Pecuária
Ração Nutratta volta ao centro das atenções com relatos de cegueira em potros
Após a morte de 284 cavalos, ração volta a ser investigada por possíveis doenças congênitas em potros; empresa não se pronunciou sobre o tema
Paloma Santos | Brasília | paloma.santos@estadao.com
30/01/2026 - 05:00

A maior tragédia já registrada na equinocultura brasileira começa a revelar outros desdobramentos que vão além da morte de centenas de cavalos. Pesquisadores das universidades federais rurais de Pernambuco (UFRPE) e Rio de Janeiro (UFRRJ) vão dar início a uma investigação para apurar se a ingestão de ração da Nutratta Nutrição Animal Ltda, contaminada pela planta crotalária, pode estar relacionada ao aumento dos casos de doenças congênitas em potros — como microftalmia (olhos menores que o normal) e cegueira. Contactados pelo Agro Estadão, o Ministério da Agricultura (Mapa) e o advogado que representa a empresa Nutratta não comentaram o assunto.
Segundo a última atualização do Mapa, pelo menos 284 equinos morreram devido ao consumo de monocrotalina, um alcaloide pirrolizidínico altamente tóxico encontrado em plantas do gênero Crotalaria. A substância foi encontrada, no ano passado, em lotes da ração Foragge Horse, produzida pela Nutratta, após investigações conduzidas por laboratórios universitários em parceria com o Mapa.
Agora, um outro estudo vai se debruçar sobre casos envolvendo potros nascidos de animais que sobreviveram à intoxicação causada pela ração, entre fevereiro e abril de 2025.
Potros cegos acendem alerta

Nos últimos meses, criadores começaram a relatar no grupo de WhatsApp “Vítimas da Nutratta” o nascimento de potros com alterações congênitas, sobretudo nos olhos. Entre os casos observados, estão microftalmia e perda total da visão — levantando a hipótese de que a intoxicação das éguas, mesmo em níveis subclínicos, possa ter afetado o desenvolvimento fetal.
Produtores de diferentes Estados relataram a mesma situação. Filhotes cegos, nascidos de matrizes distintas, mas com algo em comum: o consumo da ração Nutratta no primeiro semestre do ano passado. O Agro Estadão conversou sobre o assunto com dois criadores e uma médica-veterinária, que não quis se identificar.
A profissional, que atua em vários haras e centros de treinamento do interior paulista, conta que viu muitos animais morrerem após a ingestão do produto. “O que eu mais vi foi égua e potro morrendo. Ou amanhecendo morto, ou apresentando sinal neurológico… Morriam muito rápido. Vi animal sangrando pelos olhos, pela narina. E esses que vieram de forma aguda, nenhum a gente conseguiu salvar”, conta.
Segundo a veterinária, sete potros já nasceram cegos nas propriedades atendidas por ela. “Os animais que não apresentaram sintomas, mas que tiveram exames alterados, são esses que estão parindo agora e os potros estão vindo cegos”, explica. Os proprietários dos animais preferiram não dar entrevista.
O criador paulista Marcelo Majó registrou no grupo o caso que ocorreu em seu sítio. Além de ter perdido quatro cavalos que adoeceram com a ração contaminada, agora cria Dory — uma potra praticamente cega. O filhote de dois meses foi gerado a partir de um embrião transferido para uma égua que consumiu o alimento, mas não apresentou sinais clínicos.
“Nela não aconteceu nada. Não teve reação nenhuma, é uma égua linda”, diz. “Ela não comeu a ração aqui, mas comeu onde o embrião foi transferido, numa propriedade em que morreram muitos animais”, complementa.
Majó estima prejuízo direto de cerca de R$ 180 mil, somando a morte dos cavalos, gastos com tratamentos e o valor do embrião. “Só de tratamento, gastei R$ 15 mil. Os animais que eu perdi davam uns R$ 80 mil. Esse embrião que eu mandei fazer hoje custaria R$ 70 mil. E a potra nasceu cega”, lamenta.
Apesar dos relatos, o pesquisador da UFRRPE Fábio Mendonça pede cautela. Do ponto de vista científico, segundo ele, ainda não é possível estabelecer relação direta entre a intoxicação das éguas e as malformações oculares nos potros. “Não observei, de forma comprovada, quadros de microftalmia ligados diretamente a esse episódio”, afirma. “É cedo para estabelecer essa relação de causa e efeito, mas não seria nada absurdo imaginar que tenha sim uma relação”.
O pesquisador explica que os alcaloides pirrolizidínicos têm ação cumulativa e podem provocar lesões crônicas, mesmo após a interrupção do consumo da ração contaminada. “São toxinas que permanecem no organismo e cujo impacto pode se manifestar ao longo do tempo”, diz.
Em busca dessas respostas, Mendonça e o professor Daniel Ubiali, da UFRRJ, vão iniciar um estudo para avaliar as possíveis sequelas em potros gerados por animais que consumiram a ração contaminada por monocrotalina. “Essa tragédia não terminou com o fim das mortes”, afirma Fábio Mendonça. “Ainda estamos começando a entender o alcance real das sequelas deixadas nos animais que sobreviveram.”
O primeiro passo, segundo eles, é reunir informações dos casos. Por isso, pedem que criadores de todo o País que tenham potros com malformações e histórico de consumo da ração participem da pesquisa gratuitamente. Os interessados podem entrar em contato com os pesquisadores pelos e-mails danielubiali@ufrrj.br ou fabio.mendonca@ufrpe.br.
Falha no controle de qualidade

