoteio excessivo do gado em áreas encharcadas, fazendo manejo rotativo”, afirma.
Para as lavouras de inverno, ele reforça que, apesar de ainda não haver dados consolidados de perdas, é essencial esperar que o solo atinja a capacidade de campo ideal.
“Estamos dentro da janela agroclimática para o plantio de grãos de inverno, como trigo e canola. O mais prudente agora é esperar que o solo atinja a umidade ideal, garantindo boa germinação e desenvolvimento inicial das lavouras.”
Baldissera reforça que o momento exige cautela, planejamento e atenção às condições locais. “Cada propriedade tem uma realidade e a tomada de decisão deve considerar a aptidão da área e sua vulnerabilidade frente aos eventos climáticos extremos, que têm se repetido com frequência no estado.”
Produtores temem novos prejuízos
Para Graziela Camargo, produtora rural e coordenadora do movimento SOS Agro, a atual situação é agravada por um histórico recente de tragédias climáticas no estado. “Ainda temos rios assoreados e solos fragilizados pelas enchentes anteriores. Isso prejudica as cidades e também destrói o preparo do solo para a próxima safra, que começa em agosto”, afirma.
Ela também faz críticas à atuação do Governo Federal. “O Rio Grande do Sul é, sim, diferente dos outros estados. Isso precisa ser reconhecido. Não se pode mais ignorar os efeitos das mudanças climáticas sobre a nossa produção”, finaliza.
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