Sustentabilidade
Conheça a fazenda baiana que já foi hospital de guerra e hoje produz cacau sustentável
A apenas 70 quilômetros de Salvador, história e sustentabilidade se encontram nesta propriedade, que alia bananeiras, sistema agroflorestal e até serpentes à produção do fruto.
Daumildo Júnior* | São Francisco do Conde (BA) | daumildo.junior@estadao.com
06/12/2025 - 05:00

O primeiro vislumbre da sede da Fazenda Engenho D’Água já revela o seu passado histórico. A cerca de 70 quilômetros de Salvador (BA), a propriedade é da época do Brasil Colônia. Os primeiros registros são do século XVII. Fixado no Recôncavo Baiano, o local já produziu cana-de-açúcar e até serviu como hospital de guerra durante os episódios da chamada Independência da Bahia — evento que consolidou a Independência do Brasil com a expulsão dos portugueses de Salvador, em 1823. Com ares mais tranquilos, hoje a propriedade se destaca na produção de cacau sustentável.
O dono é o veterinário e administrador de empresas Mário Ribeiro, baiano que logo indica: “Isso aqui não é qualquer fazenda”. A referência é devido a história do local. E ele ainda completa: “O Brasil nasceu no Recôncavo Baiano”. O reconhecimento veio com um prêmio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pela restauração e preservação da casa-sede e da igreja.
Além da parte turística e de eventos, já que é possível visitar ou locar parte do espaço. A receita principal vem da atividade rural, principalmente do cacau. Dos 350 hectares, 57 são dedicados ao cultivo, o que gera uma produção anual de aproximadamente 60 toneladas. Um diferencial é a forma de produção, com uso de técnicas de agricultura regenerativa, além dos cacaueiros estarem inseridos no chamado Cabruca — um sistema agroflorestal de produção na Mata Atlântica.
Esse processo, além da parte social e ambiental, fez com que a fazenda entrasse sem dificuldades no programa Cocoa Plan, da Nestlé. Na prática, o programa oferece até US$ 100 a mais por tonelada de cacau como bonificação. “As moageiras me convenceram de que a minha fazenda estava em plena condição de fazer parte do programa, já atendia todos os pré-requisitos. Tanto que eu entrei no programa sem precisar fazer nenhuma modificação no nosso método de trabalho e na nossa estrutura”, conta Ribeiro ao Agro Estadão.

Banana com cacau dá certo?
Sim, e não é só em receitas. Uma das práticas agrícolas utilizadas pela Engenho D’Água é o cultivo de banana junto aos cacaueiros. Depois de colhidos os cachos da fruta, a bananeira vira matéria orgânica, rica em água e nutrientes para o solo. “Inclusive, existe um processo de recuperação de áreas degradadas feitas através do plantio da bananeira”, comenta o produtor, ao citar o exemplo dessa prática em outras áreas da Bahia.
Mas há todo um ecossistema para acomodar os cacaueiros. Além das bananeiras, árvores nativas são mantidas para que possam oferecer conforto térmico. Basicamente, elas evitam que o cacau pegue sol o dia todo, o que poderia prejudicar a planta ou acelerar o amadurecimento do fruto. Nesse processo, até mesmo os animais silvestres auxiliam, como as cobras. “Eu não deixo matar nenhuma. Elas ajudam no controle de roedores”, revela o dono da fazenda.
Como explica o gerente de Agricultura para Cacau na Nestlé Brasil, Igor Mota, outra vantagem dos produtores que participam do programa é o apoio técnico gratuito. Uma das instruções passadas é a reutilização da casca do cacau.
“A gente tem treinamentos e orientação para produtores também para a compostagem do casqueiro. A casca do cacau para alguns produtores é um problema. A gente torna ela uma solução. O produtor recebe treinamento para que ele faça uma compostagem dessa casca e a utilize como fertilizante. Então, ele produz o fertilizante orgânico na propriedade e deixa de comprar parcialmente o fertilizante químico”, destaca o gerente. Outra iniciativa, também nessa linha de ajuda, é a distribuição de mudas mais produtivas.
Na busca pelo cacau sustentável
A fazenda baiana é uma das 6,5 mil propriedades que integram o Cocoa Plan. Hoje, todo o cacau comprado pela multinacional no Brasil vem desses estabelecimentos, que são sustentáveis. Apesar de ser a maior compradora do produto no Brasil, cerca de 40% do mercado, nem todo o cacau usado na empresa vem dos produtores locais. Por isso, a intenção com o programa é aumentar a compra de cacau sustentável brasileiro. E isso vem acontecendo de duas formas: captação de novos produtores e aumento de produtividade das propriedades participantes.

“O nosso desafio é ter 100% do nosso cacau vindo de propriedades sustentáveis. […] E hoje, 88,9% do cacau consumido pela empresa a nível global vem de propriedades sustentáveis”, diz Mota.
No quesito de produtividade, de 2021 até 2024, a média dos participantes do programa saltou 60%. Saíram de 370 quilos por hectare no ano para 590. “Os números de 2025 mostram que, muito provavelmente, vamos romper a barreira dos 600 quilos por hectare ano na média”, sinaliza o gerente, que relaciona esse aumento ao investimento técnico oferecido aos produtores.
Quanto aos novos produtores, os requisitos para fazer parte podem ser acessados com o Theo, uma assistente virtual da Nestlé disponível pelo WhatsApp no número (27) 99901-1960. Alguns critérios são:
- não produzir cacau em área de desmatamento;
- trabalhador tem que ter carteira assinada;
- crianças que vivem na propriedade têm que frequentar escola.
“Qualquer produtor de cacau do Brasil pode fazer parte. Alguns desafios que a gente tem é a questão geográfica. Então, para alguns, pode ser desafiador entregar o cacau dele a uma filial de compras de um parceiro. Mas o programa é aberto para qualquer produtor”, reforça.
*Jornalista viajou a convite da Nestlé Brasil
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