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Agricultura

Javalis avançam sobre lavouras e nascentes em Bonito (MS) 

Espécie exótica invasora causa prejuízos ao agro, ameaça animais nativos e pressiona autoridades por medidas de controle

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Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com

03/10/2025 - 05:00

Como não têm predadores, javalis se reproduzem sem controle. Foto: Adobe Stock
Como não têm predadores, javalis se reproduzem sem controle. Foto: Adobe Stock

Bonito, no Mato Grosso do Sul, enfrenta uma invasão silenciosa que ameaça seu maior patrimônio: a natureza. O município, reconhecido mundialmente pelas águas cristalinas, vê crescer a presença de javalis, espécie exótica invasora que se espalha pelo campo e já provoca prejuízos para o agronegócio, à fauna e à flora local. 

A espécie estrangeira, extremamente adaptável, se reproduz com grande velocidade e encontrou — não só em Bonito, mas em grande parte o território brasileiro — as condições ideias para viver: água e alimento em abundância, com ausência de predadores. Segundo especialistas, nem mesmo a onça-pintada se atreve a atacá-los. As manadas ultrapassam 50 animais.

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O pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Conservação da Fauna (NPC), Paulo Bezerra, explica que os javalis — e os “javaporcos”, resultado do cruzamento entre o animal trazido para o Brasil por criadores e o porco doméstico — são onívoros selvagens, de hábitos noturnos. “Não é um animal silvestre, não tem interação ecológica. O javali não faz nenhum bem”. Para o pesquisador, trata-se de um animal que não contribui para a manutenção dos processos naturais locais. Ao contrário, é extremamente prejudicial aos biomas brasileiros. 

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) apontam para 1,183 milhão de javalis abatidos legalmente até 2024. Os números, baseados nas informações declaradas pelos CACs (sigla para Colecionadores, Atiradores desportivos e Caçadores), são, atualmente, a única fonte de informações sobre o quantitativo desses animais.

Distribuição dos javalis segundo dados de caçadores. Fonte: SIMAF/IBAMA – 2022

Prejuízos em lavouras bonitenses

Apesar de ser chamada de capital do ecoturismo, a cidade tem forte produção agropecuária. O setor responde por mais de 32% do PIB municipal, segundo o Sindicato Rural de Bonito (SRB). Além disso, 90% dos passeios turísticos acontecem em propriedades rurais, onde preservação, produção agrícola e turismo coexistem. 

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A estimativa de lideranças locais é que 14% das lavouras de milho tenham sido perdidas neste ano devido aos ataques dos javalis. Segundo a secretária executiva do Sindicato Rural, Michele Flores, praticamente todo o território bonitense já registrou a presença dos javalis. “Na época do milho, os prejuízos são maiores. Eles invadem plantações e também causam o turvamento de nascentes e assoreamento de rios”, afirma.

No entanto, em algumas áreas, os danos são ainda maiores. O agricultor Vinicius Correa de Araújo registrou cerca de 60% de comprometimento da plantação de milho, que ainda nem estava pendoado. Com um drone, ele identificou buracos deixados pelos inconvenientes visitantes.

Foto de drone mostra a destruição dos javalis em lavoura de milho em Bonito (MS).
Foto: Vinícius Correa de Araújo/Arquivo pessoal

Ameaça às nascentes

Bruno Leite, produtor rural e empreendedor do segmento de turismo, conta que teve perdas de 5% a 10% na safrinha de milho. Mas, na avaliação dele, o problema extrapola o agronegócio.

Além de lavouras, os javalis destroem nascentes e atacam animais nativos, como tatus, cotias e aves que fazem ninhos no solo. “Eles comem qualquer coisa que esteja no chão: ovos de ema, de quero-quero e filhotes de outros animais. Não têm predadores naturais aqui”, explicou o empreendedor.

O pesquisador Paulo Bezerra explica que a dieta da espécie exige um consumo de proteínas muito maior do que espécies nativas equivalentes, como os taiaçuídeos (queixadas e catetos). Por isso, o seu comportamento predatório é tão prejudicial. “O teor de exigência de proteína no javali é de 12%. O nosso taiaçuídeos precisa de 8%. Ou seja, javali vai caçar. Caça rato, caça ovo, caça filhote de veadinho, caça”, detalha.

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Ele alerta para a importância do controle populacional, já que os animais se reproduzem duas vezes por ano. “A sequência é essa: no primeiro ano, o produtor vê os rastos. No, segundo ano, vê o bicho. No terceiro, ele [o animal] come um pouquinho da roça; no quarto ano, ele [agricultor] não consegue plantar mais”, afirma. “Aí, o cara larga a cadeia do milho, vai plantar laranja, vai plantar cana, vai plantar eucalipto, mas o cara se vira, não vai morrer por causa do javali. Mas as nossas unidades de conservação vão, porque não dá pra fazer rotação de cultura nelas”, reforça.