O artigo “Reflexões sobre a tragédia da contaminação da ração de equinos por monocrotalina no Brasil”, publicado na revista Pesquisa Veterinária Brasileira, aponta que a contaminação da ração da Nutratta provavelmente ocorreu a partir de insumos agrícolas, como a soja, misturados a sementes de Crotalaria.
A planta é usada com frequência como adubo verde por sua capacidade de fixar nitrogênio e combater nematoides no solo, mas sua presença é proibida na alimentação animal e humana. A recomendação é que, após o uso, toda a plantação seja retirada completamente da área para receber outra cultura.
“Se o manejo não é feito corretamente, a semente da crotalária pode se misturar à soja. Cabe ao fabricante garantir que isso não aconteça”, afirma Mendonça. Segundo ele, a legislação brasileira atribui ao produtor da ração a responsabilidade direta pelo controle de qualidade, cabendo ao poder público a fiscalização e a apuração quando surgem denúncias.
O pesquisador da UFRRPE defende o reforço dos mecanismos de controle na cadeia de produção de ração e a ampliação do monitoramento dos rebanhos afetados. O objetivo é evitar novos episódios e esclarecer se os efeitos da contaminação podem atravessar gerações na equinocultura brasileira.
Como principal conclusão, o artigo aponta a necessidade de mudanças estruturais no setor, com fortalecimento das políticas de autocontrole previstas em lei, maior rigor na rastreabilidade de matérias-primas, fiscalização contínua das fábricas de ração e integração efetiva entre empresas, órgãos reguladores e laboratórios de diagnóstico.
O artigo afirma que o episódio deve ser entendido como um marco para a consolidação das políticas de autocontrole previstas na Lei nº 14.515/2022, que atribui às próprias empresas a responsabilidade direta por garantir a segurança, a qualidade e a conformidade legal dos produtos destinados à alimentação animal. “Quem já foi afetado, obviamente, sofreu de forma muito grave. São necessárias políticas públicas e leis mais rigorosas para que isso nunca mais aconteça”, enfatiza Fábio Mendonça.
Segundo os autores, tragédias dessa magnitude não devem ser tratadas como eventos isolados, mas como alertas para prevenir novos episódios com impactos sanitários, econômicos e sociais semelhantes.
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