Sustentabilidade
Embrapa aposta na canola tropical como alternativa para produção de biodiesel
Projeto BRSCanola quer reduzir dependência de sementes importadas e abrir espaço para cultura na segunda safra
Paloma Santos
16/06/2025 - 08:00

A Embrapa Agroenergia, em parceria com a multinacional Advanta Seeds, está desenvolvendo os primeiros híbridos tropicais de canola adaptados ao clima brasileiro. O projeto, batizado de BRSCanola, busca criar uma alternativa viável ao milho na segunda safra, diversificar a matriz de oleaginosas e atender à crescente demanda por óleos vegetais voltados à produção de biocombustíveis, como o biodiesel e o SAF (combustível sustentável de aviação).
“Desde 2015, identificamos a canola como uma opção estratégica para diversificar a produção nacional, ainda muito concentrada na soja”, afirma Bruno Laviola, pesquisador da Embrapa Agroenergia e líder do projeto. “A soja responde por cerca de 75% do biodiesel produzido no Brasil. Precisamos de alternativas com escala e adaptadas ao nosso clima”, justifica.
A proposta é ambiciosa: cruzar linhagens tropicais desenvolvidas pela Embrapa com materiais da Advanta, originários da Austrália, para gerar híbridos resistentes a doenças como a canela preta e adaptados ao regime hídrico do Cerrado. A expectativa é avaliar 100 combinações e selecionar os melhores híbridos para liberação comercial a partir de 2027.

Bruno Marques, diretor-executivo da Aprosoja Goiás, conta que, apesar de desconhecer produtores da oleaginosa no estado, vê a tropicalização como uma alternativa interessante para a segunda safra no Cerrado e acredita no potencial das cultivares.
“A gente viu nesses anos a inserção do gergelim, por exemplo, e das cultivares lançadas pela própria Embrapa de arroz em terras altas, que estão vindo com uma expectativa muito boa. Então, creio que vai ser interessante sim”, diz.
Marques lembra que a viabilidade vai além da produtividade por hectare e envolve uma análise mais completa, como o custo de produção, insumos, manejo de pragas e doenças, e o impacto na próxima cultura. “São muitos fatores a considerar, mas a gente sabe que essas parcerias e essas construções que a Embrapa faz vem com base em muito estudo, em muita escuta e temos muita confiança”.
Híbrido brasileiro
A canola, planta da família das crucíferas, como o repolho e a couve, do gênero Brassica, já tem espaço nas lavouras brasileiras, sobretudo do Sul do País, contudo, elas usam sementes vindas, principalmente, da Oceania.
O projeto é uma iniciativa pioneira para o mercado brasileiro, visto que a ausência de híbridos adaptados às condições tropicais tem sido uma das principais barreiras para a expansão da cultura e, principalmente, para o aumento da média de produtividade de grãos.
Para Ana Luiza Scavone de Camargo, líder de Desenvolvimento de Novos Negócios nas Américas da Advanta, essa parceria é uma oportunidade valiosa que utiliza o melhor do conhecimento científico existente entre as duas instituições. “Isso permitirá acelerar o desenvolvimento de materiais genéticos mais resilientes e produtivos, fundamentais para o avanço da cadeia produtiva”, prevê a executiva. A parceria conta também com a Fundação Arthur Bernardes (Funarbe) para apoio administrativo e financeiro à execução das atividades
Os híbridos serão testados em campo em diferentes regiões produtoras, como Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste. Segundo o líder do projeto na Embrapa, as primeiras linhagens nacionais passaram por seis ciclos de seleção e apresentaram desempenho promissor. “Queremos desenvolver uma planta com genética nacional, mais tolerante ao estresse hídrico e às altas temperaturas.”
Crescimento acelerado
O avanço da canola já é visível nos números. A área plantada saltou de 40 mil hectares em 2020 para 250 mil em 2024. A projeção da Embrapa é alcançar até 1 milhão de hectares até 2030 — o equivalente a pouco mais de 2% da área cultivada com soja no país.
“É um crescimento factível, principalmente se pensarmos no uso da canola na safrinha. Trata-se de uma cultura de ciclo curto, com valor de mercado e múltiplas finalidades: alimentação, óleo industrial e biocombustível”, diz Bruno Laviola.
Produtividade e retorno ao produtor
Atualmente, a produtividade média da canola no Brasil gira em torno de 1.500 kg/ha, mas a meta da Embrapa é atingir 2.500 kg/ha até 2035. “Esse aumento só virá com pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologia. A chave é levar esse conhecimento até o agricultor, com estratégias que resultem em adoção real no campo”, pontua o pesquisador.
O calendário do projeto prevê dois anos de cruzamentos e testes de campo. Se os resultados forem positivos, os primeiros híbridos brasileiros poderão estar à disposição dos produtores em cerca de três a quatro anos.
“Acreditamos que a canola tropicalizada será uma alternativa rentável para a segunda safra. E, mais que isso, pode colocar o Brasil como protagonista global na bioeconomia”, conclui o pesquisador.
Newsletter
Acorde
bem informado
com as
notícias do campo
Mais lidas de Sustentabilidade
1
TCU indica que 60% da soja do biodiesel não tem comprovação ambiental
2
Por que esta 'coroa' vermelha do sertão está sob grave ameaça?
3
Pau-de-cores: a árvore que dá madeira nobre e tinta
4
Tudo sobre a pera perfumada que nasce no Cerrado
5
Esse felino é tão raro que é conhecido como gato-fantasma
6
Biodiesel: Brasil tem maior produção da história em 2025 e projeta novo salto
PUBLICIDADE
Notícias Relacionadas
Sustentabilidade
Frentes parlamentares lançam coalizão para priorizar biocombustíveis
Grupo quer incluir metas para o setor no Mapa do Caminho para a transição energética do governo federal
Sustentabilidade
Entidades alertam para risco ambiental com saída de traders da Moratória da Soja
Organizações da sociedade civil afirmam que o cenário compromete diretamente a meta brasileira de zerar o desmatamento até 2030; Abiove não comentou o assunto
Sustentabilidade
Citrosuco inicia testes com biometano em sua frota de caminhões
Uso do combustível começará em três caminhões por meio de um projeto piloto que vai operar ao redor das áreas de Matão e Araras (SP)
Sustentabilidade
O feijão que melhora a terra e reduz emissões no pasto
Feijão-guandu combina tradição alimentar e agricultura regenerativa, fixando nitrogênio e acelerando a recuperação do solo
Sustentabilidade
TCU indica que 60% da soja do biodiesel não tem comprovação ambiental
Corte apontou problemas no cumprimento do Renovabio e no mercado de CBios, além de recomendar mudanças ao MME e à ANP
Sustentabilidade
Esse felino é tão raro que é conhecido como gato-fantasma
Com apenas 243 adultos no Brasil, o raro gato-palheiro-pampeano sobrevive nos campos sulinos e atua como termômetro da saúde do bioma
Sustentabilidade
Varejo europeu cobra tradings após fim da Moratória da Soja
Supermercados europeus dão prazo até 16 de fevereiro para empresas comprovarem controle do desmatamento na Amazônia
Sustentabilidade
Pau-de-cores: a árvore que dá madeira nobre e tinta
Capaz de crescer no sol ou na sombra, a taiúva é ideal para restaurar pastos degradados e alimentar animais silvestres com seus frutos