Ainda segundo especialista, quando a destruição se torna visível, significa que uma cadeia de danos prévios já ocorreu. “O javali, antes de atingir a nascente, já comprometeu tudo o que ocupa a faixa entre 20 centímetros abaixo do solo e 80 centímetros acima dele: roedores, cobras, ninhos de aves, lesmas. O que se observa na superfície é apenas a expressão final de uma degradação muito mais ampla”, enfatiza.

Rastro de destruição do javalis perto de nascentes em Bonito (MS).
Foto: CAC Gilvan Goulart/Arquivo pessoal

Para Paulo Sérgio Gimenes, engenheiro agrônomo e gestor de Desenvolvimento Rural da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), trata-se de uma ameaça tripla: à biodiversidade, à pecuária e à saúde pública. Ele relata que as populações de javalis têm ocupado áreas estratégicas para os recursos hídricos da Serra da Bodoquena. “Esses dias, um produtor levantou um drone termal e contou uns cinco bandos, cada um com cerca de 50 animais”.

O gestor ressalta que o controle deve ser imediato, com apoio de pesquisa científica e uso de armadilhas. “Quando você anda numa área de mata, às vezes você pega setores que você vê todo revirado, mas todo revirado mesmo. Toda a microvida que poderia existir ali e de animais que se reproduzem no chão ou pequenos animais, se não escapar, é consumida, porque os bandos são grandes. Então, é necessário fazer o controle”, reforça.

Risco ao turismo

As lideranças locais temem o impacto da presença dos javalis sobre a imagem de Bonito. O rio Sucuri, um dos mais cristalinos do mundo e cartão-postal do município, já registrou presença da espécie em suas margens. 

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Segundo fontes ouvidas pela reportagem, armadilhas fotográficas instaladas em áreas de visitação flagraram javalis se aproximando de pontos turísticos. Porém, ainda não há registros em trilhas ecológicas e locais de passeios.

O avanço dos animais motivou a criação de comissões locais e estaduais para discutir soluções. No município, o Conselho de Turismo abriu um grupo específico sobre o tema, que atua em conexão com a comissão estadual do Mato Grosso do Sul. O objetivo é articular produtores, setor turístico e caçadores credenciados para enfrentar a praga de forma conjunta.

Já a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedemadesc) do Estado, questionada pelo Agro Estadão sobre as medidas de controle implementadas, recomendou procurar o “Ibama, a Embrapa ou o Governo Federal”.

Rio Sucuri, em Bonito (MS), é um dos mais cristalinos do mundo. Foto: Adobe Stock

Projeto de lei estadual e regras do Ibama

Hoje, a caça controlada é a única forma de manejo autorizada legalmente. O controle populacional é autorizado pelo Ibama por meio de normativas específicas. Para realizar esse controle, é necessário obter autorização e registro como controlador. 

Em Bonito, estima-se que entre 90 e 120 pessoas estejam habilitadas. Mesmo assim, segundo as fontes ouvidas pelo Agro Estadão, o trabalho é visto com desconfiança por parte da população. “Existe um grupo da sociedade que ainda vê o javali como um porquinho, e não como uma espécie invasora. Isso dificulta a ação dos controladores, que já são poucos”, diz Michele Flores.

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Para o Sindicato Rural, campanhas de conscientização são urgentes. A ideia é esclarecer a população sobre os riscos ambientais, econômicos e sanitários causados pela espécie. “Se não houver uma proposta bem estruturada de manejo, o prejuízo será muito maior no futuro”, destaca a secretária-executiva do SRB.

O próprio Ibama já reconhece os javalis como espécie invasora, pelo risco ambiental que representam. Em uma audiência pública realizada no fim de agosto na Câmara dos Deputados, a diretora do Uso Sustentável de Biodiversidade e Florestas, Lívia Karina Martins, destacou que o órgão já trabalha no desenvolvimento de um sistema informatizado para agilizar a concessão de autorizações e dar maior rastreabilidade ao processo. “Não há o que se falar em não existir controle, ou não há o que se falar em não erradicar a espécie aqui no Brasil”, afirmou.

PL reconhece o javali como praga e institui controle populacional da espécie

O avanço da espécie no Estado motivou o deputado João Henrique (PL) a apresentar, em junho deste ano, um projeto de lei que reconhece o javali como praga e espécie invasora em Mato Grosso do Sul. A proposta está em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Assembleia Legislativa.

O texto prevê medidas de controle populacional, incluindo captura, abate e monitoramento, sempre sob autorização dos órgãos ambientais. Proíbe métodos cruéis, como envenenamento, e estabelece regras para uso de armadilhas.

Atualmente, somente São Paulo, Goiás e Santa Catarina são os únicos estados que já aprovaram leis próprias com diretrizes para o controle e erradicação do javali. Mato Grosso do Sul e Minas Gerais também discutem políticas regionais.

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